quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Jimmy (ou Quarto com Vista)

Vontade de dizer pra alguém “volta pra casa”. Necessidade de espera. De estar esperando e sabendo que vem. Esse espaço cuja extensão e densidade de escuros só aumenta teria recebido promessas de luz. Pra amanhã, pra depois. Teria mais a ver com esperança do que com desolação. Desertos imensos como paisagem de memória. Não. Queria lembrar de quartos pequenos e aconchegantes recantos. Camas bagunçadas com sol por cima e vento leve dando motivo para frases como: me abraça forte agora.

Vontade de ver materializado, nem que seja por um dia ou dois, o algo mais clichê, a utopia merecedora do nome, o brilho raro por dentro das superfícies insignificantes: alguma coisa verdadeira nisso tudo.

Eu tenho urgências. Tenho desejos que estremecem a solidez destes platôs inventados para uma sobrevivência acima dos amores ilusórios. Tenho frêmitos que começam com um roçar quase imperceptível de cílios sobre a pele e terminam em temporais que abarcam certas coisas: um pequeno quarto da memória, camas com sóis e essas tantas frases forjadas no bem querer. Proximidade cósmica. Diálogos eloqüentes sem proferir palavra. Um com o outro, pelo outro, dois. Um e Um, Dois. Um e Um, Uno.

Sim, tenho urgências. Necessidade de dizer “volta” antes que a densidade turva dessas tantas águas passadas atinja o teto e desfaça sol e cama. Afogue frases como “me abraça forte agora”.
Sem náufragos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Estação das Chuvas

Tudo se alonga escandalosamente para os quatro pontos cardeais. Eu tenho febre e vertigem, mas arrisco a vida para ficar dentro do eixo. Às vezes a cidade me parece absurda, improvável, com seu orgulho grave e medo de ter graça. O verde abundante pretende disfarçar a esterilidade eterna que ostentam as construções; dentro delas, solidões de toda a sorte, e um descaso por quadra, ao menos.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Funeral

Permanecia em silêncio, nesses últimos tempos. Chegou aqui numa noite qualquer e acabou ficando. Tinha um jeito encurvado de movimentar-se pela casa, desajeitadamente, como se não coubesse em lugar algum. Acho que é por isso que gostava dos cantos. Quando passava pela gente trazia no olhar um pedido eterno de desculpas. Às vezes eu olhava para ela durante um longo tempo, bem dentro dos olhos, tentando entender o que eles viam. Eram olhares graves, de quem já viveu o suficiente e nunca se recuperou do medo. Mas tinha horas que ela parecia estar sorrindo.
Hoje foi um dia frio e eu mantive as janelas fechadas. Caminhei há pouco pelo quintal e me detive um momento diante de um canto vazio. Ainda ontem ela se aproximou de mim, ali mesmo, e tocou minha mão com a cabeça, como se quisesse dizer alguma coisa.
A casa está quieta como sempre esteve, mas comecei a sentir falta da presença.
Nem vi quando a levaram. A gente vai ficando cada vez mais avesso às despedidas. Imaginei o barulho das rodas do carrinho de mão subindo a ladeira que vai até o pé da serra. Não escutei nada. Agora o vento se esgueira pelos galhos e pede para entrar. Olho pela janela o recorte dos morros a dois, três quilômetros daqui.
Ela está descansando, numa clareira entre as árvores, desde manhã cedo e para sempre.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Eu tenho medo de Reich, de Hippies e de Reflexos

O velho hippie flexiona os braços e estufa o peito dentro da camiseta indiana e começa a dar as instruções. Há uma parede revestida de espelhos e na outra extremidade da sala há uma parede com sete janelas. Atrás delas tem um campo de futebol abandonado, com a grama muito alta e uma placa de “interditado”. À minha frente, a extensão da sala abrange o círculo de gente em que o velho hippie nos dispôs. Além deles, além das janelas, vejo árvores do cerrado e mato em profusão. Os pavilhões de concreto se estendem bem ao longe. Chove fraco, mas o céu está cor de chumbo.
Fico tentando ler os pensamentos da minha amiga, e logo desisto quando o meu corpo começa a obedecer às instruções da voz do professor. De vez em quando olho para o lado e o cara no espelho está com medo de alguma coisa que não sabe dizer o que é. O professor fala sobre conhecer a si mesmo, teorias reichnianas sobre doenças psicossomáticas, a rotina caótica do mundo de hoje e o que está se tornando o nosso cérebro.
Amarelo também é tédio. A voz ordena “fechem os olhos”, e eu quero fugir da cor e fecho. Depois ela fala para continuar olhando, de olhos fechados, o mais longe no horizonte. Eu vou bem longe.
Duas horas depois, procuro o homem dentro do espelho, e constato com alívio que ele não está ali.
Hoje eu acordei com medo e ele reapareceu na janela. Tive uma dúvida e vi o reflexo dele quando colocava os óculos. Fiquei cansado e não quis nem olhar para os lados.
Agora é noite e eu queria aproveitar a minha vida. Respirei fundo e aceitei tudo, até que tenha forças para proclamar recusas. Enquanto isso, ele aparece, de vez em quando. Mas não se demora muito tempo.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

re'cordis

Eu fui voltando para trás, até chegar no tempo em que eu não tinha nascido, que é o tempo que eu mais me lembro.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Chegada

