terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Underwater Thing

I guess I'm an underwater thing
So I guess you can't take it personally
I guess I'm an underwater thing
I'm liquid running
There's a sea secret in me
It's plain to see, it is rising
But I must be flowing liquid diamonds

Alguém chama lá do fundo. É uma voz conhecida, e eu preciso me desenrolar das teias do sono para ir recuperando a memória daquela identidade. Aos poucos vou retornando, com algum esforço. Corais que lentamente se desprendem de um navio naufragado há muitas décadas. Não existe mais silêncio na praia, e a praia é a minha cama sob um sol de meio dia. Uma solidão quente e umedecida de quem resgata tudo o que é seu dentro de um quarto, de uma casa, sem viva alma. Chamaram. Não sei quem foi, nem importa mais. Respeito o meu tempo de voltar a mim. Sinto os meus ossos, percebo movimentos involuntários das pálpebras para enxergar melhor.
Acordei e não penso em ninguém. Já não me recordo como era a voz do sonho, mas sei que ela me acompanha ao longo do dia, entre as páginas de um livro que folheio, no reflexo de um chá de pêssego, entre as pessoas que passam na rua. Sento-me no lugar mais sossegado de um café qualquer para fugir dos movimentos caóticos e do burburinho incessante. Basta um vento leve sobre a nuca e é como se a voz me sussurrasse algo importante, mas indecifrável. É tão distante e frágil que em poucos segundos se desvanece para dar lugar ao vazio de antes: o sentimento que se tem depois de uma prece. A mesma estranheza de se sentir saudade de pessoas desconhecidas.
Aconteceu, algumas vezes. Alguém passa por mim na rua. Certamente jamais tinha visto aquele rosto, não conhecia aquele jeito e não saberia ler certas expressões. Normalmente não me abalaria que olhassem na minha direção, que me tocassem igualmente com os olhos. Somente alguém que passa. Imagino toda uma história numa pequena fração de tempo. Toda a estrutura de um encontro, todas as forças subjetivas permeando uma colisão de vidas. Depois vou embora, dobro a esquina e abandono tudo isto. Rotina, ônibus, estudos, chá, trabalho. Retorno para o mundo real da mesma forma como volto do navio naufragado onde repousam três sonhos que eu tinha.

Trilha: Liquid Diamonds- Tori Amos

Nenhum comentário: