quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Jimmy (ou Quarto com Vista)

Vontade de dizer pra alguém “volta pra casa”. Necessidade de espera. De estar esperando e sabendo que vem. Esse espaço cuja extensão e densidade de escuros só aumenta teria recebido promessas de luz. Pra amanhã, pra depois. Teria mais a ver com esperança do que com desolação. Desertos imensos como paisagem de memória. Não. Queria lembrar de quartos pequenos e aconchegantes recantos. Camas bagunçadas com sol por cima e vento leve dando motivo para frases como: me abraça forte agora.

Vontade de ver materializado, nem que seja por um dia ou dois, o algo mais clichê, a utopia merecedora do nome, o brilho raro por dentro das superfícies insignificantes: alguma coisa verdadeira nisso tudo.

Eu tenho urgências. Tenho desejos que estremecem a solidez destes platôs inventados para uma sobrevivência acima dos amores ilusórios. Tenho frêmitos que começam com um roçar quase imperceptível de cílios sobre a pele e terminam em temporais que abarcam certas coisas: um pequeno quarto da memória, camas com sóis e essas tantas frases forjadas no bem querer. Proximidade cósmica. Diálogos eloqüentes sem proferir palavra. Um com o outro, pelo outro, dois. Um e Um, Dois. Um e Um, Uno.

Sim, tenho urgências. Necessidade de dizer “volta” antes que a densidade turva dessas tantas águas passadas atinja o teto e desfaça sol e cama. Afogue frases como “me abraça forte agora”.
Sem náufragos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Estação das Chuvas

Tudo se alonga escandalosamente para os quatro pontos cardeais. Eu tenho febre e vertigem, mas arrisco a vida para ficar dentro do eixo. Às vezes a cidade me parece absurda, improvável, com seu orgulho grave e medo de ter graça. O verde abundante pretende disfarçar a esterilidade eterna que ostentam as construções; dentro delas, solidões de toda a sorte, e um descaso por quadra, ao menos.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Funeral

Permanecia em silêncio, nesses últimos tempos. Chegou aqui numa noite qualquer e acabou ficando. Tinha um jeito encurvado de movimentar-se pela casa, desajeitadamente, como se não coubesse em lugar algum. Acho que é por isso que gostava dos cantos. Quando passava pela gente trazia no olhar um pedido eterno de desculpas. Às vezes eu olhava para ela durante um longo tempo, bem dentro dos olhos, tentando entender o que eles viam. Eram olhares graves, de quem já viveu o suficiente e nunca se recuperou do medo. Mas tinha horas que ela parecia estar sorrindo.
Hoje foi um dia frio e eu mantive as janelas fechadas. Caminhei há pouco pelo quintal e me detive um momento diante de um canto vazio. Ainda ontem ela se aproximou de mim, ali mesmo, e tocou minha mão com a cabeça, como se quisesse dizer alguma coisa.
A casa está quieta como sempre esteve, mas comecei a sentir falta da presença.
Nem vi quando a levaram. A gente vai ficando cada vez mais avesso às despedidas. Imaginei o barulho das rodas do carrinho de mão subindo a ladeira que vai até o pé da serra. Não escutei nada. Agora o vento se esgueira pelos galhos e pede para entrar. Olho pela janela o recorte dos morros a dois, três quilômetros daqui.
Ela está descansando, numa clareira entre as árvores, desde manhã cedo e para sempre.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Eu tenho medo de Reich, de Hippies e de Reflexos

O velho hippie flexiona os braços e estufa o peito dentro da camiseta indiana e começa a dar as instruções. Há uma parede revestida de espelhos e na outra extremidade da sala há uma parede com sete janelas. Atrás delas tem um campo de futebol abandonado, com a grama muito alta e uma placa de “interditado”. À minha frente, a extensão da sala abrange o círculo de gente em que o velho hippie nos dispôs. Além deles, além das janelas, vejo árvores do cerrado e mato em profusão. Os pavilhões de concreto se estendem bem ao longe. Chove fraco, mas o céu está cor de chumbo.
Fico tentando ler os pensamentos da minha amiga, e logo desisto quando o meu corpo começa a obedecer às instruções da voz do professor. De vez em quando olho para o lado e o cara no espelho está com medo de alguma coisa que não sabe dizer o que é. O professor fala sobre conhecer a si mesmo, teorias reichnianas sobre doenças psicossomáticas, a rotina caótica do mundo de hoje e o que está se tornando o nosso cérebro.
Amarelo também é tédio. A voz ordena “fechem os olhos”, e eu quero fugir da cor e fecho. Depois ela fala para continuar olhando, de olhos fechados, o mais longe no horizonte. Eu vou bem longe.
Duas horas depois, procuro o homem dentro do espelho, e constato com alívio que ele não está ali.
Hoje eu acordei com medo e ele reapareceu na janela. Tive uma dúvida e vi o reflexo dele quando colocava os óculos. Fiquei cansado e não quis nem olhar para os lados.
Agora é noite e eu queria aproveitar a minha vida. Respirei fundo e aceitei tudo, até que tenha forças para proclamar recusas. Enquanto isso, ele aparece, de vez em quando. Mas não se demora muito tempo.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