Parece que eu tava correndo doidamente pra chegar a algum lugar que eu sabia qual era. E cadê o lugar? A gente chega sem fôlego e onde era pra ser cidade, vale, água ou estrada –qualquer ponto concreto situado na terra- está o abismo absoluto. Aquele isento de paisagem, sem cor, sem forma, massa cinzenta assomando acima e abaixo e para todas as direções. O coração dá um salto, mas os pés estão imóveis. Cadê o lugar, cadê o lugar? Se eu estender a mão agora, vou tocar o vazio. Não quero lançar-me ao Nada. Também não posso voltar. Tampouco me agrada a imobilidade. Para onde eu vou, Deus? Me ajuda agora, mais que nunca, a fugir do teu abraço. Tenho tanto medo e tanta vida pela frente.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Notas do Lado de Cá

Minha meta agora é tão simples. Posso fumar até dez cigarros por dia. Não bebo café, faço as posições de ioga que consigo me lembrar daquelas poucas aulas e danço, danço muito. Na frente do espelho, sem compromisso, desajeitado.

Beber muita água é fácil.

***

Tenho olhado anúncios de emprego, tenho torcido o nariz para todos eles e, no entanto, sei da urgência em preencher ao máximo o meu tempo. E o meu bolso.

Pensamentos indesejados sempre voltam, mas aprendi a afastá-los como moscas.

***

Ontem pensei em morar na Albânia ou na Moldávia, qualquer lugar bem longe. Alguém me disse que a Albânia tem uma vista linda para o Mediterrâneo; é como estar na Grécia sem pagar o que se paga na Grécia para estar lá.

Seria lindo te esquecer diante do Mediterrâneo.

***

Conheci uma pessoa. Ostentei minha indisponibilidade, não fui agradável. Depois pedi desculpas e planejei uma fuga. Mas no meio disso surpreendi-me querendo aquela presença estranha. Ele tinha algo que eu queria, não sei dizer o quê. Isso acontece pouco. Retornei disposto a me redimir e não o vi mais.

Agora espero e não sei o que vai acontecer. Mas não será amor.

***

Tenho me dedicado à fotografia, mais que nunca. Levo para todo lugar uma câmera emprestada dentro da mochila. Um dia vou ter a minha, talvez na Albânia.

Pouca coisa me interessa.

***

Camilla vai embora. Cada vez mais me acostumo às ausências. Penso em adaptações. Outro dia Otávio disse: adapte-me a uma cama boa. Essa frase ficou gravada.

Pensei muito nisso também.

***

Sinto culpa, mas sinto muito: tem doído menos. Eu queria as dores corrosivas para ser consumido até o fim. Gestos de aspersão das tuas mãos em rituais lentos. Agora acordo e percebo partes recompostas.

Hoje de manhã chovia muito. Voltei a ter um jeito de olhar que eu tinha.

***

Outro dia conversei contigo. Era de noite e eu estava sozinho no quarto. Te disse que você faria um bom Encólpio, no Satyricon de Petrônio. Isso porque vi novamente a adaptação do Fellini para o cinema e quis te dizer o quanto eu amo Fellini e o quanto eu amo o cinema e o quanto te vejo em alguns filmes. Resquício daquela euforia que eu tinha por querer dividir contigo os meus amores, dessa forma estranha e ignorada, acostumada ao desprezo involuntário. Não, não é tua culpa mais. O que nos unia se rompeu há muito, de tão frágil. Mas te digo: farias um bom Encólpio.

Assista Fellini, quantos puder.

***

Até breve, boa viagem


L.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Bolero

Perdoa os meus dedos quando eles te buscam, voluntária ou involuntariamente, porque tem horas que a tua pele faz chamados e porque noutras eles apenas sentem saudade. Perdoa as minhas mãos pela falta de responsabilidade que os impele ao toque. Quando as minhas digitais te sujam com um amor mesquinho ou te assustam com um amor medonho ou te queimam com um amor centelha ou te escurecem a brancura com um amor noite ou te confundem com um amor incompreensível. Ou ainda quando te sufocam com um amor arsênico. Faz vista grossa da minha inaptidão para a imobilidade, releva meu descompasso quando é proposital a proximidade. Quando invado sem permissão teus olhos é porque à tua volta as coisas possuem outra órbita. Então abranda a ira diante das minhas palavras e diante da minha imagem, ainda que me feche as portas.

Perdoa os meus dentes quando a minha voracidade se manifesta num beijo. Perdoa os desajeitados trejeitos e a fremência dos lábios e a boca que não se cala quando desejas silêncio. Perdoa a garganta se na tua frente ainda hoje engulo em seco. Perdoa o desejo

Perdoa a falta de graça dos meus gestos, a agudez indiscreta dos meus olhares. Perdoa os meus olhos pela ausência de alguma coisa necessária às seduções, à segurança e ao riso fácil; perdoa-os também pela eloqüência e pela transparente mágoa. Perdoa os olhares de canto, quando a pobreza das visões periféricas já me satisfazem após dias e dias de ausência. Mais que tudo perdoa a minha incômoda presença, e a minha voz, dona de fala.

