quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Véspera

É uma hora quieta, embora incerta, e é pela quietude que eu me sento à janela e começo a dobrar as coisas.
A camisa de amanhã, a carta de ontem, o estilete de hoje.
Desisto de usar azul porque o céu só está propício para cinza. Desisto de entregar palavras porque nenhuma palavra foi capaz de desdobrar um silêncio. Desisto do gume porque nele a lua brilhou e uma nuvem foi cortada.
Respirei fundo e decidi esperar mais um pouco. Dobrei uma besta só com meus joelhos. Ontem e hoje. Amanhã virá outra. Dobrei uma esquina sem outro par de pés para acompanhar os meus, e esqueci de gravar o caminho de volta.
Agora paciência.
Que as solidões e monstros não me vençam, e que os caminhos, embora desertos,
cresçam, cresçam, cresçam.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Angus


Não quero que ele venha.
Minha vontade é fechar os olhos como o boneco chamado Angus e olhar pra baixo assim, de olhos fechados, queixo quase tocando o ombro, quase lembrando de um beijo de ombro, inusitado e saudoso, quase saudoso de lábios. E levar a mão ao próprio rosto, como se fosse de outro e aprender esse nariz e essa boca as cavidades dos olhos como se fossem olhos de outro, e aprender também a sombra dos cílios sobre as maçãs, como se elas fossem maçãs merecedoras de toques e sombras de cílios tão delicados como estes, que já se molharam tanto, que uma vez ou outra foram pintados e que uma vez e outra já amaram de toque os cílios de outro.
Não sei se quero que ele venha.
Se me tiraria do meu estado côncavo para me enrijecer e levantar meu queixo. Ah, não. Meu ombro ficaria tão sozinho. Seria como arrancar um recém-nascido do colo da mãe. Uma escolha de Sofia. Mão dele, ombro meu: é tão difícil. Meus dedos cobrem a sombra dos meus cílios e já não é carinho. Comecei a vê-lo se aproximando no sol, aquele corredor todo acendendo luzes pra ele passar. Há tremor e há rugas novas nessa mão. Há vincos no lugar dos vícios abandonados. As unhas crescem de desejo e os olhos ainda fechados são o objeto.
Talvez ele possa vir se vier com a palavra certa.
Meu ouvido são está próximo do ombro endoidecido. Bastou um beijo pra que o ombro perdesse a razão e nunca mais quisesse nada, nem roupa, nem alça de bolsa, nem vento, nem água. O ouvido surdo está ao vácuo. Como vou ouvir se ele chamar? Talvez leve um susto, talvez tenha ficado surdo de tanto não acreditar que a voz falasse a mim. Além de surdo, pra sempre marcado por dentes impiedosos. Prazer de quase dilacerar um lóbulo. Nunca mais senti nada deste lado. Se alguém aproximar a boca, eu digo que é uma orelha envenenada. Os dedos avançam sobre os cílios.
Acho que quero que ele venha. Talvez precise.
Precisar é um querer maldito. Preciso do olho na minha mão agora. Vou ser como as parcas. Empresto o olho se alguém quiser ver como eu vejo. Aviso que não tem tanta coisa boa na visão dele. Mas tem tanta coisa que vc se perde olhando que às vezes dá até pra pensar que é boa. As unhas trabalham. São hábeis em desenterrar coisas, sempre foram. Cavam e cavam. São tão gentis que nem dói tanto. Aprenderam a ser. Quem não é bonito tem que ter toque gentil. Essa beleza de mirarem pra mim e acharem bom eu nunca tive. Mas sou estudioso dos toques. Um dia vou saber fazer devastações. Se não, ao menos servirão para as curas ou as maldições.
Eu quero que ele venha.
Pode chamar de crueldade, não há mais lugar para as considerações óbvias. Mas te digo, é bem mais do que isso. Cuidado com o maniqueísmo. Minhas mãos têm personalidade difícil e quando sentem saudades, demonstram. Procuram e procuram. Percorrem mundos de corpos em valas comuns à procura do morto querido. Querem dizer a ele, ainda que morto, ainda que surdo: sentimos tua falta. Se não encontram, ficam com raiva. Já descontaram em mim, mas não confunda: agora é carinho. Se ele vier chamando naquele corredor que se ilumina ao passo dele, eu já não verei mais luz alguma se acendendo. Mantenho no ombro o meu ouvido são, pra não escutar nenhum movimento dele se aproximando. A mão já calma estende um olho castanho, surpreendido no olhar mais singelo, como se fosse uma fruta colhida no momento certo. Amadurecimento e decomposição. É preciso valorizar o ápice de todas as coisas que morrem. Toma o meu olho, e olha bem dentro dele enquanto ele ainda te olha.
Ficou um cílio no meu ombro. O Acaso é providencial. Vou fazer um pedido, penso, e com toda a força o faço.

Imagem: Angus- óleo sobre tela, 2010.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Nunca Mais Dormi Direito

A primeira culpa eu senti mesmo foi quando matei a galinha Pipica afogada num balde d'água com sabão. Era inverno no Rio Grande do Sul, fazia 1 grau, algo assim, e eu tinha 5 anos, ou 6, algo assim, e só sei afirmar que não foi um crime premeditado, mas foi meu primeiro crime. A galinha era de estimação, era da minha irmã, criada como se fosse cachorro; dormia em cesta, tinha coberta pro frio, a gente fazia bolo de barro com milho pra ela comer no aniversário dela. Naqueles tempos eu tinha a cabeça raspada por causa dos piolhos e andara escutando na cozinha alguém comentar que galinha era um bicho que também tinha piolho. Como não saberia raspar os cabelos da galinha, decidi que um banho resolveria o problema dela e sem saber preparei seu assassinato. A água estava gelada a ponto de doer os dedos. Coloquei bastante sabão em pó, que era pra ela ficar bem perfumada. Quando minha mãe chegou do trabalho, eu disse que a galinha tinha gostado tanto do banho que estava dormindo na água havia horas. O que veio a seguir foi o desconsolo da minha irmã e a minha incredulidade diante de coisas que eles chamavam consequências. Ninguém me mandou sentir culpa. Foi algo assim, que tinha o gosto dum bolo de barro com milho cru descendo pela garganta e se alojando pesado dentro do estômago.

Tempos depois quebrei um lustre tentando me pendurar nele com um guarda-chuva. Minha irmã, um pouco mais altruísta que as irmãs em geral, assumiu a autoria do crime. Naquela noite eu não dormi. O sentimento de culpa durava mais do que os efeitos de qualquer represália. Mas tampouco tentei reverter a situação. Conheci algo ainda pior que a culpa, uma coisa que eles chamavam covardia. Nunca mais dormi direito.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Générique de Fin

Foi quando comecei a ouvir o Générique de Fin. Que vontade de chorar que me deu, e, logo a gente, que é forte, se diz forte, tenta ser forte, se fortalece com tanta coisa árdua num dia. Pra chegar em casa e querer desabar com Preisner, ou agarrar-se a uma fotografia de Camille Claudel e desejar voltar no tempo para interceder por ela junto a Deus ou qualquer coisa que o valha. Quanta tolice, quanta palavra que não se usa nessa minha cabeça, quanto som que não se escuta. Eles não escutam porque sabem que faz mal, sabem que quem não tampa os ouvidos e ainda ousa! gostar de uma sonoridade de morte é lançado de braços abertos para uma pedra fria dentro do escuro. E dizer "quero ser simples" agora adianta? Agora que eu tomei uma via -leiam bem, uma via. Como retomar tudo o que não me diz respeito porque eu jamais quis que dissesse alguma coisa de mim? Vem um choro comovido, completamente ridículo, completamente deslocado do ano de 2010, da cidade de Brasília e da minha casa sem pintura. Os sentimentos todos arrefecidos, encurvados como uma moça antiga sobre um piano ou um tocador ou um colo de amante.

Eu, que sou forte, me sei forte, me quero fortalecido, nessas horas deságuo como se tivessem de mim apenas a funcionalidade de um vaso: serventia de aplacar as sedes; depois, um destino de louça em escuridões de armários. Pretensões tantas, por que me deram? Ou me dei à mim mesmo um olhar de vaca, estirado sobre a paisagem, ciente do futuro de si e das outras vacas. A intuição do abate. Um reluzir de lâmina antes do sangue, jorrando em cubas muito sujas.

Preisner ao fundo. Todo o drama da liberdade está liberto dos enunciados e das teses. Quis uma vez adentrar o árduo do cotidiano e poder cheirar no humano as mortes limpas que levam consigo. Foram raras. Dentro das figuras honradas há um humilhar-se eterno em posição fetal junto a cantos e insignificâncias. Dentro dos chamamentos de abraço, um espírito em posição de ave de rapina à espera. À espreita, à beira. Rondando as vidas alheias disfarçam caminhos próprios e conquistas próprias e escarram favores no lugar de auxílios e beijos. Sempre esguios e ágeis, sempre equilibristas na corda bamba que une uma maldade bem-disfarçada de benefício e um benefício ineficaz. Nós damos um jeito. Queria dar um jeito, acordar e lavar a cara e com a sujeira dos poros levar embora bem lavado o verniz de visionário. Ir ser lutador corajoso lá fora, de armadura de linho e algodão, de sapatos italianos, de posicionamento político, fiel à marcas, cidadão, praticante de religião, destaque acadêmico, consumidor de cultura, leitor de notícias, filantropo, quem sabe.

Mas não. Por mais que eu me arme e me invista de elmo e couraça, é a própria manhã que me violenta das formas mais insuspeitas e me deixa cada vez mais vencido para o proselitismo dos bem-aventurados e para a pieguice das rotinas bem-vividas. Uma certa luz contrastante à matéria grosseira torna a própria matéria invisível e o que está fora do tempo e do espaço assoma em relevância. Isso aconteceu hoje, quando cheguei em casa e a manhã acendia a um desfecho inevitável de autoimolação. O sol do meio dia engoliu a vida, ao som de Preisner. Eu pretendia me redimir de divagações e pretextos de sonhador. Queria encarar de frente a simplicidade das tarefas e das responsabilidades, do dinheiro ganho e do dinheiro gasto, do amor conquistado através de tanta, tanta, tanta coisa alheia ao próprio amor.

