quinta-feira, 27 de maio de 2010

16:12:08

Trabalho sem descanso e pleno de desinteresses um sem fim de coisas que não se desprendem de si mesmas. Eu estou bruto, mecânico, calculado.

Cadê a fluidez das horas, quando elas ainda lutavam contra tempo e espaço? Quando a tarde se fazia presença azul-clara para dar alguma água aos nossos olhos.

Cadê as coisas que a gente olhava, que a gente podia se demorar sobre? Era quando os meus olhos ainda olhavam.

Cadê o toque desperto para pele e abraço, o remanso desvendado num trecho amado entre o pescoço e o ombro de alguém que não existe mais? Quando me bastava a estagnação de um dia a revelar presenças alheias solidificadas na minha.

Cadê as cores tecendo lentas um crepúsculo que se anunciava primeiro nas nossas costas? Quando elas não pesavam sozinhas sobre janelas sem vista e computadores, às 16 horas de uma quinta-feira que jamais será lembrada.

Cadê a leveza, meu Deus?

Quando eu ainda possuía algum poder sobre o desenrolar fugidio das coisas, a vida era assim: eu soltava lentamente tardes presas em gaze e tule, e observava em silêncio brilhos metálicos tilintarem livres sob um sol que definhava na pele. A gente costurava estrelas na noite, pela essência plena do que eram: corpos celestes se libertando dos nossos próprios corpos.

Trilha: Older Chests- Damien Rice

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Down a Rabbit Hole

E se eu cansar da eloqüência, o silêncio germina significados e provoca um sentimento híbrido entre a sua compreensão e a minha? Sinto uma curiosidade estranha em adivinhar o que nos interliga. Satisfaço-me à exaustão quando escrevo: palavra palavra palavra que me faça ver alguma coisa. E palavra palavra mais palavra que me aproxime então de qualquer entendimento.

Mas há uma suspeita que me traz um medo: se eu quero a comunicação além da expressão pura e desprovida de respostas, posso descobrir apenas resultados unilaterais. Porque não há voz que me grite bem alto quem eu sou e necessito ouvir, assim como a minha escrita revelando cacos de uma identidade há de criar abismos incomensuráveis e imediatos entre a minha essência e a sua. Apesar dos reconhecimentos instantâneos, apesar das dores compartilhadas, apesar do sensorial meu identificado com o teu: eu desconheço todos os pequenos desenhos mentais que você faz quando me lê, eu não compreendo exatamente a sua tristeza diante disto e disto, e nem as mesmas coisas que te abrem os olhos para o dia são as mesmas coisas que me abrem os olhos para o dia.

É uma pena essa não existência latente e bruta de compartilhamentos. Compartilhamentos puros, eu digo. Coisas iguais que se encontram e se entendem na medida mais exata do entendimento. Sinto muito por você se reconhecer muito pouco em mim. E também sentirei muito se você porventura acreditar que somos os mesmos, em Mountain View, em São Paulo, em Brasília ou no Círculo Polar Ártico. As nossas distâncias são tão assustadoras que elas se assomam agora mesmo sobre o meu pressentimento de solidão, e então me sinto indo embora para longe, como uma música que vai aos poucos se apagando até não existir mais.

Eu queria ver algumas pessoas por dentro, e me encontrar nelas. Sem o entorpecimento ilusório que muitas vezes nos coloca diante do outro com um olhar de quem vê a si mesmo onde só existe um terreno baldio, sujeira e mato. Admito um anseio que tenho em ver por entre as frestas as sujeiras mínimas das pessoas e suas belezas mais recônditas. As minhas sujeiras mínimas e o sublime invisível atrás das banalidades. Eu amo as singelezas, sonho com as simplicidades, mas não aceito o óbvio. Prefiro garimpar na feiúra o belo oculto do que descobrir que a beleza é mero revestimento de larvas.

Acabo de entrar em estado de abandono. Palavra palavra palavra e não disse a palavra angustiante que não existe nem se pode inventar. Uso umas poucas que ousam construir pontes muito frágeis entre nós. Entre uma e outra, existem valas perigosas. Penso que tenho estado em busca de surpresas como estas: um tropeço entre sentenças provocando quedas. Se eu cair vocês não saberão onde, enquanto eu busco me recompor e encontrar o caminho de volta na bruma. Se vocês caírem não peçam ajuda. Armadilhas despropositais num labirinto que se pretendia esplanada.

Acho que não nos entenderemos porque esquecemos demais. Temos o triste dom da imemorialidade e nosso ranço material permanece além de qualquer contato ínfimo com o inefável. Uma pena sermos tão frágeis. Viramos esta página e imediatamente deixamos de existir.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Mesmer


Atravessei no corredor um feixe de luz. Poeira dançava tonta em espirais para o alto. Eu me mantive por trás da escuridão propícia dos óculos. Medo de olhar nos olhos o sem nome que já se manifestava nas mãos. Eu me mantive por trás da minha cara de espelho: dois medos muito bem fundados se revezavam ali.