Perdoa-me a insistência, o absurdo contraste entre a minha placidez de lago e meu interior de lavas; minhas síncopes diante da tua natureza rara. Desculpa por entrar na sala e querer sentar ao teu lado. Faça pouco caso dos meus gracejos, esqueça minha atenção velada. E perdoa também quando irrompo abrupto os teus espaços: esse meu descomunal horror à liberdade.

Do mesmo modo te perdôo o infeliz descaso, quando tua atenção aos outros é sempre farta, e os silêncios afiados e as frases parcas, quando conheço o teu talento com palavras. Também perdôo a inaptidão para as mais simples humanidades, quando sei que afeto não te falta. Relevo os medos incabidos e as incompletudes de gestos; a ambigüidade exacerbada. Entristece-me teu gosto pelo meramente belo, quando te sei artista e raro, mas prometo aceitar que desmedidas acontecem na mesma proporção que tantos olhos se fecham. À artificialidade e a inquietude curiosa e ainda incansável, perdôo a tua idade.

E quem sabe um dia, tendo encontrado na reflexão pacífica alguma coisa de altruísta, eu venha a perdoar o Acaso pelo encontro; março, abril e maio pelos tantos vôos, e sobretudo a mim mesmo, pela incapacidade de te impedir passagem, de te pedir paragem ao me fazer à tua frente muro alto árvore frondosa navio naufragado sol ou arma: um homem.

Anunciação

Agora eu sei de murmúrios ecoados, gravados na pedra imemorial do desejo. Escuto tudo e sei que os anjos têm três grupos de cordas vocais, que é para cantar elegias nesses vales daqui, ou para gritar em êxtase estrelado quando enxergam os vaga-lumes sobre os prados e os rios de mim.

Eles me mostraram caminhos bifurcados que eu nem suspeitava nesse coração de travas e cancelas. Agora ando a viver em ravinas e durmo repousante sono sobre os sulcos profundos das lembranças. Quando sonho com Deus, ardo numa febre iluminada e mansa. Começo a lida arando o teu pensamento, a fim de abrir espaço para as minhas sementes. Verto água e suor e sangue, e quando o dia finda alaranjado penso incêndios no céu. É um ruído de colunas que desabam, é um grito de ouro derretendo sobre nuvens azuladas. É uma asa planando, decepada, a chocar-se contra constelações e nebulosas. Não me despeço quando eles partem. Compreendo o tempo de retornar à casa, sozinho no silêncio orvalhado e humilde, que é o do amor refletido em suas possibilidades e limites. Me curvo às poças com sede de uma água espelhada e impossível.
Eles me ensinaram. Deixaram-me ler palavras que jamais serão escritas em língua alguma para que eu as repita com a boca cravada no teu coração. Depois me ungiram de claridade e clarividência. Agora faço o primeiro desenho do invisível e te liberto no infinito. Até que um dia seremos anjos, quem sabe.
E tudo quanto não é desejo.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Malaise

Quem era eu, na tarde? Vinha uma voz crescendo lenta e transfigurada, sem um rosto na neblina. Os avós há muito tempo mortos, e a minha casa tão distante quanto um sonho de criança. Eu brincava com uma folha quase seca. Eu brincava com a réstia de sol dentro da folha.

Quantas réstias até que secassem as folhas todas, o quintal e o menino?

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Noturno Amargo

O mais velho dedilha, em camisa de listras, igual aquela do Picasso, o mais novo adormece sobre um pufe rosa, o do meio olha pela janela alguma coisa tremeluzente na cidade e pensa lusco-fuscos. A moça tenta conter uma lágrima por antigo romance e se concentra na música de uma maneira estranha, que é não ouvir demais pra não sentir demais o arco roçando as cordas e a melodia preenchendo as paredes e abrindo a porta, o cheiro da madeira alguma flor mortífera a noite toda para o mais novo algum gás sonífero. Seu pijama tem motivos infantis, mas não é criança. Os quatro pertencem à casa, e a mais nada além da casa e uns aos outros. O mundo é qualquer coisa de garra, qualquer coisa de lume afiado reluzente e brando convidativo para a pele dos corações jovens.

 
Olhei de longe para não perturbar a intimidade e disso pintei na memória um quadro. Estranho lembrar-me de fatos, e pintar a cena que imaginei para filme quando ainda éramos mudos e eu usava fraque e não me ocupava de dores-agulhas amor acupuntura pelo corpo todo porque este amor é de corpo. Meu deus minúsculo deus feio, como estremeço quando aproximo do dele o meu joelho, masculino, viril guerreiro, sim ele está em idade de partir para a guerra. Tão lindas as guerras imaginadas, pai. O sânscrito nar o itálico ner, do gaulês o naro, valente alegre forte. Andreios Andreas, Andrzej. Os séculos te sabiam antes como eu te sabia antes e não te sei agora.

Nada importa nesta sala. Lembrar-te me desvia do violino que o mais velho empunha como arma. Ver-te no pensamento me sossega como o sono do mais novo. O do meio agora me olha com um desejo incrédulo de si mesmo porque o belo se assusta quando a noite vem lhe latejar entre as pernas e eu sou o lobo olhando pela janela. A moça se aproxima oferecendo um seio e eu acaricio seus cabelos. Querer-te me desvia desta irmã tardia e amanhecendo eu abandono os quatro em suas mortes horrendas que acontecem o tempo todo. O que dorme não sente nada, nem sequer sangra. A que chora nunca soube que morreu. O violinista nem se importa, e dizem, ainda toca. O outro me procura pela madrugada futura e me sussurra a vida inteira: lusco-fusco, latejo estrelas. Eu me acostumo a recusá-lo enrijecido. E ainda te quero, senil e velho, porque teu fantasma é mais vivo.

