domingo, 20 de setembro de 2009

Ecos

A tarde escoa pelas copas sombrias. É uma luz muito branca que vai se apagando nos cantos, sob os telhados e os toldos, sobre as inscrições na calçada.Passantes serão sempre passantes, e mal dobram esquinas, já sinto saudades. O amor é algo perecível, mas de longa data... Cria vincos e esmorece em sépia, como aquela foto da senhorita Dickinson, que captura em meus olhos algo esquecido e em meu coração coloca pensamentos de ébano.

Como se chama uma caixa de música?

Como se chama esse ponto muito claro sobre o teu ombro?

Como se chama o meu beijo sobre o teu ombro?

Revoadas mortas atravessam a cidade (ao movimento sonoro de um móbile azul, que nome deram?) Eu atravesso teu peito em vôo rasante, mas evito a ousadia de um pouso. As revoadas estão mortas, para lá do Leste se desmancham em laranja e ocre, em restos de azul e rosa. São revoadas mortas indo pra casa. Não gosto de falar de cores. Não gosto das tardes submersas e turvas. Me fazem mal as esquinas vazias e os guarda-chuvas. Desvio o olhar desses lugares onde caminhamos sob o sol.

Como se chama um caminhar sob o sol?

Que nome tem uma adaga invisível?

Que nome deram à nudez da minha alma diante da tua?

A hora imóvel e eternizada, que hora é essa?

O teu tempo é o meu tempo?

Eu ando pelo quarto e fecho o peito à chave-tetra, mas há sempre fantasmas descobrindo passagens pelas frestas. A morte súbita por um suspiro ou calma bruta, é morte? Vida é? Estou mais curioso do que nunca.

Minha saudade das tuas mãos, que som é esse?

Minha saudade das tuas mãos, que sonho é esse?


(ecos).

2 comentários:

ele disse...

perguntar é passividade na obtenção de respostas.

muito me agradou seu texto, muito bem escrito, surpreende-me.

Léo Tavares disse...
Este comentário foi removido pelo autor.