terça-feira, 16 de março de 2010

De Quantas Luas me Recordo?


O que eu faria comigo, se me encontrasse de repente, sem ter ao menos procurado, assim perdido, opaco e gasto como um vestido de festa antigo no fundo de uma gaveta? Eu me pegaria no colo como uma criança morta, entre susto e curiosidade, e depois pensaria em esquecer-me e superar a perda.
Aquela noite finda já guardei em porta-jóias para olhar de vez em quando, sem doer (só um pouquinho). Quando o dia insiste em semivida é preciso saber roubar uma ou duas cores de crepúsculo para usar nesta janela. Adornar o quarto com estas coisas queridas, finadas, quase-dolorosas (eu disse quase), como se fossem pequenas lembranças de festa para pregar no cabelo, na roupa, nos ataúdes. Nos corações também.

Imagem: Os céus sobre Berlim, do filme Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin), de Wim Wenders
Trilha: Lullaby for Grown-ups- Ane Brun

2 comentários:

Emile disse...

Muito bonito o seu texto, Leo! Sempre me emociona o que você escreve. Já pensou em tentar um romance?
Beijo!!!

Léo Tavares disse...
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