terça-feira, 6 de outubro de 2009

O Tempo Esmaece, Nina



Um dia eu abri a porta, como se fosse pra sempre, e olhei bem em volta, como se nunca tivesse visto o meu quintal, a rua, o mundo todo. Tem dias que acordo com a estranheza de quem perdeu a memória. Hoje me interessa a vida das folhas secas, Nina andando a esmo entre as árvores para o encantamento das minhas lentes, as quedas cíclicas cujo movimento jamais percebemos, os corpos sobre o solo, repousantes sonos ou sentidas mortes, lamentos breves de quem só lembra que a cura vem, e então espera em silêncio o esmaecer.

Estamos para sempre deitados na grama, perto da biblioteca. Estamos felizes, ou fingimos amores para passar o tempo, ou amamos tanto que o tempo para e se faz retrato na memória. Estamos para sempre deitados, lado a lado, e para sempre é abril e o céu tem alguma coisa diferente, e a vida é palpável como o verde sob os nossos corpos. E não estamos.

O nunca mais quase me fere quando o vejo sombreando as copas amareladas e os degraus de pedra onde pouca gente passa. O nunca mais quase me vence quando é uma da tarde e me aproximo de lugares onde antes descansávamos de nossas rotinas, sua cabeça sobre as minhas pernas, minhas mãos sobre os teus cabelos. Depois o nunca vem me dizer no ouvido que é tão para sempre quanto o próprio, porque é o contrário de si mesmo. Porque a vida é cíclica e só existem mesmo as imagens, rodando como num filme. Estas ficam, e são minhas. Estamos para sempre deitados na grama, perto da biblioteca. Para sempre o abraço longo entardecendo junto ao lago, e uma inscrição na árvore, e um vapor no vidro, e uma voz que diz “te adoro” e um olhar que morre na curva dos lábios alheios, e algumas cartas enterradas na pretensa delicadeza de um esquife em miniatura.

Eu olho saudoso, mas terno e grave. Prendo imagens numa câmera, quero buscá-las a vida toda. Voltar a elas. Nina está para sempre entre as árvores, passo curto, mas muito leve. As folhas produzem ruídos de tempo sob seus pés, e secam sem parar. No meu peito, é ainda abril.

Por todos os lados coisas maturam.

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