terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

15:30


Conduza-me pela mão
Em direção ao escuro invisível
Que se esconde na clarividência
Dos teus sentidos
Essa que fica além da claridade da tarde,
Mas depende de luz para ser entrevista.
Localiza o lugar mais recôndito, aquele da sonolência
E da síncope. Do frêmito e do despojamento absoluto
Em algum canto absurdamente simples
No fundo do nosso quintal.
Lá onde só residem insetos e a felicidade de insetos
-essa morosidade quente das quinze e trinta,
Fevereiro perdendo a cor,
Veraneio de febres e ressonâncias
Entregando o cenário para a frieza dos nossos pés
E o silêncio das nossas mãos.
Em alguns minutos,
Nossas bocas estarão coladas à terra:
Uma congregação de substâncias
Que resistem além da consciência e do coração.
A vida longa das coisas que morrem.
Cabelos e unhas crescem sem opacidade.
Minerais se desprendem sob o sol.
O curso de outras tardes iguais transcorre
Sem dúvidas ou lamentações. São outros tempos.
Luas irradiam diferentes azuis sobre nossas pálpebras impassíveis.
Chuvas nos aproximam mais e mais
Como dois peixes esquecidos dividindo um pequeno aquário.
Lodo e cinzas. A cor do tempo se aproxima,
E ela é O Inominável.
O mato cresce livre acima dos nossos corpos.
Depois o frio, que jamais sentimos
Trazido nas asas dos pássaros que nos fazem casa.
Nesse lugar onde se reinventa o milagre do tempo.
Tudo em volta se faz ruína, um dia.
Nossos joelhos estão sempre juntos.
E é sempre quinze e trinta.

Imagem: Marc Chagall. Lovers in the Lilacs. 1930
Trilha: The Park- Feist

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Underwater Thing

I guess I'm an underwater thing
So I guess you can't take it personally
I guess I'm an underwater thing
I'm liquid running
There's a sea secret in me
It's plain to see, it is rising
But I must be flowing liquid diamonds

Alguém chama lá do fundo. É uma voz conhecida, e eu preciso me desenrolar das teias do sono para ir recuperando a memória daquela identidade. Aos poucos vou retornando, com algum esforço. Corais que lentamente se desprendem de um navio naufragado há muitas décadas. Não existe mais silêncio na praia, e a praia é a minha cama sob um sol de meio dia. Uma solidão quente e umedecida de quem resgata tudo o que é seu dentro de um quarto, de uma casa, sem viva alma. Chamaram. Não sei quem foi, nem importa mais. Respeito o meu tempo de voltar a mim. Sinto os meus ossos, percebo movimentos involuntários das pálpebras para enxergar melhor.
Acordei e não penso em ninguém. Já não me recordo como era a voz do sonho, mas sei que ela me acompanha ao longo do dia, entre as páginas de um livro que folheio, no reflexo de um chá de pêssego, entre as pessoas que passam na rua. Sento-me no lugar mais sossegado de um café qualquer para fugir dos movimentos caóticos e do burburinho incessante. Basta um vento leve sobre a nuca e é como se a voz me sussurrasse algo importante, mas indecifrável. É tão distante e frágil que em poucos segundos se desvanece para dar lugar ao vazio de antes: o sentimento que se tem depois de uma prece. A mesma estranheza de se sentir saudade de pessoas desconhecidas.
Aconteceu, algumas vezes. Alguém passa por mim na rua. Certamente jamais tinha visto aquele rosto, não conhecia aquele jeito e não saberia ler certas expressões. Normalmente não me abalaria que olhassem na minha direção, que me tocassem igualmente com os olhos. Somente alguém que passa. Imagino toda uma história numa pequena fração de tempo. Toda a estrutura de um encontro, todas as forças subjetivas permeando uma colisão de vidas. Depois vou embora, dobro a esquina e abandono tudo isto. Rotina, ônibus, estudos, chá, trabalho. Retorno para o mundo real da mesma forma como volto do navio naufragado onde repousam três sonhos que eu tinha.

Trilha: Liquid Diamonds- Tori Amos

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Considerações Pretensamente Desromantizadas Acerca de Uma Breve História de Amor Soterrada , ou Finalmente Falaremos a Respeito de Outras Coisas





Hoje o que eu respiro é ar somente. Não mais a falta sufocante de presenças e essências. Sento-me à janela do meu quarto porque gosto da vista. Quando é fim de tarde o telhado do vizinho fica brilhando como se fosse dourado, contra o azul-róseo das seis da tarde. É bonito de olhar. Mais adiante, a silhueta das árvores e o recorte dos morros, uma faixa de estrada desaparecendo depois de uma curva que parece dar no comecinho do céu.

