domingo, 4 de outubro de 2009

Formigas

O que fiz daquelas forças genuínas que me faziam antes enxergar a clareza opaca, pouco brilhante que reveste as pequenezas? Desde quando dei por ouro a superfície fosca destes frágeis estrados, julgando-os palcos ou nobres arenas, quando eram estruturas grosseiras para as comédias mais esquecíveis?

Subestimei estas forças e agora quero-as de volta porque preciso recusar de vez a palidez enfática do descaso, da importância amigável, das meras simpatias. Para mim nada menos que o vasto. Sempre vislumbrei o vasto porque minha natureza se desenvolveu nos desenhos dos penhascos: à beira. Vastidões me circundam, me crêem, me circunscrevem de uma outra forma que não a do miúdo, parco amor que satisfaz o amante sonâmbulo quando o recebe das mãos do desperto amado.

Começo a destruir pedestais, porque eles não servem para seres humanos. A ingenuidade, a avidez idiotizada dos poucos anos, a covardia extrema, tudo isto contribui para a cegueira que dá lugar às contemplações. Jamais compreendem o imenso dentro do imenso, a eternidade de espaço e a amplitude de tempo que se confundem e despertam o olhar grandioso sobre uma paisagem.

Não conhecem o imenso, recusam-se a conhecê-lo. Só avançam adiante, nunca acima. O imenso se suja com o seu olhar pobre, míope, daltônico. O imenso se fere com suas presenças-peso, pele e trapos revestindo podridões que se pretendem egos. O imenso se ressente quando o confundem com eles mesmos, quando o julgam presente em suas vidas simbólicas, sempre simbólicas, porque nele põem maquiagens e máscaras aviltantes para disfarçar os atos mais insólitos, as vontades mais fúteis e os desejos unicamente materiais.

Não sabem, não querem saber da impossível existência física do imenso. E se tudo é corpo, e tudo é gesto, e se tudo é expressão de exacerbado amor-próprio, então o imenso é nada. E sendo nada, se compraz em sua intangibilidade.

O imenso não se cansa nem odeia. Ama, mas é com nojo do próprio desperdício. Ele se entristece diante das paixões pelos espelhos, ele se revolta com os egoísmos burros e as posturas ferrenhas, ele desiste dos fracos que se julgam muralhas.

Ele não fala mais comigo, e por fim, pede silêncio.

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