segunda-feira, 30 de março de 2015

Trajeto em Tempos Voláteis





Trajeto em Tempos Voláteis. Fragmentos de livro de gramática da língua portuguesa sobre papel, 2013.

terça-feira, 24 de março de 2015

A Queda do Verbo






A Queda do Verbo. Fragmentos de livro de gramática da língua portuguesa e linha sobre papel, 2014.

domingo, 22 de março de 2015

O Dia da Caça




Detalhe do meu trabalho Duchenne ou Análise da Expressão das Paixões, Aplicáveis ​​à Prática das Artes Plásticas, 2014 (em processo). 

http://cargocollective.com/leotavares

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O Tempo dos Parapeitos




É preciso correr. É preciso escrever. É preciso concluir. Criar. É preciso. Arrebentar a redoma da hesitação, romper a casca do tédio, da morosidade e da distração, chutar o invólucro do cansaço e da vontade de desistência. Produzir, produzir, contribuir. Ajustar-se ao tempo. Ao tempo dos outros. Tempo institucionalizado, contabilizado, comprimido, entregue a nós como opção única, incontestável, ameaça mascarada de oferta, imposição fantasiada de convite. Aceitamos, preenchemos obedientes a carta de aceite do Tempo Unilateral que não foi por nós medido, preenchemos com pressa a carta, olha só, já adiantamos a lição de casa, estamos afinados com a regra, seremos utilitários, seremos agraciados com a dádiva da eficiência, estaremos em sintonia com o bom funcionamento das coisas, faremos parte da lógica, teremos nossa fatia do bolo. Engolido a seco, pois há urgência, há urgência de tudo, e qualquer atraso nos catapulta de volta para o fim da fila.

Olho com sede para o papel em branco, olho para o relógio, certifico-me da passagem absurda, sofro porque não há volta, nunca há volta para um segundo perdido, é necessário, é necessário, é necessário. O papel em branco sequer é papel. O processador de texto quer me engolir, dizer alguma coisa paranoica e ameaçadora como as máquinas de Burroughs, o pavor do branco começa a tomar conta da minha tarde, uma luz que cega no fim do túnel, esta direção profunda a nos indicar onde não chegamos nunca, e tenho pressa de chegar, tenho que ter pressa de chegar e finalmente agora, quase catatônico, e quase morto de vontade e de incapacidades (tantas, tantas), finalmente agora atiro para longe o relógio imaginário da produtividade e percebendo, depois de muito tempo, que respiro, crio coragem para me fazer a pergunta:

Chegar aonde, meu Deus?

Então aos poucos me desacelero e me desafogo, deixo pender dos ombros os fios que me ligavam a um gráfico monumental de responsabilidades, construído com afinco por mim mesmo, emaranhado voraz conectando tantos pontos a ponto de ter se tornado ininteligível. Vou para a sacada, é um lugar de lufadas, o desanuvio se instaura. Agora que percebi que respiro, rasguei o contrato, assumi o parapeito como vanguarda. É preciso olhar as coisas, o clichê inadiável que esteve sempre ensurdecido pela convenção das horas. Eu me permito o clichê, eu desisto das obrigações de originalidade, recuso o impecável, assumo um desejo imenso de falibilidade. O clichê vem me dar tapinhas no ombro, com a voz sedutora que os clichês têm ele me diz: escreva aí: é preciso olhar as coisas. Então eu olho, e o branco se dessacraliza e se dispersa pelo simples truque de fechar os olhos, pelo simples gesto de descer a tela, pela pressa – não, pela vontade expressa de me resguardar de culpas e desassossegos. E não escrevo mais, por hoje.

Recuso constrições reguladoras, inspiro fundo uma possibilidade de plenitude, mesmo em queda livre. Arquiteto um hoje que tem quarenta e oito horas, depois expando o meu hoje para setenta e duas e acordo para um amanhã de cinco minutos. Saio pela porta disposto a desafiar o tempo. O escândalo de se permitir uma vida menos onomatopaica, mais estática, silenciada. Dou de ombros, porque de repente os olhos dos outros deixaram de ser semáforos.

Transito, escrevo em pensamento, é preciso escrever. Inventar um tempo, é preciso. Espero. Adentro a página, não tenho ainda quase nada a dizer. Aguardo. Se não vier amanhã, melhor. Condenso ausências, e, de falta em falta, uma hora desabo. Vou chover em breve, aguardo.


Imagem: Trabalho da artista Yasmin Adorno, parte de uma série em processo. Clique sobre a imagem para visualizá-lo melhor.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Estiagem


Tento me desfazer da carcaça dos dias. Entulhos de esperas e irrevogáveis tarefas, como colocar o ponto final no que ninguém vai ler ou arrumar o quarto que insiste na desordem e no pó. Refazer as coisas, sucumbir às engrenagens cíclicas, ter força para apenas estirar o olhar cansado sobre o moinho, nunca pará-lo, nunca diminuir sua progressiva velocidade. O mundo está se agarrando ao dito pela superfície, o mundo está satisfeito com a casca que cobre os vazios, a vida não quer mais saber de adentrar as coisas.
O incomunicável ainda resiste, força passagem pelas brechas das horas, quer abrigo em alguma parte mais escura de mim, mas está aos poucos cedendo, vai se metamorfosear em mobília. Será uma coisa maciça, castanha e envelhecida. Com serventia. Vou abrir a gaveta dele e guardar dentro uma porção de mal-entendidos, impressões incanceláveis de desconfortos e mágoas. E alguns silêncios e alguns engasgos, para me lembrar, de vez em quando, que algumas coisas ainda se calam. 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Miragem



Era uma terra amarela, e quando se olhava adiante, perdiam-se de vista os sulcos profundos que sepultavam relâmpagos na linha do horizonte. A casa tinha um alpendre que fazia as vezes de proa, porque o que se olhava já não era mais a paisagem. Era um além do leste, onde, imaginavam, abria-se o mar. Nos fins de tarde, quando chovia, um cheiro salgado trazia às janelas uma confirmação de existência, e a vida seguia mítica, latejando prospectivas de viagens.Não se sabe ao certo se algum dia partiram. Durante muito tempo só se ouvia nas redondezas um uivo de cão que competia com o vento. Amarrado à única árvore, com uma corda de um metro e meio, também o tivera, em seus primeiros anos, delírios de oceano. Depois de eras inteiras em que o céu engolia os peixes que a fome dos olhos fecundava, o esquecimento do sonho apaziguou um dia o anseio de alimentos quiméricos.O tempo roía o ventre fundo e seco e também roera as vísceras que há tanto o ligavam à árvore, mas ele jamais se moveu além da área uma vez delimitada pelo repuxar da corda. De fato, sempre que avançava um pouco mais do que seus passos rotineiros, algo invisível o impedia de seguir adiante, e o catapultava de volta, como se estivesse encantado.Atrás da árvore, a casa virara ruína, depois amontoado de pedregulhos, depois mato. Não sobrou nada dos muros adiante, nem do caminho que serpenteava entre os veios em direção à cidade, nem a cidade. A árvore permanecia lá, retorcida como uma rachadura no fim do mundo, e o cão esperava, sob uma sombra fantasmagórica, que o mar invadisse o horizonte e depois as serras, arrebentando pedras e murmurando os nomes das coisas que ainda não foram fundadas.
Imagem: Iberê Camargo. No Vento e na Terra II (1982) - Coleção Iberê Camargo