quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Eu tenho medo de Reich, de Hippies e de Reflexos

O velho hippie flexiona os braços e estufa o peito dentro da camiseta indiana e começa a dar as instruções. Há uma parede revestida de espelhos e na outra extremidade da sala há uma parede com sete janelas. Atrás delas tem um campo de futebol abandonado, com a grama muito alta e uma placa de “interditado”. À minha frente, a extensão da sala abrange o círculo de gente em que o velho hippie nos dispôs. Além deles, além das janelas, vejo árvores do cerrado e mato em profusão. Os pavilhões de concreto se estendem bem ao longe. Chove fraco, mas o céu está cor de chumbo.
Fico tentando ler os pensamentos da minha amiga, e logo desisto quando o meu corpo começa a obedecer às instruções da voz do professor. De vez em quando olho para o lado e o cara no espelho está com medo de alguma coisa que não sabe dizer o que é. O professor fala sobre conhecer a si mesmo, teorias reichnianas sobre doenças psicossomáticas, a rotina caótica do mundo de hoje e o que está se tornando o nosso cérebro.
Amarelo também é tédio. A voz ordena “fechem os olhos”, e eu quero fugir da cor e fecho. Depois ela fala para continuar olhando, de olhos fechados, o mais longe no horizonte. Eu vou bem longe.
Duas horas depois, procuro o homem dentro do espelho, e constato com alívio que ele não está ali.
Hoje eu acordei com medo e ele reapareceu na janela. Tive uma dúvida e vi o reflexo dele quando colocava os óculos. Fiquei cansado e não quis nem olhar para os lados.
Agora é noite e eu queria aproveitar a minha vida. Respirei fundo e aceitei tudo, até que tenha forças para proclamar recusas. Enquanto isso, ele aparece, de vez em quando. Mas não se demora muito tempo.

Um comentário:

artificialsweetenes disse...

são as energias esquisitas do planalto central...