terça-feira, 15 de setembro de 2009

Setembro


Ele tem os pés bem enterrados numa areia cinzenta. O sol brilha entre os grãos, sobre os grãos, fora deles, ao lado e dentro. Pequenas pérolas que se enrolam nos pelos das pernas dele, em seus joelhos; emaranhados densos de terra que parecem não querer abandoná-lo nunca mais. Não quero. Sou eu. Me olha. Sol nas costas dele. Sal nos seus cabelos. Inveja. Sal eu sou. Me olha. Caracóis.
Eu levanto o rosto e dou uma boa olhada para o mais distante nessas águas. Parece que aprendi a respirar de novo apenas nesse instante. Estou em pé e diante de mim é tudo céu e calma. Setembro. De vez em quando olho para o lado, um pouco abaixo. Ele continua desenhando um “V” sobre a areia úmida desenhando um “R” sobre a areia cinzenta desenhando um “G” sobre a areia turva desenhando desenhando.

Eu quero pegar o dedo dele e ensiná-lo a desenhar um “L” imenso, toda a extensão de um “L” que percorre a praia e que tem uma curva sinuosa quando a vertical se encontra com a horizontal e umas ondas pequenas começam a fazer carinho na letra que nem línguas vorazes querendo devorar beijar integrar fazer parte da minha inicial. A inicial dele é meu fim.

Sombra. Lá longe, sombra. 13 anos sem ver o mar e agora vejo em sonho. É sonho? Talvez viagem acordado, espírito rompendo limites físicos e presença permitida através de algo mágico. Uma espécie de teletransporte que eu aprendi a usar quando dói muito. Quando os dias doem muito e é setembro e a gente faz aniversário e muda um pouco porque o tempo quer se fazer sentir. Ele vai mudar um pouco em breve e eu quero ver. Ele não me vê em presença quântica, e no entanto, aqui estou, bem ao lado dele. De vez em quando olho o mar que não vejo há 13 anos, de vez em quando sinto um carinho mudo e minha cabeça pesa e é levada a movimentar-se para a direção dele. Pés enterrados na areia cinzenta, cabelo desgrenhado e um olhar em mutação sobre as letras desenhadas à beira do mundo. Precipícios. Abismos. Ravinas.

O menino desenha. Pérolas. Caracóis. Areia e sal. Gosto de sangue quando eu mordo muito os lábios porque me desintegro e não quero ir. Vento que emudece minha voz, que apaga minha imagem, que é a minha voz gritando pra ele o meu nome, enquanto ele permanece muito concentrado em sua estranha conjuração de letras, nomes e homens, e eu grito e desapareço e nunca mais voltei à praia e ele não me escuta, mas suas mãos ficam imóveis por um segundo e sua cabeça se move na direção de onde eu não estou mais e seu ouvido recebe um murmúrio doce chamado ausência ou o que quer que seja, e ele podia jurar que escutara vozes e nunca vai saber que fora a minha. Bem ali, dois anos antes.

Imagem: Setembro - Léo Tavares- pastel sépia e sanguínea sobre cartão

3 comentários:

julie disse...

Bem ali, dois anos antes, quando precipícios, abismos e ravinas desenhavam os sonhos do menino, daquele menino que mergulhava os olhos no infindável, que sentia o sal, a areia e o musgo compor uma sinfonia de estrelas, bem ali, treze anos quase nada significavam, pois que o tempo parecia azul, azul demais para se afastar da transparência de seus sentimentos. Um menino que amava, um menino que devorava, com língua, e pés, e pernas, e gracejos os desenhos anelados na escuridão. Um ‘L”, não era apenas um “V” ou um “R” ou um “G” sobre a areia. O “L” pertencia ao úmido das profundezas. Por isso, o sonho era mar. O sonho era contorno. O sonho era dor. O sonho era, mais uma vez, desejo.

ele disse...

Letras têm arestas, vai ver esse é o problema de quase todas elas.

Léo Tavares disse...
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