quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Devaneios Noturnos sobre Rapazes e Gatos

Céu de ontem na parede, quantos dias nas gavetas. A noite está quieta, está tudo em seu lugar, mas o gato não veio reclamar comida. Deixo as luzes acesas pra fingir que tem gente, canto alto pra me fazer de feliz. Quando durmo, o trânsito passa em sombras dentro da sombra da janela e então me pacifico.

Meu amigo está atrás das lentes do sonho e eu estou lendo romances sob a luminária; quase esqueço que estou morrendo. Depois rio do exagero e me perco no desenho. Às vezes parece que o mundo se resume em poucos traços. Deve ser mesmo muito mais fácil seguir estradinhas de aquarela do que atravessar pontes de carvão e nanquim, pedindo carona e amor em coisas abstratas.

Às vezes me perco traçando a mesma meta, sempre o mesmo triste plano, trilhando um caminho pra dentro. Imagino que territórios desolados a seguir, já sem surpresa ou medo. Depois de um tempo no máximo mera curiosidade. Uma curiosidade desconfiada renegando o próprio semblante: amarguras, afastem-se de mim.

Ainda quero o torpor das coisas recuperáveis. Como quem abandona um livro e volta a ele tempos depois: coisas mágicas estiveram escondidas naquelas páginas, ou era a minha percepção de antes míope, pouco cuidadosa? Dá-me o susto dos descobrimentos.

Pra hoje eu só queria a certeza de que o sumiço do gato é apenas um retiro temporário para aventuras quixotescas nos telhados. Pra hoje o meu rapaz comigo, lendo um livro qualquer pra passar o tempo, enquanto eu desvendo meu próprio tempo dentro de um abraço, ou ainda num beijo transgrido noções espaciais, físicas e por que não, além do exato. Silêncio e calma observando as sombras na minha parede, e o mundo lá fora querendo entrar.

Agora é o momento de apagar a luz e fechar o livro. Cobertas envolvem um sem-fim de mundos sobre a minha pele.

Amarguras, afastem-se.

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