Para "Bridges and Balloons"

Oito meses em alto mar, ela descia agora da caravela. Tocou os pés no chão, lembrou-se de como era pisar em terra e logo um estranhamento tomou conta do seu ser. Parecia que o solo se movia para lá e para cá e que não existiam coisas imóveis em todo o mundo sólido que circundava os mares. As velas balançavam rasgadas ao curso de um vento seco, morno. As moças pulavam uma a uma na areia, buscando apressadamente ajeitar cabelos desgrenhados dentro de chapéus encardidos. Os canários agitavam-se nas gaiolas diante da presença absurda do verde. Tinham olhares ávidos e tristes, talvez pressentindo que ninguém ali os libertaria e gritavam em euforia à visão colorida dos balões à gás que subiam ao longe. Ela aproximou-se da beira da água enquanto a embarcação se distanciava em retorno ao imenso nada azul. Depois deu dois passos para trás e lá pelo trigésimo, não sentia mais vertigem.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Caro Data Vermibus

Eu poderia
Languidez somática
Trazer-te febres
Calafrios
Ou nojos irrecusáveis
Quem sabe
Acompanhados
De prazeres inteligíveis
A substituir tuas palavras ocas
Por gemidos roucos
Com um toque
Dedos abertos
Mão espalmada sobre as tuas costas
E estremecidas coxas
Com a língua entrar tão fundo
A te desenhar estrelas no céu da boca
Eu poderia fazer-te tão meu
Que tu me dirias: toma o meu gosto,
É teu
Filho morto sobre o meu peito
Sopro morno em feridas abertas:
É tudo sêmem e sangue
Semeaduras que entardecem em tardes úmidas,
Lidas duras, árduo labor
Sobre lençóis e viscos.
Aos meus ouvidos teus suspiros sôfregos
De quem não teme o corte
Quando afaga o vidro.
Soluções gregas, mas satisfatórias
Torpor de ser consumido.
A ti a sombra de um desejo tardio
Projeta nossos corpos sobre a luz do dia.
Juro,
Poderia.


Nem ouso.

domingo, 25 de outubro de 2009

Helicoidal

A janela sem cortina e sem móbile agora ostenta um vazio obsceno
Nudez de velha,
Morte apodrecendo peles
E vida fazendo mato crescer do outro lado.
Nunca entro no jardim.
Lá fora uma cidade monstruosa engole gritos de crepúsculo
E os mortos invadem supermercados
Aqui, meus dedos organizam contas azuis numa gaveta
Reservada para poemas renunciados e cartas que não vou enviar.
Sentei-me à sala, sob a luminária
Um cigarro se consumiu esquecido
Em espirais sem ritmo.
O tempo resgata cenas na parede,
Dança de sombras.
Ao mesmo passo que a pintura descasca
Para entrever pequenos insetos que nascem,
Uma mariposa dança tonta em torno de bojos e lâmpadas.
Até queimar.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Notas Azuis

Meu tempo de choro
Meu sopro no coração
Meus dias noturnos,
My blue notes.
O tempo que eu perco
Na execução da mesma cena
De um mesmo eterno filme
De uma mesma entranhada canção.
My blue notes,
Meu lamento e minha liberdade,
Arritmias cardíacas em cartas emaranhadas ,
Sofrimentos de antemão.
My blue notes,
Taças estraçalhadas
Por estranhas saudades vaudeville.
My blue notes,
Fumaça e sonhos de nanquim
Negros em bares lamentando os milhares
Fellinianos palhaços em mim.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Calendário

Passou agosto, com seus abrasivos astros
Rotativas luas, mil pés de aço cortando os céus.
Veio setembro, cata-ventos arrancando pétalas
Desmanchando desenhos de bichos
Crateras azuis entre nuvens
Se formaram por sopros divinos
Formas tardias de aviões riscando alturas
Me entregam sempre e sempre o que já passou
Nunca capturo a tempo
As coisas que não perduram.
Teu nariz à meia-luz ou um cacho do teu cabelo visto às cinco da tarde
O teu dedo longo que sabe escrever em névoas.
Chegou outubro,
Não me contive e te desenhei de novo
Escrevi cartas
Tive arroubos de insanidade.
Vem novembro
Eu já vislumbro
Qualquer rastro de esquecimento
E me agarro em alças de bruma
É uma esperança tola e irrecusável
Transmutação
Alquimia
Ter peso de espuma
Pra ver dezembro do alto.

