sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Noturno Amargo

O mais velho dedilha, em camisa de listras, igual aquela do Picasso, o mais novo adormece sobre um pufe rosa, o do meio olha pela janela alguma coisa tremeluzente na cidade e pensa lusco-fuscos. A moça tenta conter uma lágrima por antigo romance e se concentra na música de uma maneira estranha, que é não ouvir demais pra não sentir demais o arco roçando as cordas e a melodia preenchendo as paredes e abrindo a porta, o cheiro da madeira alguma flor mortífera a noite toda para o mais novo algum gás sonífero. Seu pijama tem motivos infantis, mas não é criança. Os quatro pertencem à casa, e a mais nada além da casa e uns aos outros. O mundo é qualquer coisa de garra, qualquer coisa de lume afiado reluzente e brando convidativo para a pele dos corações jovens.

 
Olhei de longe para não perturbar a intimidade e disso pintei na memória um quadro. Estranho lembrar-me de fatos, e pintar a cena que imaginei para filme quando ainda éramos mudos e eu usava fraque e não me ocupava de dores-agulhas amor acupuntura pelo corpo todo porque este amor é de corpo. Meu deus minúsculo deus feio, como estremeço quando aproximo do dele o meu joelho, masculino, viril guerreiro, sim ele está em idade de partir para a guerra. Tão lindas as guerras imaginadas, pai. O sânscrito nar o itálico ner, do gaulês o naro, valente alegre forte. Andreios Andreas, Andrzej. Os séculos te sabiam antes como eu te sabia antes e não te sei agora.

Nada importa nesta sala. Lembrar-te me desvia do violino que o mais velho empunha como arma. Ver-te no pensamento me sossega como o sono do mais novo. O do meio agora me olha com um desejo incrédulo de si mesmo porque o belo se assusta quando a noite vem lhe latejar entre as pernas e eu sou o lobo olhando pela janela. A moça se aproxima oferecendo um seio e eu acaricio seus cabelos. Querer-te me desvia desta irmã tardia e amanhecendo eu abandono os quatro em suas mortes horrendas que acontecem o tempo todo. O que dorme não sente nada, nem sequer sangra. A que chora nunca soube que morreu. O violinista nem se importa, e dizem, ainda toca. O outro me procura pela madrugada futura e me sussurra a vida inteira: lusco-fusco, latejo estrelas. Eu me acostumo a recusá-lo enrijecido. E ainda te quero, senil e velho, porque teu fantasma é mais vivo.

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