Não é pra mim. A manhã suicida me lembra de ressurreições e a nostalgia de uma luz quase onírica das nove horas me remete a alguns lugares que nunca existiram. Amanhece de novo e de novo a noite engole o dia e regurgita. Preisner me desvia do caminho que eu ia tomar e que não era meu, mas ainda tenho inveja dos que não tomaram conhecimento da própria infelicidade. Camille Claudel aguarda entre uma carta e outra no interior de um pátio em Villeneuve-lès-Avignon. Pousa para uma fotografia com um olhar estirado de vaca. Sessenta e sete anos se passam e ainda assim aquele exato segundo persiste. Mas isso não me diz respeito, repito todos os dias, porque preciso situar-me em meu tempo e suas pequenezas grandiosas. Perdidas na poeira da História estão as pequenezas de Villeneuve-lès-Avignon. É necessário agora fixar mente e corpo nestas coisas contemporâneas. Preciso tentar mais uma vez. E outra. E outra.

Começo agora...

Mas há tempo. Meu pensamento embaça e retoma cores de uns lugares que nunca existiram. Antes que eu eu queira, também eu me perco na poeira e reclino a cabeça para sentir a música. Melhor deixar para outro dia.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Do Conteúdo de Um Vaso Canopo

Centopéias avançam: mesma trilha, um brilho acobreado fosco sobre as costas. Os cascos  são meses/séculos de fragilidades protegendo ramificações de pequenas vísceras. Entrelaçadas, ganham viço. Porque elas se agrupam e formam estampas, as paredes aos poucos vão se tornando bronze.  Que cheiro de sangue, disse L. O outro disse: é cheiro de dentro. E se juntaram à uma fremência de uns bichos anguiliformes e uns tantos outros anelídeos. Unidos, tínhamos a mesma importância: vermes se contorcendo no buraco da minha cabeça aberta. Aqueles que ainda não foram partidos ao meio olhariam pra dentro tão maravilhados que, nesse assombro, diriam: é sensacional, e, logo mais: não entendo nada. E eu, muito calmo, responderia: é horrendo, compreendo tudo.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Menino de Anita




Ele era dono de algumas coisas estranhas, diriam. Pra começar, um jeito de ser. Isso é feito de gestos, de voz, de um olhar pra baixo todas as vezes que percebia nos olhos de alguém um certo brilho. O sorriso dele também era algo muito particular por causa de uma covinha que se formava apenas quando o sorriso era um meio-sorriso e era assim que, quase sempre, ele sorria. A meia-lua nos lábios, diziam os mais próximos, e os mais próximos... eram poucos, mas eram dele. Todas estranhas, essas pessoas que ele tinha. Até a cadela era estranha, mas tão dele que só não falava porque ele mesmo falava muito pouco. Chamava-se Anita porque ele lera esse nome em algum livro onde uma cadelinha desenhada se chamava Anita. Eles tinham em comum um redemoinho que se formava no alto da cabeça e também quase todos os gostos. Ele assistia filmes antigos quando a tarde caía, e era sempre quando a tarde caía, e ela assistia com ele, porque gostavam daquele horário e porque a luz da televisão iluminava a sala sem perturbar a visão do céu quando ficava meio lilás lá pro horizonte. Ela ria muito com Buster Keaton, ou pelo menos ele achava que ela ria muito, ou então era porque ele mesmo ria muito e gostava de pensar que compartilhavam do mesmo humor. Bem, se Anita não ria, ficava atenta, durante mais de hora até, e se algo pode ser afirmado a respeito de Anita, é que aquela cachorrinha gostava mesmo de Buster Keaton. Ela também gostava de pequenas lagartixas mortas, mas desse gosto ele não compartilhava. Nunca ficou muito claro se a cachorra era uma assassina de lagartixas, e ele preferia não se demorar pensando nisso. O que conta é que, se Anita as matava, ao menos mantinha uma discrição sobre o seu hábito.

Quando ele ia para a escola e fechava atrás de si o portão do jardim, Anita assumia propositalmente uma expressão de abandono e era sempre como se ele estivesse se distanciando pela primeira vez. Juntava a cabeça entre as patas e baixava as orelhas o máximo que conseguia. Então ele sempre voltava e lhe dava um afago. Ela só saía de sua prostração quando dava tempo dele já ter virado a esquina. Acho que era nessas horas que ela descontava suas mágoas sobre as lagartixas que andavam a passear pelo muro, se é que ela o fazia. Quando ele voltava pra casa, ela já havia esquecido as horas de abandono. Nisso também eram iguais. Sabiam perdoar e uma vez tendo perdoado, não lembravam mais da agressão.

Foi assim que um dia o pai do menino saiu para o trabalho e voltou três anos depois. O menino abraçou o pai como se tivessem se passado oito horas em vez de mais de mil dias de ausência e assistindo ao reencontro Anita faiscou seus olhos marrons para ver a meia-lua se formando nos lábios do menino. Era fácil fazê-los feliz. Se um se alegrava por qualquer razão, o outro se alegrava junto. O menino percebeu que a cadela gostava do Natal quando a mãe dele arrumou uma árvore diante da janela, ao lado da televisão, e o olhar de Anita ficava perdido entre Buster Keaton, o lilás do crepúsculo lá no horizonte e as luzinhas da árvore piscando entre bolas douradas e pingos brancos que imitavam neve. O menino nunca tinha visto neve, tampouco Anita tinha visto, mas uma vez eles ganharam um globo onde nevava eternamente sobre uma casinha de madeira e várias vezes Anita sonhava que estava lá dentro. Anita tinha três sonhos, dois bons e um pesadelo, que se revezavam: Buster Keaton em cenas rápidas em preto e branco, a neve caindo sobre a casinha do globo, e um exército de lagartixas marchando em sua direção depois que o menino saía para a escola.

Um dia foi a vez da mãe do menino abrir o portãozinho do jardim e sair de casa. Como demorava a voltar, Anita pensou que ela deveria ter ido para a escola. Quis consolá-lo, mas não pôde ajudar. Ela o viu esconder a cabeça entre as mãos e ficar triste de propósito, com as orelhas baixas para que as pessoas percebessem. Como ninguém parecia ligar muito, Anita tentava animá-lo mostrando a ele o muro onde as lagartixas passeavam de tarde. Ele não tinha interesse, mas em agradecimento, esboçava-lhe uma meia-lua azulada. A televisão ficou vários dias desligada. Anita sentava-se ao lado do menino e tentava imitar seus suspiros diante das luzinhas da árvore. Fazia seus olhos marrons faiscarem pra ver se ganhava um sorriso, mas quando muito, ele lhe devolvia um afago ou um abraço desajeitado. No começo, para falar a verdade, ela não gostava muito de abraço, porque os abraços dos meninos tendem a não ajustar-se muito bem aos abraços dos cães. Não era tão confortável quanto ele pretendia que fosse para ambos, mas naqueles momentos, Anita fazia que gostava e até permitia que ele decidisse o tempo do abraço. Quanto mais longo, mais amoroso, aprendera, e desde então começou a acercar-se dele porque via que ele gostava muito e não entendia porque não lhe ofereciam com frequência algo que ele gostava muito.

O pai permanecia longas horas diante da janela, um bom tempo além do que era aprazível olhar o céu. Às vezes ficava negro sem estrela nenhuma, e como a televisão andasse desligada naqueles tempos, Anita olhava do pai para o menino esperando que alguma reação se esboçasse na sala. Tinha noites em que demorava muito até que o menino levantasse e caminhasse até o outro lado para acender a luz. Mas os dias foram passando e aos poucos ele ia acendendo a luz mais cedo que no dia anterior. Até que o pai começou a acender a luz também, e num destes percursos entre o sofá e o interruptor, decidiu pegar o casaco e o chapéu no cabideiro e foi para a rua. Anita e o menino ficaram apreensivos, mas algumas horas depois, o pai voltou. Atirou-se com casaco e tudo no sofá e dormiu na mesma posição em que caíra, com o chapéu no rosto.

Os dias na casa foram voltando ao normal. O menino ia para a escola, Anita se aproximava do muro onde as lagartixas passeavam e o pai de vez em quando saía sem avisar e quando voltava, dormia de chapéu, estirado no sofá. Um dia o menino colocou um dvd de Buster Keaton e Anita desejou ter braços humanos para lhe dar um abraço de gente, como aqueles que ele gostava. A luz da televisão iluminava o rosto dele misturada com a luz que vinha da janela. Tinha tanta estrela que nem precisava de Natal, pensou Anita, e desviou os olhos do céu lilás para olhar a meia-lua que se formava nos lábios do menino dela.

O Menino de Anita, conto.