domingo, 11 de outubro de 2009

A Enguia

Na rua os espelhos ácidos de uma chuva que demorou mais tempo que devia. Folhas e cacos, vento e barro nas vidraças. O tempo batendo de frente nos pára-choques. Uma vida em trânsito: movimento de pára-brisas contra gotas de néon.
A gente volta pra casa, a testa na janela embaçada, ônibus lotado de sonho e cansaço. Esvazio as minhas ilusões por uma fresta estreita no coração. É como se abandonasse um pulmão na primeira sarjeta.
Algumas coisas brilham no escuro. Imagino enguias e moréias seguindo o curso dos esgotos de Brasília. São lindas e misteriosas como qualquer coisa que eu perdi e não quero me lembrar.
Andei uma vez anguiliforme, a forçar passagem pelo teu pensamento. Andei uma vez sob a chuva, em busca do encontro, e te vi lá embaixo, também sozinho, mas caminhando em fuga. Andei uma vez com os lábios solitários a secar na noite dessa ausência, e os toquei de leve, com uma língua ferina e invejosa, destinada às palavras e dos beijos, separada.
Uma vez eu andei a confrontar meu destino, querendo a mão do Acaso para bagunçar todas as coisas tediosas e certas. Sob a chuva as luzes turvas de cidades impiedosas sempre me negaram encontros. Sob o sol o tempo foi incansável em protelar esse tipo de sonho.
O ônibus voa pela noite escura. Desemboca rutilante dentro de ruas anônimas. Alguém desce.
Barulhos sinistros quando esses tantos quase vivos pisam a lama, e por dentro dançam na superfície da lua.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O Tempo Esmaece, Nina



Um dia eu abri a porta, como se fosse pra sempre, e olhei bem em volta, como se nunca tivesse visto o meu quintal, a rua, o mundo todo. Tem dias que acordo com a estranheza de quem perdeu a memória. Hoje me interessa a vida das folhas secas, Nina andando a esmo entre as árvores para o encantamento das minhas lentes, as quedas cíclicas cujo movimento jamais percebemos, os corpos sobre o solo, repousantes sonos ou sentidas mortes, lamentos breves de quem só lembra que a cura vem, e então espera em silêncio o esmaecer.

Estamos para sempre deitados na grama, perto da biblioteca. Estamos felizes, ou fingimos amores para passar o tempo, ou amamos tanto que o tempo para e se faz retrato na memória. Estamos para sempre deitados, lado a lado, e para sempre é abril e o céu tem alguma coisa diferente, e a vida é palpável como o verde sob os nossos corpos. E não estamos.

O nunca mais quase me fere quando o vejo sombreando as copas amareladas e os degraus de pedra onde pouca gente passa. O nunca mais quase me vence quando é uma da tarde e me aproximo de lugares onde antes descansávamos de nossas rotinas, sua cabeça sobre as minhas pernas, minhas mãos sobre os teus cabelos. Depois o nunca vem me dizer no ouvido que é tão para sempre quanto o próprio, porque é o contrário de si mesmo. Porque a vida é cíclica e só existem mesmo as imagens, rodando como num filme. Estas ficam, e são minhas. Estamos para sempre deitados na grama, perto da biblioteca. Para sempre o abraço longo entardecendo junto ao lago, e uma inscrição na árvore, e um vapor no vidro, e uma voz que diz “te adoro” e um olhar que morre na curva dos lábios alheios, e algumas cartas enterradas na pretensa delicadeza de um esquife em miniatura.

Eu olho saudoso, mas terno e grave. Prendo imagens numa câmera, quero buscá-las a vida toda. Voltar a elas. Nina está para sempre entre as árvores, passo curto, mas muito leve. As folhas produzem ruídos de tempo sob seus pés, e secam sem parar. No meu peito, é ainda abril.

Por todos os lados coisas maturam.

domingo, 4 de outubro de 2009

Formigas

O que fiz daquelas forças genuínas que me faziam antes enxergar a clareza opaca, pouco brilhante que reveste as pequenezas? Desde quando dei por ouro a superfície fosca destes frágeis estrados, julgando-os palcos ou nobres arenas, quando eram estruturas grosseiras para as comédias mais esquecíveis?

Subestimei estas forças e agora quero-as de volta porque preciso recusar de vez a palidez enfática do descaso, da importância amigável, das meras simpatias. Para mim nada menos que o vasto. Sempre vislumbrei o vasto porque minha natureza se desenvolveu nos desenhos dos penhascos: à beira. Vastidões me circundam, me crêem, me circunscrevem de uma outra forma que não a do miúdo, parco amor que satisfaz o amante sonâmbulo quando o recebe das mãos do desperto amado.

Começo a destruir pedestais, porque eles não servem para seres humanos. A ingenuidade, a avidez idiotizada dos poucos anos, a covardia extrema, tudo isto contribui para a cegueira que dá lugar às contemplações. Jamais compreendem o imenso dentro do imenso, a eternidade de espaço e a amplitude de tempo que se confundem e despertam o olhar grandioso sobre uma paisagem.

Não conhecem o imenso, recusam-se a conhecê-lo. Só avançam adiante, nunca acima. O imenso se suja com o seu olhar pobre, míope, daltônico. O imenso se fere com suas presenças-peso, pele e trapos revestindo podridões que se pretendem egos. O imenso se ressente quando o confundem com eles mesmos, quando o julgam presente em suas vidas simbólicas, sempre simbólicas, porque nele põem maquiagens e máscaras aviltantes para disfarçar os atos mais insólitos, as vontades mais fúteis e os desejos unicamente materiais.

Não sabem, não querem saber da impossível existência física do imenso. E se tudo é corpo, e tudo é gesto, e se tudo é expressão de exacerbado amor-próprio, então o imenso é nada. E sendo nada, se compraz em sua intangibilidade.

