domingo, 25 de abril de 2010

Sem Poesia


Uma voz de cor acinzentada, com trechos de ocre, leves ecos de saudade, cheiro e gosto de sangue, atravessou multidão e tráfego antes de me atingir em cheio os sentidos. Meu coração parou no meio da rua, pensei que veria inferno ou paraíso, ou qualquer reflexo desse mundo espelhado num universo aquático que eu mesmo acabara de vomitar.
Depois deitaram-me, consolaram-me. Foram amigos. Aproveitei a brevidade do silêncio e fugi para uma fresta que se avistava muito acima, entre os galhos das árvores, e nunca mais fui o mesmo.

Imagem: Dead Man, Jim Jarmusch

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Silenzio, No Hay Banda


Eu virei, sim, para muitas coisas, partidário das desistências. Não acredito no retraimento absoluto, ápice do egoísmo. Mas ah, as reclusões momentâneas, essas podem ser tão bem vindas... Porque eu sei que tudo é luta, por hora escolho trégua. Ando tão cansado, tão pra dentro de mim mesmo que sair daqui seria envergar concreto e ferro, me esgueirar por entre grades. Vou ter que rasgar essa couraça antiga, arrancar essas fantasias todas, e me ver por inteiro, Deus, deve ser como retirar dezenas dessas bonecas russas uma de dentro da outra. Então assim, do nada, eu penso em voltar para a minha casa, ouvir as minhas músicas e para essa noite esquecer que as pessoas têm um vazio que na verdade é um rombo, não, uma cratera, e que reza a lenda que um dia alguém preencheu esse vazio rombo cratera e desde então as outras pessoas se sentem obrigadas a.

Desculpe-me os excessos. Minha imaginação brinca de ser monumental quando se trata de possibilidades, mas no fundo eu sempre soube que aquele peixe no lago estava morto e que naquela noite só havia uma lua sobre as nossas cabeças. Só quis fugir da minha latente vulgaridade de rapaz tardio aprendendo a ser homem, criança bem disfarçada se perdendo exatamente no engano disto que hoje me instaura receios: possibilidades.

Retraio-me na humildade graciosa e meio patética destes que recusam presentes por parecerem caros. É simplesmente por medo da falta de perenidade dessas coisas que se deixam pertencer. Olhe minha contradição: mal pedi perdão pelos meus excessos e agora é necessário que o peça pela minha parcimônia. Mas existem dias em que deveria ser permitido fechar-se tal um pequeno molusco em seu casco, sem que ninguém perceba ou, neste caso, nos perturbe.

Antes, bem antes, me demorei uma vez em algum ponto difuso dentro do espaço alheio. Era uma noite fria escura e uma lâmpada pálida estava prestes a despencar sobre a calçada. Observei-o indo embora e esse meu olhar acostumado a verter lágrimas-letras pôs-se a dizer coisas, escrever coisas, buscar metáforas, esmiuçar pensamentos e atitudes, tentando tropegamente dar uma certa estrutura a tudo isso. Hoje você vai para casa, vai assistir Bergman, Antonioni, vai nos ver neles e ridiculamente acreditar que somos especiais. Tudo isto tem a mesma importância de uma lâmpada quebrada. Depois selei com firmeza o veio fonte de palavras; recolhi os meus pedaços, pus-me a andar, estranhamente lúcido. Ouvi meus passos dobrando a esquina e uma mão de espectro que às vezes me envolve os ombros sussurrou: bem feito.

Infelizmente, alguns aprendizados necessitam de três golpes bem fortes no mesmo lugar. Ferida mesmo só se fez lá pela terceira vez. Infecciosa. Enfermidade que surge primeiro como aviso, depois desaparece, depois retorna e se alastra. Talvez meu devaneio mais profundo tenha me dito que alguém havia um dia entrado e olhado em minha direção assim: como quem encontra de repente um pedaço de si estendido no asfalto, e o quer de volta.

É que as pessoas querem o que pertence à vida das outras e o meu próprio querer acaba de me causar nojo. Hoje não. Hoje quero poucas coisas, aceito poucas pessoas. Amanhã não sei mais. Essa colisão de olhares com jazz ao fundo e estrelinhas na varanda, sequência hollywoodiana de suspiros e frêmitos, deveria para mim ter a mesma intensidade do meu desejo pelo chá de boldo que estou indo tomar agora.