Resignação e covardia. Um último fiapo se rompe numa teia secular, imensa e frágil. Nem sorrisos nem “olás”. Suficientes “obrigados” entrecortam duas vozes que precisam colidir para tomarem velocidade rumo a lados opostos. Fugas que seriam meio patéticas, até, se não durassem poucos segundos; que seriam emblemáticas para as grandes finalizações, fossem essas grandes fugas.

Dentro de um filme, haveria de ser a cena extra após os créditos. Aquela cuja existência poucos na sessão ficaram para tomar conhecimento. Depois da última música, bem depois do the end.

O feixe de luz me congela. Imagem e movimento. A estaticidade de morte que acontece exatamente após os sentimentos que latejam é infinita e se passa em um tempo ínfimo. Então você ganha a sua velocidade e tem a coragem de atravessar sem rastro de memória um corredor inteiro de sombra.

Agora escuto perplexo a sinfonia das significâncias, uma a uma, desmoronando ao longe.

Trilha: Sometime Later- Alpha
Imagem: Mesmerism- Monica René Rochester, colagem, 2003

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Assassinato de um Poema - Para Emily Dickinson



Saudades de ler as coisas da Emily Dickinson. Reencontro minha pequena coletânea de textos dela e quase com um susto, constato que fora arrancada uma página. Então me recordo que eu mesmo arrancara o poema para entregá-lo a alguém, junto a uma longa carta que era, na verdade, meu antigo blog Pequenas Cartas Azuis transcrito para um caderno que eu mesmo costurei, com a ajuda do meu amigo Renato. Foram dois dias confeccionando o caderno, primeiro à quatro mãos, com a ajuda do meu amigo, em seu ateliê, numa tarde entre conversas amenas, pequenas constatações sobre vida e arte, dores que ainda se faziam presentes, entre uma xícara de café e as dezenas de páginas que nós dobrávamos. Depois sozinho, três semanas transcrevendo cuidadosamente nas madrugadas cada letra que saíra de mim para outro, buscando captar a compreensão de uma possível validade sobre esses gestos, assim como se estivesse adivinhando que mais tarde ter me disposto a isso teria afinal, alguma importância. Eu estou sempre pensando que qualquer palavra ou ato, pode de certa forma reverberar adiante. Como um eco ou resposta. Como um reflexo pálido que seja. Mas é que um dos meus sonhos sempre foi que o universo nos devolvesse certas coisas. Utilizei, enfim, algumas dessas páginas e escolhemos a dedo as mais bonitas. O Renato não sabia para quem era, e eu achei melhor dizer que era um presente que eu daria a mim mesmo. E de certa forma, era.

Eu sei que a cada página dobrada eu procurava encontrar alguma sombra de esquecimento, resignação ou esperança, como se imitasse o movimento cíclico dos dias transcorrendo. Eu buscava uma transformação eloquente, que me dissesse bem alto que certas coisas estão destinadas a dar passagem a outras, e que repetisse ainda mais alto para um mundo inteiro que aguardava o desenrolar dos meus processos. Mas esse mundo inteiro está sempre de costas. Eu ainda não sabia disso e ingenuamente acreditava que as transformações podem ser perceptíveis em seu exato momento de consolidação. Acontece que aquela transformação almejada antes ainda está se fazendo agora, e ontem, e agora, e agora, e sempre adiante. A gente só percebe quando está longe ou quando sentimos que ela nem tem mais importância alguma. Quando cerca de trinta cartas, desenhos e apontamentos que te ajudaram a compreender melhor a história de si mesmo e foram uma prova física de um amor sozinho e doído, se encontram agora fechados num pequeno caderno costurado à mão, entre papéis desimportantes em alguma gaveta, longe da vista e do coração.

Eu não lembro mais do poema da Emily, mas quando abro meu livro, fico pensando que lhe falta alguma coisa. Como se de alguma forma o poema estivesse lá, assombrando as páginas, querendo voltar a se fazer presente num espaço de merecimento, de valorização, como tem que ser. Também não posso alegar que ele está neste momento, completamente esquecido. E se ele um dia me cair aos olhos, em outras páginas ou através de outras vozes, sinto que sou capaz de me recordar de cada um de seus versos e declamá-lo assim, na íntegra, diante do nada e para o nada, para que reverbere ainda que o mundo nos vire as costas, num ritual que consiste em devolver à srtª Dickinson um respeito profundo. A redenção desse meu belo, humano, grande assassinato.

