segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Anunciação

Agora eu sei de murmúrios ecoados, gravados na pedra imemorial do desejo. Escuto tudo e sei que os anjos têm três grupos de cordas vocais, que é para cantar elegias nesses vales daqui, ou para gritar em êxtase estrelado quando enxergam os vaga-lumes sobre os prados e os rios de mim.

Eles me mostraram caminhos bifurcados que eu nem suspeitava nesse coração de travas e cancelas. Agora ando a viver em ravinas e durmo repousante sono sobre os sulcos profundos das lembranças. Quando sonho com Deus, ardo numa febre iluminada e mansa. Começo a lida arando o teu pensamento, a fim de abrir espaço para as minhas sementes. Verto água e suor e sangue, e quando o dia finda alaranjado penso incêndios no céu. É um ruído de colunas que desabam, é um grito de ouro derretendo sobre nuvens azuladas. É uma asa planando, decepada, a chocar-se contra constelações e nebulosas. Não me despeço quando eles partem. Compreendo o tempo de retornar à casa, sozinho no silêncio orvalhado e humilde, que é o do amor refletido em suas possibilidades e limites. Me curvo às poças com sede de uma água espelhada e impossível.
Eles me ensinaram. Deixaram-me ler palavras que jamais serão escritas em língua alguma para que eu as repita com a boca cravada no teu coração. Depois me ungiram de claridade e clarividência. Agora faço o primeiro desenho do invisível e te liberto no infinito. Até que um dia seremos anjos, quem sabe.
E tudo quanto não é desejo.

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