Trilha: Calma- Rita Lee
Imagem: Prenez Soin de Vous- Léo Tavares

terça-feira, 13 de abril de 2010

Báratro

Desci anos-luz para dentro da terra.
Uns diriam que era um estado eterno de ajoelhar-se
Mas não era a força do vento infindável que me dobrava,
Nem a intensidade de uma oração.
Era um olhar-me de costas que você tinha.
Era a migalha-palavra que eu recolhia com as mãos.
Determinação perene em juntar cacos
Que se pretendiam preciosos ornamentos
À opacidade do meu coração.
Eu diria que o peso do tempo me envelhecia
À cada sombra do gesto.
Máquina espiralada e ruidosa se fez minha essência:
Tarefa laboriosa e lenta a que me predestino
Vocação de enterrar meus sonhos natimortos
Na aridez de um solo estrangeiro.
A palavra ali, entre macegas e escombros
Concreta e lúcida,
Faustosamente material.
Quintessência escarrada e tornada em
Desagradável substância orgânica.
Eu preciso dela como quem necessita
Matar a sede com chuva ácida
E cavo a terra como se enterrasse as mãos
Em omoplatas fugidias.
A quem pertence esse rosto que só vejo em fuga
E desalento?
Desespero heróico em evitar meu próprio desespero.
Eu me fixo em abandono quando o meu abismo
É o meu próprio espelho.
O que é deteriorável e insignificante
O que é terra, pedra, galho,
Vida parca e esgotada
Diante dos meus joelhos,
Pra mim é jóia cósmica e rara.

Trilha: Backseat- Carina Round

domingo, 11 de abril de 2010

Sobre Uma Canção- It Does Not Suffice

Em It Does Not Suffice, Joanna Newsom desenha uma imagem muito singular de uma despedida silenciosa, essas das quais apenas uma das partes toma conhecimento no tempo certo. É sobre abnegação, depois cansaço, depois renúncia. E as pequenas coisas que permanecem intocadas, repletas de pertencimento, num cenário que se visualiza pela última vez. Relembra e reflete as dificuldades de se tornar amado ao olhar do outro. É a última canção de uma obra monumental chamada Have One On Me.

Everything that could remind you oh how easy i was not.

Quando o álbum se inicia, a voz vem antes dos instrumentos, dos arranjos sofisticados, do desenrolar épico de uma história interiorizada, imensa. A primeira palavra de Have One On Me é easy. I’m easy to keep. Não é. Não somos. No fim nos tornamos, à memória alheia, uma junção de coisas ínfimas, objetos materiais impregnados de uma essência que não se quer mais, características muito particulares, a insuficiência das expectativas trazidas nos sonhos do outro; o lamento final da desistência. Não somos fáceis, não aprendemos a manter interesses, mistérios, amor. Não bastam palavras que pretendam substituir o gesto subjetivo de entrega e compartilhamento que perseguimos ao longo de uma vida inteira. Não basta estar muito próximo; há distâncias que se instituem no momento exato do encontro.

Trilha: It Does Not Suffice- Joanna Newsom

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Bom Para Tempestades


Chovia tanto quanto chove agora, era abril também, mas outro ano. Eu estava ainda num processo de recompor algumas partes disso que a gente chama de eu e acho que no meio do caminho acabei entregando alguns desses pedaços para ele. Erro bobo, resquício de uma adolescência tardia que não me permiti ter no tempo propício, ou mais que isso, falha cósmica que me custaria uma verdadeira saga para me ter de volta. Era abril, chovia fora de época, eu vivia cego um amor fora de época. Não era pra mim, nem era amor. Uma outra coisa calcada na solidão dele, na minha carência, nos nossos descompassos. Na dor lancinante que aqueles dias nos infligiam, ambos fragilizados pelas distâncias: ele distante de um amor de verdade, eu distante de mim mesmo. Pensava que me encontrava em processo de recuperação e que ele era cura. A. chegara na minha existência quebrantada, ainda incerta de ser existência, e eu dera uma permissão para adentrá-la sem que ele ao menos tivesse pedido.

A forma como eu via os acontecimentos: ele surgia diante de mim e eu lhe dizia bem vindo, e então se iniciava uma união. A forma como aconteceu: eu abri uma porta e ele estava atrás dela, puro acaso. Então o convidei para entrar e como ele não deu sequer um passo, caminhei até ele. Abracei, envolvi no meu corpo um peso de recusa e não consegui entender como ele podia ser tão arraigado a um chão obscuro chamado passado. Eu mesmo tentava me desvencilhar das coisas que não havia possuído, e no entanto, estava ali, no esforço vão de trazer para perto de mim o que era grande demais, pesado demais, imóvel em todos os sentidos.