Trilha: The Ghost Of A Dead Hummingbird Flying Around The Room- Carissa's Wierd
Imagem: retrato de Emily Dickinson, daguerreótipo, 1886

sábado, 1 de maio de 2010

Sartre, Erínias, Courtney Love e Eu Ao Som de Preisner- Um Delírio Febril

Toca agora um bolero que Zbigniew Preisner criou a pedido de Kieslowski para o filme da minha vida. Van den Budenmayer foi a farsa mais bela da história. Acreditei nele como acreditei na existência de Valentine Dussault. Eu era um pouco dela e era um pouco do juiz, nesse jogo de desencontros e revelações metafísicas subitamente descobertas –ou sumariamente ignoradas- atrás das simplicidades. Também fui um pouco da cadela Rita, atropelada numa ruela escura de Genebra, pivô de embates morais que questionam a validade da existência e a manifestação sempre duvidosa da verdade.

Estou imerso no bolero de Van den Budenmayer, minha cabeça fervilha pensamentos e dores insistentes que não me deixam dormir. Nem paracetamol, nem bolero. Folheio as páginas de uma peça de Sartre, depois folheio revistas ao acaso. Deixo pender a mão sobre qualquer imagem; começo a ter dificuldades em me concentrar no texto; a visão fica turva, a luz é fraca e a música prossegue, libertando as notas por frestas na janela. Estou diante de uma fotografia de Courtney Love, dos primeiros tempos pós-Cobain. Por um instante ela me faz esquecer onde eu estava. Valentine, sim. Meu querido Krzysztof e esta nossa saga em busca de nós mesmos.

Universos estranhos me habitam. Há pessoas que não parecem ser, quase em nada, do mesmo mundo. E no entanto, possuem a mesma matéria grosseira envolvendo o inefável. Só pode haver uma realidade? Neste caso, me é imprescindível tomar uma delas como verdade e negar aquelas que surgem destas dobras invisíveis? E se nenhuma realidade, nem esta que nos parece mais concreta, for plausível? No hay banda! No hay banda.Il n'est pas de orquestra. It’s an illusion.

Creio que não posso, de forma alguma, afirmar que Courtney Love e eu compartilhamos da mesma verdade. Mas agora acabei de pensar que, se para Sartre, em sua peça As Moscas, todos os homens estão sujeitos ao castigo das Erínias, então Courtney Love e eu, ainda que não participemos da mesma verdade, compartilhamos o mesmo destino –aquele que para Kieslowski coloca os seis personagens de sua trilogia como sobreviventes de um naufrágio no Canal da Mancha.

Uma Erínia de Sartre é tão Erínia quanto uma Erínia de Ésquilo ou de Eurípedes? O fato é que existem universos onde habitam as Erínias, sartrianas ou gregas, e existe um universo onde Courtney Love habita. Existe um universo onde eu habito.

Longo Parêntesis em Caso de Necessidade de Desenvolvimento

(Courtney Love, num plano físico, não pode fazer parte do mesmo universo de uma Erínia. Mas segundo a minha verdade, no plano moral homens e erínias são indissociáveis para o equilíbrio do mundo. Como infelizmente a minha descrença e certo repúdio pelos discursos monológicos não me permite tomar a minha verdade como melhor ou mais apropriada, penso que para Courtney Love eu esteja muito mais próximo de sua realidade e que Sartre pertença ao mesmo universo mitológico da Erínia. Ou que todos nós, depois da terceira carreira de pó e do quadragésimo drink estejamos categoricamente no mesmo plano.

E Sartre? Nisso tudo este senhor pensaria que a Erínia é mais plausível que a srtª Love e que eu simplesmente sou um bosta.

Enfim, para Sartre, as Erínias, Courtney Love e eu representamos uma humanidade com presas afiadas e estômagos sedentos por tudo aquilo que ainda se preserva inocente e bom. A verdade dele, é claro, é mais perspicaz que a minha. Mas então me recordo que, para Kieslowski, enquanto seis náufragos entre milhares sobrevivem, ainda há esperanças para esta mesma humanidade. É que não quero acreditar em Erínias. Prefiro preservar a minha verdade e ir dormir com a música de Preisner. Ainda que tenha visto uma Erínia bem de perto e lhe oferecido de bom grado as vísceras.)

Parágrafo Único: Van den Budenmayer existe.

!

PS1: A srtªa Love encontra-se em rehab. Hoje pela manhã digitou no google a palavra “erínia” e começou a ler O Ser e o Nada. Mandou dizer que me acha um bosta.

PS2: A Erínia mencionada ao final do Longo Parêntesis em Caso de Necessidade de Desenvolvimento também acha.

Conclusão Formal: O universo moral tem sua existência co-dependente do físico e vice-versa. Mas cada ser humano escolhe a sua verdade.

Conclusão Opcional para quem não leu o Longo Parêntesis em Caso de Necessidade de Desenvolvimento: a verdade é que nem cu.

Trilha: Soundtrack de A Fraternidade é Vermelha- Zbigniew Preisner