domingo, 11 de outubro de 2009

A Enguia

Na rua os espelhos ácidos de uma chuva que demorou mais tempo que devia. Folhas e cacos, vento e barro nas vidraças. O tempo batendo de frente nos pára-choques. Uma vida em trânsito: movimento de pára-brisas contra gotas de néon.
A gente volta pra casa, a testa na janela embaçada, ônibus lotado de sonho e cansaço. Esvazio as minhas ilusões por uma fresta estreita no coração. É como se abandonasse um pulmão na primeira sarjeta.
Algumas coisas brilham no escuro. Imagino enguias e moréias seguindo o curso dos esgotos de Brasília. São lindas e misteriosas como qualquer coisa que eu perdi e não quero me lembrar.
Andei uma vez anguiliforme, a forçar passagem pelo teu pensamento. Andei uma vez sob a chuva, em busca do encontro, e te vi lá embaixo, também sozinho, mas caminhando em fuga. Andei uma vez com os lábios solitários a secar na noite dessa ausência, e os toquei de leve, com uma língua ferina e invejosa, destinada às palavras e dos beijos, separada.
Uma vez eu andei a confrontar meu destino, querendo a mão do Acaso para bagunçar todas as coisas tediosas e certas. Sob a chuva as luzes turvas de cidades impiedosas sempre me negaram encontros. Sob o sol o tempo foi incansável em protelar esse tipo de sonho.
O ônibus voa pela noite escura. Desemboca rutilante dentro de ruas anônimas. Alguém desce.
Barulhos sinistros quando esses tantos quase vivos pisam a lama, e por dentro dançam na superfície da lua.

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