Imagem: Starring Buster Keaton, Léo Tavares

domingo, 28 de novembro de 2010

Feio

Feio,
Gasto
Gesto vão, esse que faço
com o coração.
Não quero paracetamol
nem esperança,
Um chá me basta
E para ler a noite toda,
luminárias.
Aposto que morro hoje.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

De Perdas e Pedras

Pedra
fruto
pele
sangue
sumo
terra- mistura homogênea para magoar olhares sedentos dos gostos agridoces e para excitar os que gostam de sujeira. Meu olho é incrédulo porque o desperdício sempre me choca. Potencial ele tinha, para golpear com força, inclusive. Mas queria incentivá-lo a descontar raivas e azedumes em cima de portas -ou até de gentes, porque tem umas que merecem. Não, o fruto esmagado no meio da rua não era eu. Nunca tive talento para a doçura comparativa à das frutas, tampouco amadureci de uma estação pra outra. Ele, se me desse uma pedrada, capaz da pedra se partir em duas. O outro esmigalhado era ele mesmo. Quem ele poderia ter sido, ou viria a ser, não fosse a pedra. Não fosse a pedra que ele insistia em trazer consigo desde sei lá quando. Talvez a mãe tenha parido ele e a pedra tenha vindo junto, dentro de uma pequena mão cerrada que sempre teve tendência a ser garra. Persuadi-lo a soltar a pedra seria como dizer para ele esquecer do próprio nome. Questão de identidade, sabe. Não tenho medo daquela pedra na mão dele. Muitas vezes até esqueci que ela existia, porque em certas tardes de calma e sol, era bom ficar olhando um despertar de fruto quando aquela mão ousava ficar vazia. E então pensava em como seria lindo se ele me oferecesse uma coisa cuja semente era minha -porque umas duas ou três vezes havia sido- e eu me perdia em contemplação e espera como se o milagre de um filho nascido de dois homens se desenrolasse à minha frente. Isso nunca durava muito tempo. Achei que era porque nunca tinha tido amor ali, naquelas tardes. E tinha razão. Amor mesmo, nunca teve. Só uma calma estúpida que nos enchia de promessas de pertencimento enquanto os frutos amadureciam e depois se abriam em sumo e sangue sobre a terra, e olha só- até as pedras cresciam.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Re: Luz




Deixa. Nem quero mais. Besteira. A luz do meu quarto acesa não perturba a vizinhança de gatos e telhas. Lindo. Era lindo demais aquele despertar. Olho tremendo e o movimento dos cílios -meu Deus, que movimento de cílios!- e lábios murmurando "já?" e os meus acalentando . E tudo em volta se apagando quando o verde estourava em visão. Bem ali. Diante. Dos meus olhos. Meus olhos de um marrom ordinário que se misturavam com o verde raro dele, que imundiciavam o verde raro dele de pieguice e amor e aí nós virávamos alguma coisa de água correndo veloz pralguma sarjeta onde a gente nunca quer que nem o pior inimigo acorde numa manhã dessas. Entende? Eram movimentos simples que me provavam que alguma coisa de Luz existia.
Pálpebra - cílios - movimento dos cílios - movimento dos lábios... Olhos abertos:
Oi...
E eu me evaporei nesse oi e me evaporaria pra sempre mesmo que quisesse ter ficado e dito "bom dia" e feito café amor cama filho unha barba.
Mas é manha. A manhã violada por um sol impiedoso e eu vaporoso como gosto de ser nos adeuses. "Vai, viaja. Mas para outros lugares." E passam-se tempos e medos e dores tremendas, dores medonhas, até que eu me encontre em casa e repita que nem fosse mantra, mandinga: besteira. É pouca coisa, é coisa pequena. E do lado de fora telhas reluzem e chovem carcaças de lua sobre os gatos vagabundos que se orgulham de serem do mundo. E a luz do meu quarto acesa só perturba mesmo o meu sono tramado em tule: se rasga tão fácil que toda a vez que eu abro os olhos meus próprios olhos me parecem rasgados, e se Luz existisse ainda, é certo: doeria.

Imagem: A Dupla Vida de Véronique ( La double vie de Véronique )- Krzysztof Kieslowski, 1991.

sábado, 13 de novembro de 2010

Apocalypse Now, Please




Sei que não foram sacerdotes mesopotâmicos que adivinharam esse meu destino até agora pouco surpreendente. É claro que quando se debruçavam sobre o fogo eles estavam mais ocupados em ver dilúvios, pragas, tremores de terra e colunas de templos a desabar sobre o mar. Civilizações inteiras desaparecendo no cosmos, e as próprias estrelas se modificando lentamente em espetáculos mais sublimes e terríveis que o meu despertar comer dormir numa cidade que ainda não viu catástrofes bíblicas. A única coisa que me remete a essas estrelas é uma certa lentidão evolutiva. Mas não me interessa a evolução física dos homens. Se todos nós ainda temos resquícios de rabo, é das coisas muito particulares que falo; coisas cujas estruturas, se é que existem, me parecem mais complexas e imutáveis do que a matéria que forma os organismos vivos.

Hoje vemos o átomo. Queria poder ver os sonhos, os pensamentos, as fantasias. Seria bom poder entender por que me sinto mais eu pela minha vontade de sorriso do que pela visão do meu rosto sorrindo, por que quando eu choro eu sou mais o meu desconsolo do que uma cara patética a contorcer onze músculos e uma voz entrecortada tentando verbalizar o indizível da dor. É fácil demais ser patético através do choro, e o ridículo camufla a beleza que existe nas lágrimas, que é uma beleza que não se pode enxergar. Queria ver como são belas, às vezes, as vontades de choro. Queria saber o nome de um sentimento que me nasceu um dia e ficou até hoje. Descobrir se ele se parece remotamente com alguma coisa chamada amor ou vontade de amor, ou amargura de amor, ou nostalgia de amor, ou ódio. Uma mão tem cinco dedos, e nenhum deles é igual ao outro. Queria saber se o amor também tem cinco dedos e se assim for, é alguma coisa que unge, que rasga, que afaga, que delira e que apaga, tudo ao mesmo.

Se esta minha lentidão em envelhecer minha alma me torna um irmão espiritual de estrela, quando eu choro me nasce um vinco a mais e meu corpo está mais próximo de ser poeira. Hoje desisti de me olhar no espelho e me soube mais eu em soluços quando enfiei a cara no travesseiro e fui entrando no escuro: cada vez mais eu, cada vez distinguindo melhor no cosmos o envelhecimento magistralmente belo das estrelas -é preciso que se dê adjetivos como esse às estrelas e às coisas de estrelas, e nesse caso até o lugar-comum e as redundâncias merecem perdão. À nós, nada de monumental. Exceto afirmar que estamos monumentalmente entediados nessa cidade. Incomensuravelmente sozinhos nesse mundo todo, e antes que possamos olhar com nosso olho bem dentro do olho de um sonho, nos desintegraremos sem alardes e sem legado.
 
Se a nossa História comporta as adivinhações mesopotâmicas, não comporta as advinhações da minha história, minúscula e repleta de casualidades em livrarias de esquina e outros leves sobressaltos. Mas eu não quero fazer parte dessa História maior, nem quero a pretensão de profecias às minhas pequenas vertigens diante de certos olhares alheios. Aos sacertodes, prefiro os cineastas, e aos sumérios, prefiro os poloneses. Krzysztof, por exemplo. Esses que me incutiram no espírito um desejo não-físico de olhar as coisas. Nesse sentido, ainda que incapazes de transmutar o eterno vazio em paisagem, alguns terremotos e um sem-fim de dilúvios me atravessam todos os dias, insuspeitos e ínfimos para o mundo como a morte de uma formiga. Aparentemente, a cidade continua tranquila e todos nós vamos chorar ridiculamente por alguns milhões de anos ainda, ignorantes de tantos e tantos sentimentos sem-nome, com nossos microscópios e átomos e tédios e vincos e resquícios de rabo.
 
Imagem: Departing Angel (da série Five Angels for The Millenium)- Bill Viola, vídeo instalação, 2001.

Trilha: Little Earthquakes (do álbum Little Earthquakes)- Tori Amos, 1992.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Das Melodias Insuspeitas

Um piano estala e tilinta e produz brilhos e gritos enquanto a sala toda se enche das pessoas que já fomos. Sou eu engolido pelo escuro até o pescoço, mas o rosto -o rosto é o resto imerso em poeira e sol. À espreita, à espera. Sempre no aguardo. Em guarda naquela sala, vanguardista dos amores mais estranhos, en gallop para longe das liras e dos contornos de um corpo alheio em movimento de fuga. Ele foge para o norte, eu fujo para o sul, mas é só em sonho. Quando acordo, cada vez mais longe e cada vez mais forte, uma luz se acende ao meu passo-sorte, e outras luzes se apagam em nosso passo-morte, mas é sempre dança. Um piano estronda e geme e gane como um cão ferido a pedradas. Nunca disse que o som precisava ser bonito. Cada máquina de destruição que me seduziu o ouvido, nesses dias de preferir a outro, um sentido.

domingo, 31 de outubro de 2010

Dos Adormecimentos De Que Falam As Fábulas

Ganhei um esquife suficientemente fortalecido para que me sirva de armadura e abrigo, mas ao mesmo tempo tão delicado a ponto de não poder ser visto assim de relance -há que se olhar atento e agudo para o meu estado de latência, hibernação, travessia. E enquanto descanso da realidade em necessário sono, é em sonho que trabalho um sem fim de lidas.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Dobraduras