Eu pensava que já tinha amado antes. Pensava que me entristecia de admiração, saudade, amor por D. e toda uma vida que se revelava na forma como aquele homem se manifestava no mundo. Sua bondade assustadora em dias como hoje, como pode alguém ser tão bonito e tão bom e ainda tão triste?, e refletindo horas e horas, dias e dias eu ia me fechando num casulo estranho que tecia à minha própria pele: o não ter das coisas. Não ter D. e seu sorriso discreto, os seus gestos que eram duas mãos carinhosas na minha direção, ainda que fosse para segurar o meu rosto entre elas e me dizer adeus. O adeus de A. veio aos poucos, sem toques, e para meu espanto absoluto, através da minha própria voz. Primeiro entrecortado, linhas telefônicas, abismo físico, o desejo dele por uma outra voz apagava a minha própria; o abraço que se eu não houvesse pedido não aconteceria, o discurso falho que exigi segurando mãos que fugiam do meu campo de visão; as costas que se viravam para além de tudo, numa curva do nosso cenário; por fim as tantas noites mal dormidas, a angústia que insistia em me fechar boca e estômago, os pensamentos clareando, a aceitação raivosa, depois a aceitação, depois o tempo-hiato em que eu não podia sentir mais nada além de frio e saudade, e por último o acordar violento: todas as partes recompostas debatendo-se entre ondas de lençóis em uma cama vazia, à deriva. Em busca de alguma costa, terra à vista para descanso, para a construção de alguma coisa.

Estou escrevendo há duas horas, mas espero que a chuva passe e que leve com ela alguns desses pensamentos. Não porque doem; porque não são suficientes. Escuto “Cooling” enquanto me preparo para sair. Depois, na rua, embaixo de guarda-chuva, as luzes da cidade se multiplicam e os carros voam sobre águas sujas, provocando ínfimos maremotos. Presto atenção neles. Nessas horas, sempre me vêm arrepios. É só virar uma esquina e a memória acende imagens pelo meu caminho. Luminárias e poças d’água o trazem de volta num susto acobreado.

Imagem: Henri Cartier-Bresson
Trilha: Cooling- Tori Amos

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Lovesick



E eu, sem saber ao certo de que forma de arte me aproprio, para lançar-te aos olhos uma aura insondável de mistério e utopias, atravesso a sala, passo firme e calculado, e me debruço às janelas embaçadas de luz.
Composições de Vermeer preenchendo algum espaço, e afastando poeiras na tua memória esparsa.
É isso?
Ou talvez devêssemos apagar paredes e teto, para incorporar às paisagens róseas as flutuações de nossos corpos uma vez em puro estado de graça?
Um Chagall que se anuncia muito vivo entre minhas relíquias, e que brilha esquecido em algum canto sujo e úmido das tuas lembranças.
Ainda posso, sem qualquer pretensão de ser-te importante, rasgar umas peles desnecessárias, umas cartas retardatárias, para compor colagens empapadas de sangue e tinta.
Minha letra sobre sépia, minha pele com resquícios de sol, tuas coisas preferidas e tuas coisas abominadas. O bem vindo contraste entre orgulho e humildade.
Mas não, não me coloco mais ao alcance de mãos ávidas por corações que batem. Há restos bem conservados nos mercados, por um preço justo, se queres apenas mitigação de uma fome que no fundo se sabe insaciável.
Deixa para os vivos o coração dos vivos.
O ato de ceifar os que respiram não é lenitivo algum para tuas próprias dores. Deixa os assassinatos para os que sabem fazer doer sem pressa alguma. Somente os que se demoram sobre a anatomia do espírito descobrem a existência miraculosa revelada em uma tela.
Recusaste musas, agora acenda uma vela na tua memória, para enxergar tarde demais como era bom o meu carinho.
Pinta qualquer coisa grandiosa e ao mesmo tempo ínfima, e para fazer valer um tempo de inspiração que já está perdido,
Recorda, pensa, reflete.
Tranqüilidade e trabalho.
Encontra, por fim, tonalidades que lembrem a cor do meu último abraço.

Imagem: Brothers, Jan Saudek
Trilha: Only Yesterday- Taken By Trees