Durante os últimos meses nada disso tinha qualquer poder sobre mim. Nem paz, nem vista. À minha frente somente um rosto e um nome, um jeito que eu julgava raro e que agora se soma ao jeito qualquer da multidão. E se distancia com ela, indistinguível, em passos firmes e rápidos para longe de mim. Nem sequer um lamento ao constatar que o que me era preciosidade tornou-se hoje equivalência em relação à mesmice estampada em todo lugar da vida. Nenhum sentimento de perda ou desvanecimento porque nem ao menos estive consciente de que perdia algo.

Eu simplesmente não vi nada. Talvez tenha acontecido durante o sono, talvez tenha deixado de lembrar em alguma hora genuinamente melancólica, próxima à noite, em que comumente eu me entregaria à lembrança dele. Ou quando a mão firme de um Outro apertou a minha mão receosa. Ao esquecimento lento e imperceptível, a ausência física soube dar velocidade olímpica. A reflexão já distanciada dos fatos trabalhou incansável uma lida que sempre me parecera infinitamente mais difícil. Não foi preciso assassinar memórias. A nostalgia esteve presente em noites e tardes, mas partiu por conta própria, sem esperar exortações. Não voltou mais. Pensei que seria triste, ou o oposto disso: motivo de celebrações, retorno à razão, sentimento de meta atingida, fim de ciclo. Nada disso. Acordei para o dia com vontade de respirar fundo, sim, mas desprovido de qualquer orgulho, sensação de feito heróico ou recomeço.

Minha vida de maneira alguma começa aqui, assim como não terminou no dia 24 de maio, assim como não me mostrou plenitude no dia 4 de abril, assim como não me fez nem um pouco melhor no dia em que nos conhecemos. Não sou melhor agora, mas tenho algo importante que não tinha: um olhar desmistificador sobre qualquer coisa humana. As idealizações passarão longe, o medo não mais existe, a confiança se fortaleceu na decepção e na perda, e de repente as perdas não se converteram em ganhos, mas tampouco serviram para consolidar uma possível descrença sobre mim mesmo. Elas são, agora, tão ínfimas que a mais leve brisa irá carregá-las para bem longe assim que eu sinta vontade de apressar o passo.

Quem me ver agora não me verá melhor. Mas me verá com a minha identidade final mais bem desenhada que o mero esboço de antes. Eu dei a ele um rascunho, na ilusão que admito doce e poética, de se dar algo a alguém. Pensei que entregava meu eu para ser visto e compreendido numa espécie de partilha cósmica. Namorava as tolices românticas mais do que o namorava, e comecei a nos ver do alto revestidos de uma luz que jamais existiu. Mas tudo isso foi o aprimoramento de um traço, a descoberta de tonalidades, uma luz rumo ao equilíbrio e à harmonia de uma composição. Sem pesares, mas sem arrependimentos.

Destituído do amor ilusório, como quem renuncia a um título pesado e faustoso, que não cabe mais à realidade necessária: sem floreios ou esplendores idealizados, sem significações supervalorizadas. Pequenos objetos perdem uma certa essência dada pelas lembranças queridas, para retornar à sua condição real de coisas inanimadas. Dias se desenrolam à medida que me permito rever belezas, das mais simplórias às mais recônditas.

Nada se iniciou. O. envolveu um dedo no meu, qual um anel, outro dia. Olhei para ele em agradecimento ao passo que um A. se apagava dentro daquele círculo. Depois nos soltamos no ar e viramos despedida. Sem condolências, sem contas a acertar, parafina queimando lenta, bruma em vidro e o vapor desvanecendo a escrita. Nem O’s, nem A’s. Sem penas.

Ficou um terreno vasto, propício a flores breves em futuros próximos, ou a uma árvore que dê sombra para os tempos que vêm.

Agora se fez noite e a vista da minha janela escureceu com esses pensamentos. Retomo afazeres, retorno a essas coisas animadoras e simples que têm preenchido meus dias. Cada hora transcorre limpa, sóbria, consciente de possibilidades. O espaço estala a cada pensamento que corre rápido e passa. Eu estou deste ou daquele jeito, eu estou; o tempo é.

Trilha: Nothing Like You (When You're Gone)- Hello Saferide