Era todo mundo meio torto ali naquela história. De tão tortos, dobráveis, eu diria. Um deles era tão dobrável que eu guardava ele numa gaveta. Um dia vi um filme do Greenaway e resolvi que ia escrever um livro nele. Em japonês. Como não sabia a língua, fiquei copiando os ideogramas e rezando pra que ele não tivesse vontade de traduzi-los. No fim, ele nunca teve, porque o dobrei em tantas páginas que ele ficou do tamanho de um pocket book. Daí guardei numa gaveta com entradas de cinema, uma porção de cartas e papéis de bala e nunca mais lembrei que tinha guardado. O segundo era tão dobrável que eu fiz até origami dele. Coisas artísticas, às vezes dolorosas. Algumas partes necessitavam do auxílio de tesouras e estiletes. Esse nunca mais voltou a ser o que era antes, tal o outro. Num dia em que uma chuva desabou sobre a cidade eu repousei ele muito delicadamente, em forma de barco, sobre um pequeno riacho que corria do meio-fio até a sarjeta. Sempre senti que ele precisava de aventuras. Enviei-o para uma antes que ele decidisse ir por conta própria. Pensei romanticamente, sem nenhuma ironia, que foi para o bem dele. Que ele seria tipo um Odisseu se ele não fosse o próprio barco. E que eu seria uma espécie de Ítaca para onde ele queria retornar. O terceiro era torto, mas tinha firmeza. Precisei de instrumentos mais fortes e durante o processo fortaleci meus músculos e também eu sofri ferimentos. Era tão pesado e possuía extremidades tão afiadas que numa tentativa de erguê-lo, ele me decepou as duas mãos, e foi nesse momento que eu decidi abandoná-lo, inacabado como estava, enquanto escultura, mas ainda orgulhoso, mesmo que para sempre tombado. O que veio depois não consegui dobrar. Tinha para ele uma finalidade de caixa, onde eu iria me guardar dentro e descansar os meus últimos dias. Ele até fez menção de me envolver sob a sua proteção, certa vez. Era macio como uma tecitura de seda e ao espiar dentro dele senti que também era escuro e morno. Bom pra dormir. Bom pra se perder dias e noites e esquecer até da passagem do tempo. Ele era tão delicado que sua pele era uma pele que exigia afagos. Diante da minha falta de mãos, não achou justa a troca. Tentei dobrá-lo à força, primeiro com os joelhos, como imaginei que um ancestral dobraria uma caça. Depois com os dentes, para que ele se curvasse e desistisse da luta, e assim sangrando, me deixasse entrar. Forcei passagem, chutei com força, vociferei até ficar sem voz. Meu choro se fez sal sobre as omoplatas rasgadas e macio como era, ele não conseguiu me ferir. Quando me olhou exausto deslizou suave para fora do meu abraço e serpenteou para longe. Lá adiante, começou a dobrar a si mesmo em várias camadas, como um manto muito nobre que só poderia ser vestido por um santo, ou um papiro muito antigo a ser descoberto depois de milênios. Mãos muito parecidas com as mãos que eu tivera um dia o recolheram e ele foi de bom grado, como uma relíquia. Só que essas mãos tinham braços e um corpo e esse corpo tinha um rosto com um nome e uma história. Eu permaneci ali, recuperando o fôlego. O mais torto de todos, e só precisava que me dobrassem um pouco para que eu pudesse me endireitar. Quando alguém me viu dobrável, era tarde demais. Eu já era incapaz de adaptações e consertos. Esse último ainda me ofereceu os braços para brincar com eles. Dobrei-os sobre os meus ombros, dobrei-os sobre as minhas pernas, e a cada vez que eu nos dobrava a nossa rigidez fazia um ruído de coisas enferrujadas e pedaços de nós se desprendiam e caíam ao chão. Separamo-nos, então, porque juntos não tínhamos serventia. Alguém achou que ele era bom pra servir de apoio e o levou consigo. Eu achei que o tempo já me havia amolado o suficiente pra ser gume afiado e foi adotando a forma de um canivete de bolso que eu finalmente me dobrei sozinho.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Das Armas Brancas

Como se projetar o meu corpo no teu tempo
Tivesse o mesmo efeito de adentrar teu espaço,
Apressei o meu passo para te atravessar a sombra.
Corri na tua direção com uma lança,
Pela décima vez disposto a destroçar o teu semblante sob o sol da tarde,
Para depois puxar esse mesmo sol com uma corda e atear fogo ao teu redor
E te impedir passagem –olha só- mesmo depois de morto.
Tentei sempre inutilmente atrelar meus monstros ao teu calcanhar
Mas a tua forma esguia serpenteia para longe de qualquer coisa que te recorde o meu rosto.
Então eu recorto o meu rosto em cem pedaços e te entrego numa caixa,
Pra você montar da forma mais apropriada
Misturado aos traços de Alain Delon ou qualquer outro.
Fica feio, vai. Fica pequeno, e continua torpe.
Fica mudo como uma porta, e passa a chave.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Interstício (Em Prol de Um Cessar Momentâneo nas Abstrações Líricas)


"The Lord of the Flies was diagnosed as sound." (Tori Amos, Pandora's Aquarium)

“Queria ser feliz”, escrevi isso num caderno um dia. Não sei dizer quando foi, porque nunca pensei que fosse capaz de escrever algo assim. Que a minha surpresa não seja lida como um flerte com o pessimismo e a solidão. Não é bem assim. Se me assombro é porque enquanto busco me afastar do lugar-comum mais escuro, sempre quis ficar longe dos clichês mais ensolarados também. Poucas coisas desprovidas de caráter conotativo me agradam em matéria de literatura. Tudo aquilo que se colhe dentro de um verso sempre foi meu interesse maior. Aquela beleza invisível e latente escondida dentro da beleza manifesta; o trabalho de lapidar as palavras em busca do segredo delas.

Infelizmente, na vida prática encontrei o reverso desse encanto. Ando inclinado a rejeitar metáforas toda vez que alguém deseja me dizer alguma coisa do tipo: “gosto de você.” Geralmente recuso, polido, mas enfático, as declarações do tipo simbolistas porque elas tendem a me incutir ilusões e frustrações futuras. Erros de leitura, entende? Que não me venham dizer: “você é minha primeira alegria” quando eu vou entender que eu sou a alegria primeira. Além disso, corremos o grave risco de eu querer ser também a última. Prefiro que digam simplesmente que a minha presença em determinada manhã se determina como um primeiro bom acontecimento em um dia difícil. Que deixem para mim as tantas coisas que gosto de incrustar numa entrelinha quando sou eu quem cria a tal entrelinha. As conotações dos outros para comigo sempre foram muito mais motivo de angústia do que de deleite em adivinhar seus possíveis sentidos. Enfim, entendam por estas linhas que o meu diagnóstico é este: bipolaridade lírica. Mas isso, como qualquer doença de espírito, foi adquirido com o tempo e provém de uma causa: depois de tanto ler errado tentativas poéticas do outro para comigo, tomei uma certa aversão ao diletantismo genuíno de alguns amantes; esses que se inflam de inspiração pelo simples reflexo deles mesmos nos nossos olhos.

Se passei a dispensar os teores vagos e a confusão provenientes do romantismo alheio, é apenas quando o são direcionados a mim. Do contrário, me aborreceria facilmente com todos os poemas que já foram escritos e estaria renegando grande parte das coisas que formam a minha identidade e que sustentam esse mundo. Quero a clareza quando eu sou o objeto. Mas para o outro, faço questão de me por esfinge. Aqui descobri, como quem perfura e perfura até encontrar uma nascente, o meu poço de egoísmos. Exigir algo que não se tem é querer roubar preciosidades alheias. Talvez eu me ressinta por não saber demonstrar amor de outra forma que não a poesia. Talvez eu mesmo tenha precisado rebuscar tanto um “eu te amo” que aos ouvidos do outro ele virou uma parábola em sânscrito. Talvez eu precise da clareza alheia como remédio para a poesia sufocada no peito, que me fecha a garganta e que me trouxe uma verdadeira bulimia de versos.

Hoje reescrevi a frase. “Queria ser feliz.” Simples assim, sem transformá-la em surrealismo, porque eu preciso de uma vez por todas que me entendam. Olhei para a frase como um dândi teria olhado pela primeira vez para o urinol de Marcel Duchamp. Mas aos poucos tomei gosto e a frase virou verso. Não digo que vou assumir em definitivo uma mudança de estilo. É que por hora isso me cabe como uma verdade que não necessita proliferar anjos ou demônios em imaginação alguma. Dadas as considerações iniciais, segue-se um poema:


"Queria ser feliz."

.

domingo, 10 de outubro de 2010

Hóspedes

Recebo bem esses meus hóspedes, mas eles me são secretamente indesejados. Só a polidez não me permite que lhes chame a atenção para um fato: estão se prolongando demais numa casa cujas instalações não comportam visitas. Não sei quando irão embora. Disseram-me: outubro. Mas dez mil outubros se passaram desde então e ainda estamos juntos. Quando olho pela janela um céu de sépia que permanece o mesmo há séculos e séculos (como se houvessem colado do lado de fora uma fotografia de céu) eles se acomodam ao meu redor e ensaiam toques de conforto que jamais se concretizam. Nunca acendemos as luminárias porque nunca anoitece. Se eu durmo, é somente para sonhar com a madrugada. No começo, pregavam-me peças o tempo todo. Fizeram desaparecer meu Maiakovski. Uma vez esperaram meu sono para descosturar todos os cortes que eu mesmo costurara ao longo de uma vida e desde então estou sangrando cada um deles de novo. E quando o sangue todo acabar, não vai doer mais, eles dizem. Só que isso foi há uns oitenta anos atrás, meu Deus, eu nem sei. Tinha alguém igual a mim, igualzinho a mim sentado naquela poltrona de canto. Tinha os olhos abertos para o nada, e foi mudando de cor e de cheiro. De uns tempos pra cá, só sobraram uns fiapos de cabelo. Uma roupa velha é o invólucro para os ossos. Até eles amareleceram. É tudo muito sépia aqui. Quando eles todos se forem, vou arrumar tudo e colocar umas cores. Quem sabe até anoiteça.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Religare

Religare I

Foi quando a Terra religou as trompas
depois que Deus escutou Velvet Underground.
It's the beginning of the New Age.
Robert Mitchum estava beijando uma loura gorda.
e fé nasceu.

Religare II

O cachorro de Deus só late em latim.