O imenso não se cansa nem odeia. Ama, mas é com nojo do próprio desperdício. Ele se entristece diante das paixões pelos espelhos, ele se revolta com os egoísmos burros e as posturas ferrenhas, ele desiste dos fracos que se julgam muralhas.

Ele não fala mais comigo, e por fim, pede silêncio.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Todo dia é segunda-feira


Se amanhã será a mesma coisa
Por que é que eu durmo,
E uma vez dormindo, quando cedo a um sono
Irrefutável e manso,
Que força é essa que me vem, sem clamor e convite
Para abrir-me os olhos ao dia-ontem?
De tanto repetir-se
Chega uma hora que o presente se desgasta
Fica pardo, fica turvo,
Fica em pedaços.
E o futuro um fantasma de feto
Querendo romper esta vasectomia divina.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

No Meu Canto

A luz da rua
Minha aura misturada
Com a tela da tv
Nem me lembro do meu dia
Mudo o canal
Mantenho o tédio nas cobertas
E a esperança atrás da porta
Porque cansa convidar pra entrar

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Devaneios Noturnos sobre Rapazes e Gatos

Céu de ontem na parede, quantos dias nas gavetas. A noite está quieta, está tudo em seu lugar, mas o gato não veio reclamar comida. Deixo as luzes acesas pra fingir que tem gente, canto alto pra me fazer de feliz. Quando durmo, o trânsito passa em sombras dentro da sombra da janela e então me pacifico.

Meu amigo está atrás das lentes do sonho e eu estou lendo romances sob a luminária; quase esqueço que estou morrendo. Depois rio do exagero e me perco no desenho. Às vezes parece que o mundo se resume em poucos traços. Deve ser mesmo muito mais fácil seguir estradinhas de aquarela do que atravessar pontes de carvão e nanquim, pedindo carona e amor em coisas abstratas.

Às vezes me perco traçando a mesma meta, sempre o mesmo triste plano, trilhando um caminho pra dentro. Imagino que territórios desolados a seguir, já sem surpresa ou medo. Depois de um tempo no máximo mera curiosidade. Uma curiosidade desconfiada renegando o próprio semblante: amarguras, afastem-se de mim.

Ainda quero o torpor das coisas recuperáveis. Como quem abandona um livro e volta a ele tempos depois: coisas mágicas estiveram escondidas naquelas páginas, ou era a minha percepção de antes míope, pouco cuidadosa? Dá-me o susto dos descobrimentos.

Pra hoje eu só queria a certeza de que o sumiço do gato é apenas um retiro temporário para aventuras quixotescas nos telhados. Pra hoje o meu rapaz comigo, lendo um livro qualquer pra passar o tempo, enquanto eu desvendo meu próprio tempo dentro de um abraço, ou ainda num beijo transgrido noções espaciais, físicas e por que não, além do exato. Silêncio e calma observando as sombras na minha parede, e o mundo lá fora querendo entrar.

Agora é o momento de apagar a luz e fechar o livro. Cobertas envolvem um sem-fim de mundos sobre a minha pele.

Amarguras, afastem-se.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Caravana

Queremos ir embora
Silenciosos e secos
Repitam comigo:
Queremos ir embora
Sem ruídos, abraços
Teclas e cordas
Roupas e terços.
Apenas passos
De leve
Pisando asfalto
Como se fosse a superfície da lua.
Nada mais de oferecer
Âmago
Pra quem só entende rasuras.
Nada mais de perfurar
Mentalidades
Com o metal espiralado
E barulhento
Da nossa máquina de desejo
Nada mais de ser sôfrego e atento,
Carinhoso e lento.
Agora apressa
Porque a manhã chega
Com seu brilho esperançoso
Veneno viscoso dos que acreditam.
Não.
Queremos ir embora,
Repitam comigo,
Soprando cada centelha
Nos olhos falsos que pensam
“eu amo”.
Coração intumescido do néctar de cobras.
Desvendando cada fresta
De pedra sobre harmonias virulentas,
Riremos cegos sem achar graça de nada
Repitam comigo:
Que a vida é uma espera ridícula
E esgotada.

domingo, 27 de setembro de 2009

Ah!

Ah, procurei no minúsculo o vasto
Vasculhei pelo lixo relíquias
Regurgitei o amor em sarjetas
Sujeitei meu corpo às sujeiras
Tantas dos alheios
Almejei com força o mistério
Misturei com ímpeto os opostos
Operei tramas argutas
Argumentei rezas e lutas
Lubrifiquei-me em festa
Fantasiei-me de santos e putas
Lamentei o que resta
Dessas tantas almas rompidas
Romantizei o nojo:
Nobres meninos se forjaram em lobos
Para adentrar minha noite
Em santificado gozo.
Mas nunca aprendi
Coisa alguma sobre o emaranhado viscoso
Desta teia que se faz o meu corpo
Enforcando em gemidos
Assassinando em dolorosos sorrisos
Sem rastros de amor,
Esses frágeis moços.

