quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Jane's Departure

"E assim como parentes que à noite se encontram
Entre os jazigos conversamos,
Até que o musgo alcançou nossos lábios
E cobriu nossos nomes"
(Emily Dickinson)

 

Estou num sonho em que uso preto e a custo de dolorosas transições emblemáticas, místicas, grandiosas, eu diria quase olímpicas e algumas outras mais prosaicas, adquiri uma beleza insuspeita e sábia de mensageiro de revelações transcendentes não de Deus ou do Outro, mas de algo ainda mais misterioso e intangível, e é por isso que levo comigo uma vela e é por isso que os meus passos são lentos, embora precisos e firmes, e meus gestos tocam os ares como que ungidos de proficiência para as curas e as devastações mágicas. Deixo rastros de ruínas e apago sóis distantes como quem leva aos lábios polegar e indicador para depois pressionarem pavios acesos. Assopro em gelo, queimo em toques. Se olho, viram pedra pelo meu caminho. Estou assim denso, assim translúcido, assim depois de morto, com a pele que não é a pele dos homens, e minha beleza se faz puro susto e celebração.

É claro que quando acordo o meu retorno a mim mesmo é sempre doloroso como se me arrancassem a essência e eu me encontrasse de repente abandonado neste invólucro grosseiro e pouco útil. Nada soberano, nada transcendental, tampouco belo. Eu sou trapos suados e carne entorpecida sob as cobertas. Eu sou manhã rompida abruptamente a golpe de machado. Rastro de sonho sobre a cama ainda úmida, ainda morna, analiso as linhas que são agora as sombras dos caminhos adormecidos, e elas se apagam aos poucos, ao longo do dia. Depois levanto, faço as coisas imprescindíveis que têm sido feitas nesses dois séculos de tédio. O cotidiano tem sido o nosso único e desesperado deus. Aquele dos remédios e dos esforços vãos, das corridas megalomaníacas pra lugar nenhum. Cada dia é uma cabeça decepada que dá lugar a mil novas cabeças. O tempo é outro, e é sempre o mesmo tempo morto de fome. Alimento pouco. Não sacio nada. Me torno esquálido, cada vez mais apagado, brando e turvo feito poça d’água à medida em que me deito aos caminhos daquele moço para que ele possa provar firme o seu passo sobre corpos alheios. Fixo meu olhar tempestuoso para que ele escute estrondos. Mas ele não me teme. Eu não o temo. O descaso reina imundo e imenso sobre esta nossa distância. Já fomos soldados empunhando armas contra um reino. Ele agora se senta aos pés do trono, fiel e lúcido de seus atos e orgulhoso de seus gestos e sempre obediente ao seu augusto soberano. Não mais existem importâncias lúdicas, não mais existem na memória as validações nostálgicas de momentos passados, não restam forças do lado de cá. Eu me gasto um pouco mais, enquanto meus dedos percebem ulcerações e sangue ao acenderem uma última vela em ambientes de gelo. Dentro dos olhos dele. Ela luta feroz e trêmula, flâmula estrapeada de guerra perdida. Mas o seu olhar sobre mim está tão morto quanto aquele peixe que repousava no fundo do lago. Se o amor é perecível, eu espero e me faço cinzento azulado porque estou em processo avançado de decomposição. Não estamos?

Imagem: Jane's Departure- Jan Saudek