Religare III (recordis)

re-cordis é melhor do que re-ligare.
mas dói mais.
unir de volta é voltar a ter.
passar de novo pelo coração é nostalgia.
re-ligare é uma sutura de linhas firmes.
re-cordis é uma agulha sem fio alinhavando o vazio na pele da memória.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Sobre Vôos e Vômitos

A distância, em alguns casos, tem o efeito benéfico de um remédio cujo gosto ruim provoca repúdio. Mas calma. Primeiro o dissabor, depois a cura. Nem que seja momentânea. Quando Fernanda me disse "estou amando de novo", dei um passo para trás, como se fosse contagioso. Depois, busquei em vão alguma palavra de consolo. Ela me disse: "o vejo todos os dias" e eu logo pensei: "é grave." Se tivesse poderes sobrenaturais, lhe administraria o remédio e o tal moço iria de pronto a Marte. Infelizmente meu pensamento não afasta meus próprios monstros. De tanto espantar moscas invisíveis, me habituei a cacoetes. Quem me pegar estapeando o ar, não se surpreenda. Nessas horas algum fantasma de amor me ataca. Acho que alguns gestos são a manifestação inconsciente das utopias. Se eu quero sorver a madrugada, fumo com vontade um cigarro, até a ponta. Se eu quero esconder-me até de mim mesmo, ando encurvado como se o rosto pedisse ao peito passagem. Quando aliso o cabelo é para mostrar que preciso do acalanto da mão alheia. Dar de ombros significa "na verdade eu me importo". Fernanda tem uns olhos que viram paisagem se você se debruçar sobre eles. Mas esses moços não querem saber de arte. Tem uma voz que dissipa agruras e rompe o desamor em estrondos. Mas não querem saber de amor. Eles ignoram que um toque dela é um tecido úmido para a febre. Eles querem a febre. A distância me fez bem. Meu mais querido me esqueceu. O que veio depois me tornou alimento diário para a sua necessidade de troça. Rir do amor humano tornou esse moço o mais faminto entre os animais. E os animais são lindos, quando não somos a presa. Tolice minha, querer domesticar uma hiena que já se fartou de coelhos e cães. Tolice nossa, Fernanda. Melhor nos apresentarmos a esquálidas aves de rapina. Que nos biquem os olhos, que se deleitem com o gosto do nosso sal. Que façam da nossa decomposição um banquete. E num vôo alto, contra as cores indecentes de um céu de outubro, bem alimentadas, que vomitem às nuvens, as nossas vísceras.

domingo, 3 de outubro de 2010

Yes, Anastasia

Não me olha com engano.
Ilusões, rejeito.
Não tenho talento para Anna Anderson.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Indução

puxar o amor a fórceps
escutar o grito
jogar no lixo,
sem culpa e sem batismo.
monstros nascem todos os dias.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Borboletas, Ipês e Umidificadores de Ar




Hoje é um dia lindo. Primeiro dia de primavera. A cidade está seca como nunca esteve. Sim, pode tirar dois sentidos disso. Seca de falta de umidade. E seca de tantas outras sedes metafóricas. Não vale a pena citá-las. Use sua imaginação aqui. Mas tome cuidado para o cérebro não trabalhar demais. Seu nariz pode sangrar e você pode ficar pessimista. Aí, toda aquela parafernália fegshuística que você colocou no quarto não vai servir pra nada. Vai ser energia liberta que nem centro espírita resolve.

Mas lembre que eu comecei bem. "O dia está lindo." Continuemos ensolarados. O dia está lindo e daqui da minha janela eu vi uma borboleta sobrevoando o telhado. Tinha um certo lilás na asa dela que eu queria muito para os meus desenhos. Um lilás que a acrilex não fabrica e que eu ainda não aprendi a fazer do azul e do branco. Nem do azul e do vermelho. Fiquei olhando a borboleta tilitando pelas telhas, brilhando sob o sol de um jeito que me pareceu tão ciente da própria beleza, que eu pensei: é onipotente! E eu ali, querendo o lilás dela. Me perdi numa fração de segundo com a imagem da cor no pensamento. Quando retomei o olhar, ela tinha sumido. Fixei o olho, pra ter certeza. Um calango desenvolto passeava pelo telhado. Não sobrara nada do lilás. Da borboleta, só uma antena que o calango rapidamente sorveu como se fosse um fio de macarrão.

... Perdão. Se serve de consolo, a borboleta não poderia ter outro destino, já que borboletas vivem muito pouco. Você poderia argumentar que em vez de virar almoço de calango, a pobre borboletinha poderia ter morrido de velhice aos seis meses de idade repousando sobre um girassol depois de ter sorvido seu pólen à exaustão. Mas pense, por outro lado, na felicidade do calango.

Pense também que é primavera, primeiro dia de primavera. A cidade está cheia de ipês floridos e não seria uma má idéia você ir às duas da tarde até o Eixo Monumental apreciar as árvores. Agora, se o passeio for inviável por causa do trabalho, joga no google images "ipês brasília eixão" e coloca no seu computador como protetor de tela.

Ah, sim, a cidade está seca como nunca esteve, não esqueçamos. Nesse caso, se você não tiver comprado um umidificador de ar, vale à pena molhar umas toalhas e pendurar nas janelas. E caso o síndico do seu condomínio venha a lhe lembrar que você não mora em cortiço e queira lhe multar por poluição visual, a solução mais prática necessita de apenas dois ítens: 1 copo d'água e um cotonete. O primeiro passo é mergulhar o cotonete no copo d'água. O segundo passo é enfiar o cotonete no seu nariz. Siga esse procedimento de dez em dez minutos, ou nos intervalos da Márcia. Importante: quando ela disser que a promoção da TekPix só é válida para quem ligar nesse exato momento, não acredite. Eles aumentam o preço de mercado primeiro pra você acreditar que está adquirindo o produto mais barato, quando na verdade está comprando pelo preço de mercado.

Nesse momento você recebeu um conselho valioso e conselho valioso é motivo para sorriso e otimismo, disse o Osho... Não disse, mas poderia ter dito.

Pois bem. A quase inexistência de umidade e o episódio da borboleta assassinada ficaram para trás. Dá para respirar com alívio agora. Sim, pode tirar dois sentidos disso: respirar com alívio porque a vida é bela de novo, ou respirar com alívio porque as suas cavidades nasais estão devidamente umedecidas.

No fim das contas, é um bom dia. Ipê florido no computador já é um adianto para o feng shui. Um calango feliz passeia saciado por telhados e muros, e uma borboleta lilás-que-a-acrilex-não-fabrica foi encontrar Jesus. Seu nariz não sangrou até o presente momento e você pode adquirir sua TekPix em qualquer hora que telefonar e pagar as treze parcelas sem sofrer pressão da Márcia. Você aprendeu métodos umidificantes - eu diria, edificantes- e como mencionei lá atrás, continuemos ensolarados. Desesperados por chuva, uns três dias dela. Uma boa tempestade, na verdade.

Enfim, é o primeiro dia de primavera. A cidade está seca como nunca esteve. Sim, de secas metafóricas também. Mas é melhor não tocarmos nisso.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Gula

só saciando minha fome de verso,
é que me provas que és reverso
do mau-moço.
baudelaire para o jantar
maiakovski para o almoço.


(se sobrar espaço na mesa,
adélia de sobremesa)

Setembrizado

Sobrou tanto
Ninguém comprou nada.
Resto de sonho
no estoque,
Quitanda fechada.
Só tô esperando a chuva
pra limpar a calçada
pro primeiro freguês
de amanhã.
Eu vou lavar o mês de mim.
E que essa água, meu pai
não seja vã.
Setembro tem fim,
Graças a Deus.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

"The End" (Aplausos)



Imagens: Cenas da apresentação de marionetes do filme A Dupla Vida de Véronique (La Double Vie de Véronique, 1991), de Krzysztof Kieslowski

Through

Aquele sol foi tão enganador que me tornou cego exatamente quando eu julgara tê-lo visto com um olhar cuidadoso que não tinha antes. Cuidadoso precipitou-me uma sentença: cuidado, rapaz; as eternidades são muito mais breves do que desejamos. Foi de eternidade em eternidade que me deparei com o não-estar das coisas. Agora, no lugar de estar amando, escolhi um ser amoroso. Para o que não é pele, apenas. Toda vez que os meus olhos se debruçaram em adoração sobre qualquer corpo, mais o meu próprio conhecia o vazio inconsolável. Eu olhava a pobreza do encontro físico e depois só me restavam trapos a me segurar no abismo. Mas uma vez olhei um pensamento e fiquei repleto. Não me faltava nada ali: ver por dentro o que ninguém mais vira era amor, então passei a amar as fugacidades: lembrança de uma voz, a vontade do olhar, um riso que era pra mim. As coisas incorpóreas não possuem vazio.

domingo, 19 de setembro de 2010

Like Cabiria Leaving



depois do choro, volta o riso
com a música do fim.
se a gente dança,
é porque a esperança,
vem tocando bandolim.

Imagem: Giulietta Masina em Noites de Cabíria (Le Notti di Cabiria, 1957), de Federico Fellini

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Elemental

Para T.


O menino tem dias que sonha com a chuva,
mas ele gosta mesmo é da seca.
Compreensível: o que ele ama é um vislumbrar eterno,
é a iminência das coisas.
A morte, a carta, a água, o filho.
O há de chegar ainda: é esse o seu desejo.
Esse menino abre a janela de noite,
Vestido apenas de poesia e estrela.
Namora a lua mas também tem caso com o sol.
"o meu cabelo já é de prata?"
-a velhice é promessa de luz invadindo o corpo, que é a casa.
O menino está em fase de transição, dizem os astros.
Mas é desde que nasceu, arrisco.
Estar em eterna transição é transar um tântrico com o tempo.
Isso ele tem feito.
Esse menino fica de pau duro até por causa do vento.