Avessos


Virando ruas crepusculares
Virando copos redentores
Virando noites em desesperança
Virando fantasma sem memória
Virando mesas,
Virando bicho
Virando o tempo
Se desgasta o meu olhar
Sobre o cor-de-rosa que existe entre o dia e a noite
Se esvai o líquido que sorvo por sobrevivência
Se desfaz em aurora o assassinato de qualquer crença
E se renova em vida corpórea o que antes se revelara essência.
E se torna sólido ao se reerguer o que fora destruído,
E se torna humano o que se transformara em bicho.
Depois se faz a morte anônima, em arremedo de transcendência,
Do que sempre se quisera presença.
Ah, era física e era extrema, a tua ausência.

domingo, 20 de setembro de 2009

Ecos

A tarde escoa pelas copas sombrias. É uma luz muito branca que vai se apagando nos cantos, sob os telhados e os toldos, sobre as inscrições na calçada.Passantes serão sempre passantes, e mal dobram esquinas, já sinto saudades. O amor é algo perecível, mas de longa data... Cria vincos e esmorece em sépia, como aquela foto da senhorita Dickinson, que captura em meus olhos algo esquecido e em meu coração coloca pensamentos de ébano.

Como se chama uma caixa de música?

Como se chama esse ponto muito claro sobre o teu ombro?

Como se chama o meu beijo sobre o teu ombro?

Revoadas mortas atravessam a cidade (ao movimento sonoro de um móbile azul, que nome deram?) Eu atravesso teu peito em vôo rasante, mas evito a ousadia de um pouso. As revoadas estão mortas, para lá do Leste se desmancham em laranja e ocre, em restos de azul e rosa. São revoadas mortas indo pra casa. Não gosto de falar de cores. Não gosto das tardes submersas e turvas. Me fazem mal as esquinas vazias e os guarda-chuvas. Desvio o olhar desses lugares onde caminhamos sob o sol.

Como se chama um caminhar sob o sol?

Que nome tem uma adaga invisível?

Que nome deram à nudez da minha alma diante da tua?

A hora imóvel e eternizada, que hora é essa?

O teu tempo é o meu tempo?

Eu ando pelo quarto e fecho o peito à chave-tetra, mas há sempre fantasmas descobrindo passagens pelas frestas. A morte súbita por um suspiro ou calma bruta, é morte? Vida é? Estou mais curioso do que nunca.

Minha saudade das tuas mãos, que som é esse?

Minha saudade das tuas mãos, que sonho é esse?


(ecos).

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Setembro


Ele tem os pés bem enterrados numa areia cinzenta. O sol brilha entre os grãos, sobre os grãos, fora deles, ao lado e dentro. Pequenas pérolas que se enrolam nos pelos das pernas dele, em seus joelhos; emaranhados densos de terra que parecem não querer abandoná-lo nunca mais. Não quero. Sou eu. Me olha. Sol nas costas dele. Sal nos seus cabelos. Inveja. Sal eu sou. Me olha. Caracóis.
Eu levanto o rosto e dou uma boa olhada para o mais distante nessas águas. Parece que aprendi a respirar de novo apenas nesse instante. Estou em pé e diante de mim é tudo céu e calma. Setembro. De vez em quando olho para o lado, um pouco abaixo. Ele continua desenhando um “V” sobre a areia úmida desenhando um “R” sobre a areia cinzenta desenhando um “G” sobre a areia turva desenhando desenhando.

Eu quero pegar o dedo dele e ensiná-lo a desenhar um “L” imenso, toda a extensão de um “L” que percorre a praia e que tem uma curva sinuosa quando a vertical se encontra com a horizontal e umas ondas pequenas começam a fazer carinho na letra que nem línguas vorazes querendo devorar beijar integrar fazer parte da minha inicial. A inicial dele é meu fim.

Sombra. Lá longe, sombra. 13 anos sem ver o mar e agora vejo em sonho. É sonho? Talvez viagem acordado, espírito rompendo limites físicos e presença permitida através de algo mágico. Uma espécie de teletransporte que eu aprendi a usar quando dói muito. Quando os dias doem muito e é setembro e a gente faz aniversário e muda um pouco porque o tempo quer se fazer sentir. Ele vai mudar um pouco em breve e eu quero ver. Ele não me vê em presença quântica, e no entanto, aqui estou, bem ao lado dele. De vez em quando olho o mar que não vejo há 13 anos, de vez em quando sinto um carinho mudo e minha cabeça pesa e é levada a movimentar-se para a direção dele. Pés enterrados na areia cinzenta, cabelo desgrenhado e um olhar em mutação sobre as letras desenhadas à beira do mundo. Precipícios. Abismos. Ravinas.

O menino desenha. Pérolas. Caracóis. Areia e sal. Gosto de sangue quando eu mordo muito os lábios porque me desintegro e não quero ir. Vento que emudece minha voz, que apaga minha imagem, que é a minha voz gritando pra ele o meu nome, enquanto ele permanece muito concentrado em sua estranha conjuração de letras, nomes e homens, e eu grito e desapareço e nunca mais voltei à praia e ele não me escuta, mas suas mãos ficam imóveis por um segundo e sua cabeça se move na direção de onde eu não estou mais e seu ouvido recebe um murmúrio doce chamado ausência ou o que quer que seja, e ele podia jurar que escutara vozes e nunca vai saber que fora a minha. Bem ali, dois anos antes.

