segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Considerações Pretensamente Desromantizadas Acerca de Uma Breve História de Amor Soterrada , ou Finalmente Falaremos a Respeito de Outras Coisas





Hoje o que eu respiro é ar somente. Não mais a falta sufocante de presenças e essências. Sento-me à janela do meu quarto porque gosto da vista. Quando é fim de tarde o telhado do vizinho fica brilhando como se fosse dourado, contra o azul-róseo das seis da tarde. É bonito de olhar. Mais adiante, a silhueta das árvores e o recorte dos morros, uma faixa de estrada desaparecendo depois de uma curva que parece dar no comecinho do céu.

Durante os últimos meses nada disso tinha qualquer poder sobre mim. Nem paz, nem vista. À minha frente somente um rosto e um nome, um jeito que eu julgava raro e que agora se soma ao jeito qualquer da multidão. E se distancia com ela, indistinguível, em passos firmes e rápidos para longe de mim. Nem sequer um lamento ao constatar que o que me era preciosidade tornou-se hoje equivalência em relação à mesmice estampada em todo lugar da vida. Nenhum sentimento de perda ou desvanecimento porque nem ao menos estive consciente de que perdia algo.

Eu simplesmente não vi nada. Talvez tenha acontecido durante o sono, talvez tenha deixado de lembrar em alguma hora genuinamente melancólica, próxima à noite, em que comumente eu me entregaria à lembrança dele. Ou quando a mão firme de um Outro apertou a minha mão receosa. Ao esquecimento lento e imperceptível, a ausência física soube dar velocidade olímpica. A reflexão já distanciada dos fatos trabalhou incansável uma lida que sempre me parecera infinitamente mais difícil. Não foi preciso assassinar memórias. A nostalgia esteve presente em noites e tardes, mas partiu por conta própria, sem esperar exortações. Não voltou mais. Pensei que seria triste, ou o oposto disso: motivo de celebrações, retorno à razão, sentimento de meta atingida, fim de ciclo. Nada disso. Acordei para o dia com vontade de respirar fundo, sim, mas desprovido de qualquer orgulho, sensação de feito heróico ou recomeço.

Minha vida de maneira alguma começa aqui, assim como não terminou no dia 24 de maio, assim como não me mostrou plenitude no dia 4 de abril, assim como não me fez nem um pouco melhor no dia em que nos conhecemos. Não sou melhor agora, mas tenho algo importante que não tinha: um olhar desmistificador sobre qualquer coisa humana. As idealizações passarão longe, o medo não mais existe, a confiança se fortaleceu na decepção e na perda, e de repente as perdas não se converteram em ganhos, mas tampouco serviram para consolidar uma possível descrença sobre mim mesmo. Elas são, agora, tão ínfimas que a mais leve brisa irá carregá-las para bem longe assim que eu sinta vontade de apressar o passo.

Quem me ver agora não me verá melhor. Mas me verá com a minha identidade final mais bem desenhada que o mero esboço de antes. Eu dei a ele um rascunho, na ilusão que admito doce e poética, de se dar algo a alguém. Pensei que entregava meu eu para ser visto e compreendido numa espécie de partilha cósmica. Namorava as tolices românticas mais do que o namorava, e comecei a nos ver do alto revestidos de uma luz que jamais existiu. Mas tudo isso foi o aprimoramento de um traço, a descoberta de tonalidades, uma luz rumo ao equilíbrio e à harmonia de uma composição. Sem pesares, mas sem arrependimentos.

Destituído do amor ilusório, como quem renuncia a um título pesado e faustoso, que não cabe mais à realidade necessária: sem floreios ou esplendores idealizados, sem significações supervalorizadas. Pequenos objetos perdem uma certa essência dada pelas lembranças queridas, para retornar à sua condição real de coisas inanimadas. Dias se desenrolam à medida que me permito rever belezas, das mais simplórias às mais recônditas.

Nada se iniciou. O. envolveu um dedo no meu, qual um anel, outro dia. Olhei para ele em agradecimento ao passo que um A. se apagava dentro daquele círculo. Depois nos soltamos no ar e viramos despedida. Sem condolências, sem contas a acertar, parafina queimando lenta, bruma em vidro e o vapor desvanecendo a escrita. Nem O’s, nem A’s. Sem penas.

Ficou um terreno vasto, propício a flores breves em futuros próximos, ou a uma árvore que dê sombra para os tempos que vêm.

Agora se fez noite e a vista da minha janela escureceu com esses pensamentos. Retomo afazeres, retorno a essas coisas animadoras e simples que têm preenchido meus dias. Cada hora transcorre limpa, sóbria, consciente de possibilidades. O espaço estala a cada pensamento que corre rápido e passa. Eu estou deste ou daquele jeito, eu estou; o tempo é.

Trilha: Nothing Like You (When You're Gone)- Hello Saferide

4 comentários:

Anônimo disse...

Arrasa!Estupefata diante da sua coerência, despretensiosa honra e o norte, ah, o norte. Creia, me identificando contigo, pois se é matar ou morrer, mato para me defender e me desfazer de quem me fez desfeitas.Infelizmente pelo mal...mas mal que veio para MEU bem. Encontro esse mês, pra inaugurar a casinha.Now I´ll find someone to bruise, excuse me.

Anônimo disse...

At first when I see you cry yeah it makes me smile, yeah it makes me smile
At worst I feel bad for a while
but then I just smile I go ahead and smile...
então, vc e mais quem pra private party de sábado? não me diga q não nos veremos carnaval! vai cuidar dos cats da Marilyn?

Anônimo disse...

Deve ser a vigésima vez que eu leio desde a postagem.

Ai, só uma palavra, léo - perfeito!

descreve de uma forma assustadora exatamente o que eu sinto agora.
um beijo,
iza

Anônimo disse...

É bom observar que o tempo band aid do coração fez sua parte. Quero ver vc sempre assim, confiante e convicto das suas capacidades, medos, vitórias... Sem aquele olhar triste e apavorado pelo que virá. Doi,sempre vai doer mas passa e cicatriza, dando lugar a uma nova pele, assim nos renovamos.

Te amo amigo!
Thiago