Imagem: The Boy- Jan Saudek, 1999

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Insônia (Dos Justos)

eu quero um sono à beira.
(lago, rio, ombro, estrela. despenhadeiro, abismo, escuridão, teu corpo, clareira)
eu quero um sono que me queira.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Catherine Deneuve

Acercar-se dele era como conseguir ingresso para o filme mais badalado do festival mais badalado da cidade. A gente se perguntava como seria, uma vez platéia, uma vez acomodado entre tantos outros estranhos, um apagar de luzes que diminuiria a espera para revelar o encanto, a comunhão silenciosa, aquele compartilhamento feito projeção. Assistir ao desenrolar daquele moço em gesto e voz, em luz e cor, o seu corpo estático ou em movimento, ser eleito entre aplausos um especialista naquele moço. Escrevi ensaios, dediquei teses a ele. Jamais suspeitei que encontrá-lo fosse como ver um filme ruim com a Catherine Deneuve. Lá pelos trinta minutos, você percebe a direção canhestra, a pobreza do roteiro. Mas é um filme com Catherine Deneuve, então você quer assisti-lo até o final. Depois da sessão, aquele gosto de ter perdido alguma coisa muito boa que na verdade nunca existiu. Ali, naquele moço, foi o verbo quem matou a poesia. Só os olhos tinham alguma coisa de mágico. Só olhos eram cinema puro, mas deveria ter sido mudo pra sempre para que se percebesse uma alma em eterno estado de graça. Só em silêncio é que ele era cinema. Carlitos indo embora numa estrada de terra. Expressionismo alemão, Nosferatu assomando sua sombra sobre a nossa cama. Se só o cinema salva, só os olhos é que eram cinema. O resto não interessa.
Aqueles olhos eram a Catherine Deneuve dele.

domingo, 12 de setembro de 2010

Iniciação

A gente gostava de passar as tardes na casa do meu avô. Quando era inverno eu ia pro quintal ficar procurando os espaços no chão onde o sol batia mais largo, peneirado pelas folhas da parreira. Achava bonito ficar olhando aqueles recortes de sombra. Algumas folhas secavam e caíam e então eu escolhia as maiores para levar pra dentro e jogar na lareira. Lá para as cinco horas o meu avô trazia a lenha e eu me arrumava atrás dele, todo encurvado, as mãos juntas entre os joelhos, pronto pra sentir o calor do fogo no rosto, com olhos e ouvidos aguçados, porque gostava de escutar o crepitar da folha se desmanchando pra virar cinza, e porque cada vez que eu lançava um punhado delas, a cor do fogo se avivava.

Foi numa dessas tardes, ocupando o meu posto diante da lareira, com meu punhado de folhas secas e o rosto muito vermelho pela proximidade do fogo, que eu levantei os olhos num momento raro de distração e fiquei paralisado diante de um Jesus cujo olhar zeloso pela humanidade parecia fixar-se em minha direção. Mas eu não soube distinguir uma expressão de complacência nos olhos azuis daquele Cristo pintado. O que queria dizer estou olhando por vocês para mim significava: estou à espreita. Senti-me incomodado porque era como se um estranho tivesse adentrado a sala para me pôr medo. Ele poderia me atacar a qualquer momento. Afastei-me do fogo, fui até a porta. Saí de dentro da casa e fiz a volta pela varanda. Pela janela ele também me olhava. Tinha um manto azul claro sobre os ombros, e os cabelos eram dourados. Mais tarde o reconheci no Drácula de Coppola. Aquele Jesus era Gary Oldman aparecendo em Londres para reencontrar Winona Ryder. Ambos haviam sido sentenciados e condenados às agonias físicas mais terríveis, até a hora de sua morte: um por empalamento, outro por crucificação. Um pelas mãos dos fiéis, outro pelos infiéis. Mas Jesus eu temia mais porque me disseram a vida toda que existia. E se ele tivesse mesmo aquele olhar do quadro na casa do meu avô, eu certamente não gostaria de encontrá-lo.

Minha infância teve tardes de sábado pavorosas em que a minha irmã me chamava para assistir filmes de terror. Eu não podia recusar. Reconhecia a vergonha do medo pelas coisas que não existem e não queria demonstrar covardia. Olhava para minha irmã de canto de olho –para ver se ela me observava enquanto eu escondia o rosto com as mãos nas cenas mais terríveis. Eu nunca via as piores partes, mas sabia que nessas noites o sono seria perigoso, na iminência dos pesadelos. Foi de tanto ter pesadelos que acabei me acostumando com as imagens mais sinistras e aos poucos, escondia o rosto cada vez menos.

Aos oito anos, já encarava de frente o Jesus na casa do meu avô, e por longos minutos. Vi que o que tinha de crueldade nele era exatamente o nosso sentimento de culpa. Diziam-nos que ele morrera pela gente. Como olhá-lo nos olhos, então? Eu queria dizimar numa inquisição de brinquedo um punhado de folhas secas, e naquela tarde reconheci no olhar dele um crime que eu nem suspeitava ter cometido. A primeira vez que aprofundei minha relação com as imagens foi através do medo e da culpa. Também foi a primeira vez que me revoltei, sem sequer saber o que era isso. Logicamente, àquela idade eu também não poderia suspeitar o que significa ser uma pessoa teofóbica. Mas foi através de Jesus que tive medo de Deus. Dele e de seu séquito de santos retratados em martírio ou sublimação epifânica.

Certa vez fui com minha mãe visitar alguém que tinha em casa uma verdadeira galeria de personagens católicos: anjos e santos pendiam de paredes descascadas pintadas de bege, que era a cor do hospital, da igreja, das capelas mortuárias e de todas as coisas amedrontadoras ou tristes construídas na minha cidade. Mas lembro de ter voltado toda a minha atenção para aquela mulher que trazia uma roda com serras de ferro. Perguntei quem era e me disseram que era Santa Catarina de Alexandria. Mais tarde me contaram que a roda fora um instrumento de tortura imposto por um imperador romano; que ela aos dezoito anos vencera com argumentos os cinqüenta maiores sábios do mundo, e que quando morrera, no lugar de sangue, saíra leite. Nunca me interessei por questionar a veracidade desses fatos. A história me deixara embevecido no sentido mais místico que pode existir. Foi uma primeira sensação de enlevo erguendo meu corpo e levando a minha imaginação para longe da terra e de todas as pessoas. Mas não para um lugar de fé, eu sabia. Era um mundo de coisas indizíveis, inexplicáveis, muito mais rico do que qualquer mundo que eu já visitara no sono ou quando lançava ao fogo pequenas coisas mortas. Literatura, ficção, conto. Quando me contaram a história de Catarina de Alexandria pela primeira vez, eu tive sim, um verdadeiro arrebatamento. Não conseguia explicá-lo, a quem perguntasse. Eu disse à minha mãe: virei fã de Santa Catarina!. Em tempos mais antigos, me diriam ser este um êxtase católico, e talvez me levassem a seguir uma vida religiosa porque reconheceriam nisto uma espécie de chamamento. E foi. Não é à toa que hoje escrevo.

domingo, 5 de setembro de 2010

Ainda Que Exista Num Canto Uma Vitrola Tocando Blue Moon Para Todo o Sempre, Coração

Cruzo as mãos sobre o meu próprio peito. Pressão e calor. É como se eu quisesse entrar, forçar passagem.Tanta coisa aqui dentro relegada ao desuso e às réstias de luz que eu deixo entrar quando abro os olhos. Um depósito esquecido com seus baús e caixas e brinquedos velhos e roupas antiquadas de avós e tias.
Houve um tempo em que eu permitia que vasculhassem tudo à procura de algo que lhes aprouvesse. Nunca encontraram nada. Então um dia atirei as chaves fora. Quem agora quiser porventura desenterrar tesouros, descobrir relíquias entre poeiras e trapos –ainda que seja para voltar sem nada, ainda que exista num canto uma vitrola tocando Blue Moon para todo o sempre- que seja a força. Há muito cansei da delicadeza das declinações, da cordialidade nas desistências. Eu quero mesmo a chegada impetuosa que me soe como um susto. A beleza das devastações irreversíveis hipnotizando o olhar. Um pássaro preso num armário de guardar cristais.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Um Café Para Julie



Uma vez Julie Vignon, debruçada sobre a mesinha de um café de esquina em algum lugar de Paris, mergulhou durante quatro segundos um torrão de açúcar numa xícara de café -a sutileza do sarcasmo mais triste da história: um pouco de doçura para amenizar o gosto da perda. Minutos depois, ao reconhecer as notas do Concerto Pela Unificação da Europa tocadas pela flauta de um mendigo, Julie Vignon lhe pergunta: você está bem?
A resposta:
-Precisamos nos agarrar a alguma coisa.
Isto tem me perseguido pela vida. Revisitei o azul um sem-fim de vezes. Mas ainda tenho medo do fade para o negro que se segue a ele. A liberdade presenteada pelo Acaso se lança onipresente uma vez que a ausência se revela irreversível. E é incrível como uma ausência se institui soberana numa casa vazia. É incrível como a gente se horroriza diante das coisas libertas. Da gente mesmo sem impedimentos de ser. Algum bicho solto sentindo falta do cativeiro. O pássaro que levava o prado nos olhos vai embora voando e mesmo a centenas de quilômetros, vislumbra agora a silhueta de uma gaiola.
Eu não sei de muitas coisas. Mas o cubo de açúcar que levou quatro segundos para tomar para si a cor do café não tornou o gosto que Julie Vignon sentia mais doce.

Imagem: A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu), de de Krzysztof Kieslowski
Trilha: Blue Moon Revisited- Cowboy Junkies

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Previsão


Andava hoje praguejando pela rua e umas cigarras tiveram premonições a meu respeito. Ou fui eu que quis ler algo de mágico no que está simplesmente fadado?
De qualquer forma, vou chover dentro de dois ou três dias e estou no aguardo.

