quarta-feira, 17 de março de 2010

Março Morto

"I was tired of being drunk
My face cracked like a joke
So I swung through here
Like a brace of jackrabbits
With their necks all broke."

Quase cinco da tarde, está quente lá fora, quente demais e amarelo. As pessoas andam com pressa em direção às esquinas, às lojas, aos prédios e tudo em volta delas assume tonalidades de sufocamento.
Penso que todas engasgam quando chegam às casas e como eu, se deparam com a culpa asfixiante de mais um dia inútil. E faço menção de levantar e não levanto, de erguer a mão e alcançar a cortina, fechá-la para sempre, não precisar mais saber se é dia ou noite, este desejo de adivinhar alguma coisa porque o óbvio tem estado no sangue como vírus impiedoso.
Logo eu fujo, também vou sumir entre escuridões que ainda me protegem da luz da manhã, sussurrando aos desiludidos do amor e da vida que nada importa, porque eu não quero.
Estou deitado na cama arrumada sabe-se lá há quanto tempo. Desde o instante em que acordei, talvez, sem vontade alguma de fazer qualquer coisa que me lembre que o tempo anda e que com o tempo, pessoas andam e é sempre para algum lugar. Parece-me que faz séculos que desisti dessa vontade e é como se nem lembrasse mais desses lugares-metáforas para onde se dirigem as pessoas.
Minha recusa permanece comigo ao longo da tarde, entre cobertores e televisão, água quente, biscoitos de sal, gosto de laranja ácida, poltrona diante de janela aberta para o jardim minúsculo. Ar pesado de horas lentas, respirar é difícil numa casa tão fechada, que filtra o sol vaporoso de um março morto, vidraças sujas.
Para onde foi a minha pressa?

Trilha: Jackrabbits- Joanna Newsom

Um comentário:

Emile disse...

Como sempre,excelente!!!!