re'cordis

Eu fui voltando para trás, até chegar no tempo em que eu não tinha nascido, que é o tempo que eu mais me lembro.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Chegada

Parece que eu tava correndo doidamente pra chegar a algum lugar que eu sabia qual era. E cadê o lugar? A gente chega sem fôlego e onde era pra ser cidade, vale, água ou estrada –qualquer ponto concreto situado na terra- está o abismo absoluto. Aquele isento de paisagem, sem cor, sem forma, massa cinzenta assomando acima e abaixo e para todas as direções. O coração dá um salto, mas os pés estão imóveis. Cadê o lugar, cadê o lugar? Se eu estender a mão agora, vou tocar o vazio. Não quero lançar-me ao Nada. Também não posso voltar. Tampouco me agrada a imobilidade. Para onde eu vou, Deus? Me ajuda agora, mais que nunca, a fugir do teu abraço. Tenho tanto medo e tanta vida pela frente.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Notas do Lado de Cá

Minha meta agora é tão simples. Posso fumar até dez cigarros por dia. Não bebo café, faço as posições de ioga que consigo me lembrar daquelas poucas aulas e danço, danço muito. Na frente do espelho, sem compromisso, desajeitado.

Beber muita água é fácil.

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Tenho olhado anúncios de emprego, tenho torcido o nariz para todos eles e, no entanto, sei da urgência em preencher ao máximo o meu tempo. E o meu bolso.

Pensamentos indesejados sempre voltam, mas aprendi a afastá-los como moscas.

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Ontem pensei em morar na Albânia ou na Moldávia, qualquer lugar bem longe. Alguém me disse que a Albânia tem uma vista linda para o Mediterrâneo; é como estar na Grécia sem pagar o que se paga na Grécia para estar lá.

Seria lindo te esquecer diante do Mediterrâneo.

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Conheci uma pessoa. Ostentei minha indisponibilidade, não fui agradável. Depois pedi desculpas e planejei uma fuga. Mas no meio disso surpreendi-me querendo aquela presença estranha. Ele tinha algo que eu queria, não sei dizer o quê. Isso acontece pouco. Retornei disposto a me redimir e não o vi mais.

Agora espero e não sei o que vai acontecer. Mas não será amor.

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Tenho me dedicado à fotografia, mais que nunca. Levo para todo lugar uma câmera emprestada dentro da mochila. Um dia vou ter a minha, talvez na Albânia.

Pouca coisa me interessa.

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Camilla vai embora. Cada vez mais me acostumo às ausências. Penso em adaptações. Outro dia Otávio disse: adapte-me a uma cama boa. Essa frase ficou gravada.

Pensei muito nisso também.

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Sinto culpa, mas sinto muito: tem doído menos. Eu queria as dores corrosivas para ser consumido até o fim. Gestos de aspersão das tuas mãos em rituais lentos. Agora acordo e percebo partes recompostas.

Hoje de manhã chovia muito. Voltei a ter um jeito de olhar que eu tinha.

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Outro dia conversei contigo. Era de noite e eu estava sozinho no quarto. Te disse que você faria um bom Encólpio, no Satyricon de Petrônio. Isso porque vi novamente a adaptação do Fellini para o cinema e quis te dizer o quanto eu amo Fellini e o quanto eu amo o cinema e o quanto te vejo em alguns filmes. Resquício daquela euforia que eu tinha por querer dividir contigo os meus amores, dessa forma estranha e ignorada, acostumada ao desprezo involuntário. Não, não é tua culpa mais. O que nos unia se rompeu há muito, de tão frágil. Mas te digo: farias um bom Encólpio.

Assista Fellini, quantos puder.

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Até breve, boa viagem


L.