Imagem: Musician in The Rain, Robert Doisneau- Paris, 1957

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Na Cidade de Dite

O casal absoluto se obrigou a ficar junto. Só por causa do pequeno. Quando o pequeno ficou grande e cometeu duas, três atrocidades, eles começaram a cogitar a liberdade. Não levou muito tempo. Um dia o filho morreu, e assim que a luneta social desviou o foco de suas figuras enlutadas, trataram de ir um pra cada lado, que nessa vida a gente tem que tentar ser feliz. Aquela morte foi o maior alívio do mundo. Disseram pra todos que se separariam de qualquer maneira. E cada um também reafirmou esta certeza para si mesmo, noite após noite, mas não pelo resto da vida. Três meses depois já estavam certos disso. Havia um alívio descomunal: cabeças de uma hidra se proliferando para cada cabeça decepada. A seu modo, foram felizes como puderam. Ele um dia se pegou fazendo esforço pra lembrar do nome do filho. Ela um dia esqueceu como eram os olhos. Uma vez lhe perguntaram: filhos? E ela de pronto disse: não. Assim que a negativa escorreu-lhe dos lábios foi como se um punhado de cianureto lambesse a borda do copinho de plástico. Desistiu da água com uma sensação que era maior e mais terrível que qualquer sede. A não-existência do outro de repente lhe conferia a manifestação de uma utopia recém-germinada: a liberdade era tão horrenda quanto o inferno mais dantesco e a plenitude era Deus habitando um útero vazio.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Je Sais...

Usava camisa xadrez, não gostava da cidade e pensava em fazer cinema. Mas não tinha certeza. Perguntou se eu sabia o que queria fazer da minha vida e eu disse que não. Mas eu sabia. Quis apertar a mão dele só pra ver como é que era e antecipei uma despedida. Em vez de me estender a mão ele me puxou para um abraço. Quando nos afastamos era como se eu tivesse saído de um abrigo seguro depois de muito tempo, pra constatar que o mundo lá fora não havia acabado. Falei o nome dele em voz alta porque queria guardar bem guardado. Jessé. Achei antiquado e charmoso. Era um dia de julho e em Brasília o frio da manhã resolvera atravessar uma tarde. Senti que nunca mais o veria e não vi.

sábado, 21 de agosto de 2010

Inquisição



Ela riscou um fósforo sobre uma pilha sépia de melancolias. Em poucos segundos um vermelho vivo conferiu àquele conteúdo recém-liberto de gavetas muito bem fechadas algo de pele. Grande parte disso encontrou o frio da noite ao fugir pela janela. O resto se retorceu como carne e depois de um tempo gritando, resignou-se na perenidade do silêncio. Quem olhava de fora as cinzas flanando através da luz dos postes pensava em mariposas dançando tontas até morrer. Ela olhou para a reprodução de Hopper e não teve coragem de atirá-la àquela pira de esquecimentos. Seu cabelo secara com a mesma velocidade que pequenas gotas de suor lembravam aos lábios um gosto de sal em cada coisa nesta vida.
Anos depois ela me deu este Hopper. Eu coloquei este Hopper na parede do meu quarto, acima da cama. Eu resignifiquei este Hopper e a história dele está impregnada de coisas que desconheço.
Quando olhei para cima, da rua vazia, do frio e da solidão, veio a estranheza de morte que sempre me perpassa o pescoço quando me chamam pelo nome e não há ninguém. Ali, mil mariposas desabaram de um quinto andar. Uma luz de luminária me dizia que ela ainda estava viva. Dobrei a esquina e voltei para casa com uma vontade de choro.

Imagem: Summer Evening- Edward Hopper, óleo sobre tela, 30 x 42 inches, 1947

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

After The Three Beggars



Dobrei a via estreita dos desenganos.
A perder de vista minha sombra crescia sob a sombra dos anos que perdi.
Diante de mim o mato se erguia altivo, a impedir passagem.
E embora o orvalho chorasse complacente,
Dei às costas em respeito ao que não me cabe.
A cidade lá embaixo clamava por alguma coisa boa
E para dizer isso enchia d'água seus milhões de olhos vazados.
Era tanto brilho que parecia a madrugada refletida num rio.
Sofrimento, Dor, Desespero: não existem estrelas com esses nomes.
Mas quando olhei para cima, havia centenas de constelações salpicadas de saudades.
Tantas que a gente até perdia o fôlego.
Baixei a cabeça e inventei meu rumo.

Trilha: Roses & Hips- Keren Ann, do álbum Nolita
Imagem: So Absurd, So Fantastic- Delphine Courtillot, guache sobre papel, 140 x 100 cm, 2006.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Décadence Renaissant

Do alto de seus sapatinhos delicados, revestidos de seda e madrepérola, Marie reverbera um ressonar de tule e rendas sob as saias a cada vez que seu peito arfa dentro do espartilho, como se mil borboletas tivessem um infarto sincronizado. Sobre este colo agonizante, rubis e diamantes, turmalinas, safiras e topázios encontram repousante morada, ao passo que tremeluzem nos cristais e se projetam como arco-íris sobre os assoalhos luzentes do Zuu. Aliado à eles, um pesado crucifixo de ouro transparece seus muitos predicados católicos. A peruca aloja-se à pequena cabeça encalacrada de tanto borrifar essências de lavanda e bergamota, a fim de intimidar a audácia de piolhos e baratas. À mão direita, um bastonete folheado a bronze traz alados torsos de querubins emoldurando a graciosidade sacra de um pequenino globo de esmeralda. À mão esquerda, um cosmopolitan. A idade de madame é um enigma indecifrável perdido na maquiagem, mas não há em toda a corte, das QI's e QL's da Park Avenue brasiliense às embaixadas, viva alma que não saiba pronunciar de cor os seus dezoito nomes.
Mil mariposas mais roçam asas para morrer sob o decote, enquanto a cabeça dá à luz mil novas proles de muquiranas. Marie está impassível recortada pela luz dos vitrais, mas suas tragédias sufocadas já não podem se abster de irromper pelo salão. A boca pintada de vermelho começa a se mover em meio à massa corrida de óleo de amêndoas, talco e clara de ovo, e a voz é o engasgo de uma gralha empalada:

Je n'ai rien!!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Recanto Idílico Para Depois de Amanhã



Não tínhamos nada para colocar naquela parede. Ele disse: alguma coisa colorida pra iluminar a sala. Pensei em pintar uma tela, ou pedir a Débora que pintasse uma.

Daí, recém-saídos de um insight, quebramos juntos um retângulo de tijolos e ficamos parados recebendo o vento. Adiante assomavam morros, telhados de casa escorrendo sol, o sol, ele próprio recortando nuvens. Quando tem azul demais, a gente espera a noite. Pra quando não tem estrelas, tratei de pendurar um móbile.

Em finais de tarde, a luz vaporosa nos fala de coisas voláteis que só vão embora se pretendem voltar, e é dessas que mais gostamos. Às 17:45 o sol bate tímido na altura dos olhos e os meus, castanhos, ficam verdes. O ombro dele, pele, vira luminosidade láctea e é o perfeito encaixe para a minha cabeça.

Azul cerúleo, rosa, bronze, cobre, depois silhuetas que se misturam a um escuro morno. O que nos gritava sufoco antes, agora sussurra: contempla. E já não falta mais nada.

Imagem: Orange Sunshine - Peter Doig. óleo sobr tela, 1995 (276 x 201cm)
Trilha: Drake, Beth Gibbons

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Voragem



Ele, quando se reclina sobre superfícies turvas
Reflete oquidões aprisionadas na densidade das coisas mais puras.
Águas que se sujam de humanidades
Já não servem para matar a sede.
Para lavar calçadas, quem sabe,
Reflexos enodoados e rasuras.
Sem sequer ousar limpar o passo que parte
Sem sequer ser poça sob um sol que arde e arde,
A lágrima que tilinta a imagem dele é simplesmente alarde.
Porque o choro inócuo não verte mais de olhos de mulher,
De homem, ou criança.
Mas alguns bichos ainda sabem chorar com sinceridade,
Enquanto o homem esqueceu que o choro amansa.
O crocodilo, ou o camelo. A coruja que durante as noites vislumbra as tardes.
Ou ainda uma raposa cativada a projetar sua sombra
Sobre a cor de trigo do definitivo nas ausências.
Já a minha sombra picha casas, depreda construções de qualquer porte
Sem se preocupar com a sorte das existências que ali residem,
Ou simplesmente por ali passam,
Ao passo que o meu toque deita morte sobre vigorosas vegetações
Oposto efeito sobre os corpos mortos dos meus semelhantes:
Brotam vidas nefastas e por toda a parte ressurreições de amantes
Trazem de volta os antigos prazeres das dores de sempre
Reavivando a comiseração de antes:
Estamos infestados de egoísmo, amor-próprio exacerbado
E uma fé bem trabalhada nas descrenças mais variadas.
Minha palavra, por fim, envenena o ouvido mais fechado,
E distorce quaisquer verdades bem cultivadas.
Quando silencia é como um gás que deixa lastro.
Rastro do horror cósmico que se iniciou um triste dia na solidão do quarto:
A minha cara aberta –verdadeira face a gargalhar no espelho do escuro vasto.

Imagem: Reflection (What Does Your Soul Look Like) - Peter Doig, óleo sobre tela (274.4 x 200.4), 1996

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Anna, As Pessoas Boas Escutam Beethoven



A gente ia fugir pra Cancun pra ficar tomando mojitos ao pôr-do-sol. Aquela coisa de silhuetas contra o laranja, sabe? E gaivotas. Queríamos uma centena delas. Corações na areia, iniciais, quartos de hotel bagunçados e cafés da manhã às duas da tarde. Toda a cafonice vital e merecida que nos incutiram no espírito como necessidade de sobrevivência. Duas contra o mundo, Thelma e Louise, Batman e Robin, Quixote e Sancho. Fiéis escudeiras da sanidade –e da loucura- uma da outra. Citações bêbadas de Camus a Friends, piadas internas e risadas eternas diante das caras pasmas dos outros. Os outros, tão distantes, Lia. Sempre ineficazes, sempre a pedra atirada contra o vidro da estufa. A gente obrigava a vida a ser feliz, a gente obrigou a vida até onde pôde, e agora é isso. O agora é uma sucessão de horas que transcorrem lentas como aqueles dois filetes de sangue que te enfeitaram os pulsos sobre uma pedra branca de banheiro, darling. Depois disso eu comecei a fazer coisas que duvidava. Até rezar eu rezei, e foi com uma raiva fervorosa que ainda não abandonou o meu quarto. Deixo a luminária sempre acesa, Lia. Pra ver de vez em quando a gente dando o dedo pra câmera com Cancun atrás. E também porque passei a ter medo do escuro. Escalpei um coelho, outro dia. Lentamente, vermelho sujando o branco do pelo, o corpo pequeno se debatendo. Pavor naqueles olhos, Lia, eu vi tudo com paciência e enquanto ele me chutava os braços eu ia colocando mais força nas unhas e me arrepiava toda porque sentia que ali eu era Deus. Pânico de ser Ele. Acordei com as mãos cheirando a carne, e até hoje não saiu. Só vai sair quando eu parar de pensar no antes. Mas hoje eu sonhei que me lembrava. Eram cenas nossas que ousavam pingar belezas muito sólidas num cenário hediondo chamado mundo.

