quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Funeral

Permanecia em silêncio, nesses últimos tempos. Chegou aqui numa noite qualquer e acabou ficando. Tinha um jeito encurvado de movimentar-se pela casa, desajeitadamente, como se não coubesse em lugar algum. Acho que é por isso que gostava dos cantos. Quando passava pela gente trazia no olhar um pedido eterno de desculpas. Às vezes eu olhava para ela durante um longo tempo, bem dentro dos olhos, tentando entender o que eles viam. Eram olhares graves, de quem já viveu o suficiente e nunca se recuperou do medo. Mas tinha horas que ela parecia estar sorrindo.
Hoje foi um dia frio e eu mantive as janelas fechadas. Caminhei há pouco pelo quintal e me detive um momento diante de um canto vazio. Ainda ontem ela se aproximou de mim, ali mesmo, e tocou minha mão com a cabeça, como se quisesse dizer alguma coisa.
A casa está quieta como sempre esteve, mas comecei a sentir falta da presença.
Nem vi quando a levaram. A gente vai ficando cada vez mais avesso às despedidas. Imaginei o barulho das rodas do carrinho de mão subindo a ladeira que vai até o pé da serra. Não escutei nada. Agora o vento se esgueira pelos galhos e pede para entrar. Olho pela janela o recorte dos morros a dois, três quilômetros daqui.
Ela está descansando, numa clareira entre as árvores, desde manhã cedo e para sempre.