terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Sutura

Eu descanso muito. Organizei o quarto. Recosto-me sobre as almofadas espalhadas pelo tapete, leio, o tempo transcorre, cores mudam. A luz vai ficando escassa, as sombras se projetam lentas num fade eterno para o negro. Uma cena longa que parece arrastar as horas. Um relógio cuja lógica se desenvolve em outro espaço, menos corpóreo e no entanto, tão mais pesado quanto possa parecer a imagem de um homem que tenta e tenta arrastar um templo. O rosto de A. se anuncia num vidro refletido de crepúsculo, em tons azulados muito suaves. Fico tentando reconhecer os traços por trás do azul e não consigo. Seria preciso impedir a noite de adentrar o vidro, e mais ainda: seria preciso lembrar-me como ele era.

Em breve será impossível impedir o momento da ação: acender luzes, libertar suspiros, juntar os cacos do copo quebrado há quatro horas. Descanso, descaso, descanso. De vez em quando alguma música ao fundo me desperta a atenção, e aumento o volume. Passeio por outros universos, além das paredes. Tateio coisas obscuras, busco adivinhar a essência dos objetos estudando sem pressa a finalidade deles. Livro, móbile, papel e incenso; a reprodução de Matisse jogada num canto. Depois folheio revistas fingindo desinteresse. Releio cartas fingindo desinteresse. Quase envelheço fingindo desinteresses. Poderia encontrar no meio disso algum sinal de salvação, ainda que tardia, de salvação. Mas não ouso mais perscrutar as entrelinhas, as arestas das coisas vivas e não-vivas. Uma estranha cura é voltar no tempo querendo se perder nele. Para antes do corte. Para antes da infeliz sutura porcamente entrelaçada com as rígidas, inflexíveis linhas do tempo. Mas seria demasiada covardia recusar em prol do sono tranqüilo a lâmina afiada que libera todos os sentidos. Por isto aceito a lâmina e aceito o tempo e recuso curas ilusórias. Quero evitar arrependimentos.

Luto contra a memória porque ela sempre me chama enganadora, parecendo mais bela do que foi. É bem melhor aceitar a feiúra sobre a carne, a marca indelével que durante o dia não produz incômodos, nem coça, nem dói, nem se mostra, e às noites costumava romper um a um, todos os pontos. A beleza falsa que tem o sangue quando ele escorre sobre um gume bem afiado no desdém e no malquerer; a liquefeita, rubra luminosidade escasseando para dar lugar à superfície grosseira das cicatrizações.

A não-dor de agora acostumou-me nas contemplações, no transcorrer das coisas. Avanço lento, quase solene em contraste com um mundo que corre e corre para encontrar pontos de chegada que desaparecem sempre muito rápido. Já tive tanta pressa em segurar imagens, em impedir desvanecimentos... e agora observo indistintos rostos desaparecendo em vidros e breus. Escuridões bem-vindas porque me impelem ao gesto necessário: levar a mão ao interruptor, satisfazer uma necessidade de luz, ainda que artificial, uma luz. E depois calçar sapatos, abrir uma porta e ir viver. De peito aberto, cicatriz à mostra. Feia, ostensiva.

Minha.

Nenhum comentário: