quarta-feira, 19 de maio de 2010

Assassinato de um Poema - Para Emily Dickinson



Saudades de ler as coisas da Emily Dickinson. Reencontro minha pequena coletânea de textos dela e quase com um susto, constato que fora arrancada uma página. Então me recordo que eu mesmo arrancara o poema para entregá-lo a alguém, junto a uma longa carta que era, na verdade, meu antigo blog Pequenas Cartas Azuis transcrito para um caderno que eu mesmo costurei, com a ajuda do meu amigo Renato. Foram dois dias confeccionando o caderno, primeiro à quatro mãos, com a ajuda do meu amigo, em seu ateliê, numa tarde entre conversas amenas, pequenas constatações sobre vida e arte, dores que ainda se faziam presentes, entre uma xícara de café e as dezenas de páginas que nós dobrávamos. Depois sozinho, três semanas transcrevendo cuidadosamente nas madrugadas cada letra que saíra de mim para outro, buscando captar a compreensão de uma possível validade sobre esses gestos, assim como se estivesse adivinhando que mais tarde ter me disposto a isso teria afinal, alguma importância. Eu estou sempre pensando que qualquer palavra ou ato, pode de certa forma reverberar adiante. Como um eco ou resposta. Como um reflexo pálido que seja. Mas é que um dos meus sonhos sempre foi que o universo nos devolvesse certas coisas. Utilizei, enfim, algumas dessas páginas e escolhemos a dedo as mais bonitas. O Renato não sabia para quem era, e eu achei melhor dizer que era um presente que eu daria a mim mesmo. E de certa forma, era.

Eu sei que a cada página dobrada eu procurava encontrar alguma sombra de esquecimento, resignação ou esperança, como se imitasse o movimento cíclico dos dias transcorrendo. Eu buscava uma transformação eloquente, que me dissesse bem alto que certas coisas estão destinadas a dar passagem a outras, e que repetisse ainda mais alto para um mundo inteiro que aguardava o desenrolar dos meus processos. Mas esse mundo inteiro está sempre de costas. Eu ainda não sabia disso e ingenuamente acreditava que as transformações podem ser perceptíveis em seu exato momento de consolidação. Acontece que aquela transformação almejada antes ainda está se fazendo agora, e ontem, e agora, e agora, e sempre adiante. A gente só percebe quando está longe ou quando sentimos que ela nem tem mais importância alguma. Quando cerca de trinta cartas, desenhos e apontamentos que te ajudaram a compreender melhor a história de si mesmo e foram uma prova física de um amor sozinho e doído, se encontram agora fechados num pequeno caderno costurado à mão, entre papéis desimportantes em alguma gaveta, longe da vista e do coração.

Eu não lembro mais do poema da Emily, mas quando abro meu livro, fico pensando que lhe falta alguma coisa. Como se de alguma forma o poema estivesse lá, assombrando as páginas, querendo voltar a se fazer presente num espaço de merecimento, de valorização, como tem que ser. Também não posso alegar que ele está neste momento, completamente esquecido. E se ele um dia me cair aos olhos, em outras páginas ou através de outras vozes, sinto que sou capaz de me recordar de cada um de seus versos e declamá-lo assim, na íntegra, diante do nada e para o nada, para que reverbere ainda que o mundo nos vire as costas, num ritual que consiste em devolver à srtª Dickinson um respeito profundo. A redenção desse meu belo, humano, grande assassinato.

Trilha: The Ghost Of A Dead Hummingbird Flying Around The Room- Carissa's Wierd
Imagem: retrato de Emily Dickinson, daguerreótipo, 1886

2 comentários:

Valerie(sempre tive nojo de barba) disse...

Agora fui ver que o longo post anterior era pra Sue. Arrasa! Ciuminho e saudade dela. Como foi no Balaio? Aposto que pela lei de Murphy perdi horrores...Me perdoe por não comentar sobre Emily,me falta ...intelecto? Apareça, heim. Bj.

beto,,, disse...

gostei tanto muito disso.