Imagem: Setembro - Léo Tavares- pastel sépia e sanguínea sobre cartão

domingo, 13 de setembro de 2009

Só Lembro que Algo Nos Unia

É um toque que se esgarça e não reflete nada além do susto eufórico do não-querer. Quando o beijo recusado me trouxe de volta o gosto amargo que é a medicina para a memória ruim e vívida. Só lembro que algo nos unia. Eu beijava um ponto de luz azul entre as tuas costas fugidias. Dizia “amor” para atingir teu plexo com voz de breu.
Queria ter te amado mais, como se fosse minha tarefa última. Isto agora é uma sombra que se eriça em existência vaga e assombrada, pressentindo em fuga a luz mortiça de um sol que se consome nas calçadas.
É assim o meu andar, retrilhando feixes mortos na memória, adentrando corpos desfeitos em nostalgia.
Azedume dos dias.
Cenhos franzidos para venturas ilusórias.
Sede cósmica rasgando espírito e garganta.
Passo afoito pela passagem escura do mesmo nada que abre a porta e convida sem graça a um confronto mudo, sem chás e músicas. Sem luminárias. Queria hoje usar armadura e elmo para receber cada golpe com firmeza, e poder lançar-me em arenas impossíveis. Sangue e areia. Esta terra que eu nunca quis ser e de onde arranco as infinitas raízes da tua presença. Você cresce como macegas, desordenado e ávido. É incrivelmente lindo.
Seja bem vindo ao descaso tedioso de rostos amáveis, meramente amáveis. A felicidade deles em dar-te as costas. Não quero presença, nem da minha sombra a companhia flutuante de uma lembrança-adaga.
Eu quero o sem-vida do monstro sob a água, e as cores do céu perpassando nossos braços trêmulos.

Eu quero minha boca nos teus cabelos
E entre tuas omoplatas os meus joelhos.


Embate e glória: a esperança vã pelo vão das horas entrevê antigas delicadezas que não mais me servem (me vê umas novas!)


Eu quero a culpa santa da morte em festa.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Jane's Departure

"E assim como parentes que à noite se encontram
Entre os jazigos conversamos,
Até que o musgo alcançou nossos lábios
E cobriu nossos nomes"
(Emily Dickinson)

 

Estou num sonho em que uso preto e a custo de dolorosas transições emblemáticas, místicas, grandiosas, eu diria quase olímpicas e algumas outras mais prosaicas, adquiri uma beleza insuspeita e sábia de mensageiro de revelações transcendentes não de Deus ou do Outro, mas de algo ainda mais misterioso e intangível, e é por isso que levo comigo uma vela e é por isso que os meus passos são lentos, embora precisos e firmes, e meus gestos tocam os ares como que ungidos de proficiência para as curas e as devastações mágicas. Deixo rastros de ruínas e apago sóis distantes como quem leva aos lábios polegar e indicador para depois pressionarem pavios acesos. Assopro em gelo, queimo em toques. Se olho, viram pedra pelo meu caminho. Estou assim denso, assim translúcido, assim depois de morto, com a pele que não é a pele dos homens, e minha beleza se faz puro susto e celebração.

É claro que quando acordo o meu retorno a mim mesmo é sempre doloroso como se me arrancassem a essência e eu me encontrasse de repente abandonado neste invólucro grosseiro e pouco útil. Nada soberano, nada transcendental, tampouco belo. Eu sou trapos suados e carne entorpecida sob as cobertas. Eu sou manhã rompida abruptamente a golpe de machado. Rastro de sonho sobre a cama ainda úmida, ainda morna, analiso as linhas que são agora as sombras dos caminhos adormecidos, e elas se apagam aos poucos, ao longo do dia. Depois levanto, faço as coisas imprescindíveis que têm sido feitas nesses dois séculos de tédio. O cotidiano tem sido o nosso único e desesperado deus. Aquele dos remédios e dos esforços vãos, das corridas megalomaníacas pra lugar nenhum. Cada dia é uma cabeça decepada que dá lugar a mil novas cabeças. O tempo é outro, e é sempre o mesmo tempo morto de fome. Alimento pouco. Não sacio nada. Me torno esquálido, cada vez mais apagado, brando e turvo feito poça d’água à medida em que me deito aos caminhos daquele moço para que ele possa provar firme o seu passo sobre corpos alheios. Fixo meu olhar tempestuoso para que ele escute estrondos. Mas ele não me teme. Eu não o temo. O descaso reina imundo e imenso sobre esta nossa distância. Já fomos soldados empunhando armas contra um reino. Ele agora se senta aos pés do trono, fiel e lúcido de seus atos e orgulhoso de seus gestos e sempre obediente ao seu augusto soberano. Não mais existem importâncias lúdicas, não mais existem na memória as validações nostálgicas de momentos passados, não restam forças do lado de cá. Eu me gasto um pouco mais, enquanto meus dedos percebem ulcerações e sangue ao acenderem uma última vela em ambientes de gelo. Dentro dos olhos dele. Ela luta feroz e trêmula, flâmula estrapeada de guerra perdida. Mas o seu olhar sobre mim está tão morto quanto aquele peixe que repousava no fundo do lago. Se o amor é perecível, eu espero e me faço cinzento azulado porque estou em processo avançado de decomposição. Não estamos?

Imagem: Jane's Departure- Jan Saudek