Era você com meus sapatos de vinil azul dançando qualquer coisa num bar onde ninguém dançava. Eu com meus martinis e cigarros interpretando Garbo para o garçom. E depois os caminhos vazios das madrugadas sob os nossos calcanhares trôpegos e muito próximos um do outro. Quero de volta, Lia, os teus calcanhares. Quero protegê-los de eventuais flechas, quero lançar-me sobre eles quando pressentir as rasteiras dos homens. Quero ouvir mais uma vez você me ensinando a sentir a música. Anna, as pessoas boas escutam Beethoven, você dizia, com aquele olhar perdido de quando verbalizava idiotices que se pretendiam grandes verdades reveladas em brilhantes sentenças. E eu pensava: os nazistas amavam a Nona, mas não falava em voz alta, só acenava com a cabeça e depois repousava no teu ombro, aprendendo a amar a música e assim, a ser boa também. Deixo a luz do banheiro acesa e começo a fingir que você está lá dentro. Assim, nós conversamos horas e horas e você me conta sobre coisas iluminadas que eu jamais suspeitei que existissem na Moldávia. Você me conta de idéias para possíveis telas e eu deliro dentro das tuas viagens. Improváveis metas, você sempre pensava que iria fazer algo e eu já sabia que nunca faria. Que nunca faríamos, Lia. Me conta os finais dos filmes que eu ainda não vi e quero tanto. Eu deixo. Espera eu dormir, Lia, e quando sair, vá com cuidado: dói demais escutar o barulho dos meus sapatos azuis indo embora com os teus pés dentro.

Imagem: Two Girls in Bed- Toulouse-Lautrec

Prumo

Sempre transitei por não saber direito como ficar parado. Agora, muito por causa das grandes indecisões e de uma porção de solidões bem garimpadas, encontrei todas as vias.
Vou-me. Viro o vulto ao teu vazio e vou-me. Silencioso, sem alardes, longe das vistas oblíquas, dos adeuses errados. Falsos abraços. Para algum lugar distante das palavras liquefeitas, dos vapores e das dissipações. Onde a verdade seja faca na pele: primeiro carne, depois osso. Uma assinatura indelével, que lembre por dor ou evocação a identidade entranhada de quando não éramos.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Cordão

Minha mãe parece que gosta de dizer a todo mundo, distante e vaga: é que tenho ouvido seletivo...

E foi assim que, pela vida, perdida em paisagens imaginárias, esquivou-se sempre de qualquer grito.

Mas nunca se fez surda a nenhum sussurro meu.

sábado, 24 de julho de 2010

Terceira Lei de Newton, Garrel, Uns Pára-Brisas



Ela puxou o zíper da mala num movimento rápido, de uma ponta a outra, fechando-a. Há treze meses atrás, ela puxou o zíper da mesma mala num movimento rápido, de uma ponta a outra, abrindo-a. Agora ele surge no apartamento vazio, segura o braço dela e diz com um tom de voz que há muito não usava: você não vai para lugar nenhum. Há trezentos e noventa e cinco dias atrás ele segurava o braço dela e usava o mesmo tom de voz para dizer: fica aqui pra sempre. Agora ela simplesmente se desvencilha e diz num tom de voz que ele nunca ouvira: eu vou sim. Há um ano, um mês e alguns dias atrás ela simplesmente desabava dentro do abraço dele e não conseguia dizer nada, mas o silêncio dela significava: fico. Agora ele está de braços cruzados dentro de um feixe de sol que atravessa o apartamento pela janela e a observa desaparecendo pela porta. Há anos-luz atrás, eles estavam abraçados dentro de um feixe de sol que atravessava o apartamento pela janela e observavam uma vida toda entrando pela mesma porta. Ainda sozinho, ele sussurra alguma coisa como: agora acabou. Ainda sozinha, ela respira alguma coisa como: agora começa.

Trilha: Virginia - Mutantes
Imagem: A Fronteira da Alvorada (La Frontière de L'Aube), Philippe Garrel

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Das Amizades Epistolares

Sinto, querida Emily, que em vista do cansaço as minhas cartas se tornarão escassas. Gostaria de te escrever tanto ainda, só que mais uma vez percebo a imensa fragilidade, a ineficiência das minhas palavras. Ainda fico triste em perceber que nada disto gerou frutos. Ainda aspirava compreensão profunda, queria pretensiosamente produzir algumas leituras daquilo que não está escrito. Quis uma reflexão aguda e não possuo meios de descobrir se ela foi feita. Assim sendo, recuso por hora os artifícios de uma comunicação embotada. Mesmo diante dos surdos, preciso me abster dos meus gritos. Eu vou engolir uma voz assombrosa que se precipita em espirais velozes pelas minhas cordas vocais. Sufocá-la ao máximo, selar os lábios, forçar passagem pelo estômago, até que ela seja devidamente digerida. Eu cansei, Emily, de assustar os pássaros. Só queria alimentá-los, nunca prendê-los comigo. Já fomos tão leves e somos agora tão pesados sobre a terra.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

There Was a Bird On That Clothesline Eagerly Wishing to Dry

Para M.



Uma ventania inesperada espalhou pelo quintal as minhas roupas. Saí do banho e me deparei com as cores formando composições junto ao sépia da grama morta. Primeiro achei bonito. Mas por um momento exasperei-me diante do trabalho recém-perdido. Recolher tudo, lavar de novo. A repetição me desgasta. Hesitei antes de iniciar o processo. O tempo me aprisionou numa redoma do olhar. Quem eu era não estava também repartido em mil cores diferentes sobre o sépia de morte dos esquecimentos alheios? Ah, eu vou me juntar. Vou me compor de novo.

Uma ventania assim espalhara as cinzas das cartas que M. acabara de lançar ao fogo em um apartamento perdido na Asa Norte. Essas cartas não podem ser recompostas. Há pedaços da gente que merecem um destino pírico. Outros merecem ser limpos numa aspersão de águas conjuradas. Imagino M. diante de uma centelha de palavras espocando sobre uma bacia de bronze. Os cabelos molhados, os olhos secando diante do fogo. Reflexos embaçados de cobre na última curva das saudades. Depois a leveza do silêncio lhe caiu sobre os ombros.

Eu, quando saí da redoma, o mesmo vento que espalhara as roupas me secara os cabelos. E o mundo tem mesmo alguma coisa de mágico quando a gente fica forte. Entrei para a casa trazendo nos braços um coração e um bom par de olhos, para usar quando me aprouver. Tratei de ir viver a vida, mas antes disso dei uma espiada pela janela: a grama toda já estava verde de novo.

Imagem: House Wren, With Clothes Line- Charley Harper, do livro Giant Golden Book of Biology
Trilha: Everything- Casey Dienel

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Morte à Allegra Geller!

Tempo para autocomiseração –não tenho mais. Tanta coisa ficou perdida, mas tanta coisa melhor assoma adiante. Não melhor. Mais esclarecida, mais exata na manifestação de sua existência. Efemeridades que fiquem para os livros e as telas. Passo uma tarde inteira procurando a luz adequada para a copa de uma árvore. O mesmo tempo para iluminar um pouco uma nuvem de tempestade. Depois liberto do verde denso uns balões coloridos que se perdem em gradações do cinza ao negro. Vão para não sei onde. Esse não sei onde é que não me interessa mais. O mesmo aconteceu com a fachada horrenda que me propus uma vez a depredar com o desenho mais feio do mundo. Pintaram tudo de branco. Um branco propício para os adormecimentos sobre a neve: isso é morte. E por ser morte é libertação. Nem as construções mais rígidas resistem. Quanto maior a solidez de uma alegria, maior a dor de viver depois uma perda; e as perdas, bem sabemos, se transformam em males tão efêmeros que causam escaras incuráveis, exatamente por serem invisíveis. A memória involuntária se encarrega de pingar gotas de meimendro nos ouvidos; o tempo passa e sua mão decrépita força passagem pela garganta de quem se lembra: o gosto de cianureto que algumas lembranças deixam.

Matar a memória é como decepar a cabeça de uma hidra: mil cabeças no lugar da decepada. Mas há um esforço incansável calcado na insistência do amor-próprio a forjar uma nova espada para cada hidra que berra e reverbera numa lembrança. Esse amor-próprio é o necessário para que eu escolha as realidades entre as quais desejo transitar. Podem me desligar das ilusões alçadas a felicidades utópicas e corruptoras de humanidades básicas. A idealização me levou a cometer dois ou três crimes, e só um deles não foi contra mim mesmo. Agora eu quero o palpável e o sentimento passível de identificação, ainda que seja uma cara esfolada no asfalto ou o nojo e o torpor diante de uma fotografia de Witkin. Na pretensa grandiosidade metafísica de certos sentimentos idealizados não cabem seres humanos. Não viajo mais para esses espaços. Uma cama vazia ou a prisão de um abraço já não mais me conduzem nem para o simulacro do amor, nem para o simulacro da solidão. Uma cama vazia é o azar de uma noite e uma cama dividida não significa exatamente a sorte de outra. Contato entre peles? É atrito. Todo o resto proveniente disto é ilusão ou objeto de arte. Ainda bem.