quarta-feira, 26 de maio de 2010

Down a Rabbit Hole

E se eu cansar da eloqüência, o silêncio germina significados e provoca um sentimento híbrido entre a sua compreensão e a minha? Sinto uma curiosidade estranha em adivinhar o que nos interliga. Satisfaço-me à exaustão quando escrevo: palavra palavra palavra que me faça ver alguma coisa. E palavra palavra mais palavra que me aproxime então de qualquer entendimento.

Mas há uma suspeita que me traz um medo: se eu quero a comunicação além da expressão pura e desprovida de respostas, posso descobrir apenas resultados unilaterais. Porque não há voz que me grite bem alto quem eu sou e necessito ouvir, assim como a minha escrita revelando cacos de uma identidade há de criar abismos incomensuráveis e imediatos entre a minha essência e a sua. Apesar dos reconhecimentos instantâneos, apesar das dores compartilhadas, apesar do sensorial meu identificado com o teu: eu desconheço todos os pequenos desenhos mentais que você faz quando me lê, eu não compreendo exatamente a sua tristeza diante disto e disto, e nem as mesmas coisas que te abrem os olhos para o dia são as mesmas coisas que me abrem os olhos para o dia.

É uma pena essa não existência latente e bruta de compartilhamentos. Compartilhamentos puros, eu digo. Coisas iguais que se encontram e se entendem na medida mais exata do entendimento. Sinto muito por você se reconhecer muito pouco em mim. E também sentirei muito se você porventura acreditar que somos os mesmos, em Mountain View, em São Paulo, em Brasília ou no Círculo Polar Ártico. As nossas distâncias são tão assustadoras que elas se assomam agora mesmo sobre o meu pressentimento de solidão, e então me sinto indo embora para longe, como uma música que vai aos poucos se apagando até não existir mais.

Eu queria ver algumas pessoas por dentro, e me encontrar nelas. Sem o entorpecimento ilusório que muitas vezes nos coloca diante do outro com um olhar de quem vê a si mesmo onde só existe um terreno baldio, sujeira e mato. Admito um anseio que tenho em ver por entre as frestas as sujeiras mínimas das pessoas e suas belezas mais recônditas. As minhas sujeiras mínimas e o sublime invisível atrás das banalidades. Eu amo as singelezas, sonho com as simplicidades, mas não aceito o óbvio. Prefiro garimpar na feiúra o belo oculto do que descobrir que a beleza é mero revestimento de larvas.

Acabo de entrar em estado de abandono. Palavra palavra palavra e não disse a palavra angustiante que não existe nem se pode inventar. Uso umas poucas que ousam construir pontes muito frágeis entre nós. Entre uma e outra, existem valas perigosas. Penso que tenho estado em busca de surpresas como estas: um tropeço entre sentenças provocando quedas. Se eu cair vocês não saberão onde, enquanto eu busco me recompor e encontrar o caminho de volta na bruma. Se vocês caírem não peçam ajuda. Armadilhas despropositais num labirinto que se pretendia esplanada.

Acho que não nos entenderemos porque esquecemos demais. Temos o triste dom da imemorialidade e nosso ranço material permanece além de qualquer contato ínfimo com o inefável. Uma pena sermos tão frágeis. Viramos esta página e imediatamente deixamos de existir.

Um comentário:

Get over Glendale disse...

Hehehe hoje eu vi uma propaganda em que perguntam "Você iria de táxi de São Paulo para Recife?" Era da Santander. Need I say more? IT's getting old but EVERYONE is. O que vocês farão hoje? Vamos marcar algo pra Domingo? Kybe sumiu, eu heim...