sábado, 1 de maio de 2010

Sartre, Erínias, Courtney Love e Eu Ao Som de Preisner- Um Delírio Febril

Toca agora um bolero que Zbigniew Preisner criou a pedido de Kieslowski para o filme da minha vida. Van den Budenmayer foi a farsa mais bela da história. Acreditei nele como acreditei na existência de Valentine Dussault. Eu era um pouco dela e era um pouco do juiz, nesse jogo de desencontros e revelações metafísicas subitamente descobertas –ou sumariamente ignoradas- atrás das simplicidades. Também fui um pouco da cadela Rita, atropelada numa ruela escura de Genebra, pivô de embates morais que questionam a validade da existência e a manifestação sempre duvidosa da verdade.

Estou imerso no bolero de Van den Budenmayer, minha cabeça fervilha pensamentos e dores insistentes que não me deixam dormir. Nem paracetamol, nem bolero. Folheio as páginas de uma peça de Sartre, depois folheio revistas ao acaso. Deixo pender a mão sobre qualquer imagem; começo a ter dificuldades em me concentrar no texto; a visão fica turva, a luz é fraca e a música prossegue, libertando as notas por frestas na janela. Estou diante de uma fotografia de Courtney Love, dos primeiros tempos pós-Cobain. Por um instante ela me faz esquecer onde eu estava. Valentine, sim. Meu querido Krzysztof e esta nossa saga em busca de nós mesmos.

Universos estranhos me habitam. Há pessoas que não parecem ser, quase em nada, do mesmo mundo. E no entanto, possuem a mesma matéria grosseira envolvendo o inefável. Só pode haver uma realidade? Neste caso, me é imprescindível tomar uma delas como verdade e negar aquelas que surgem destas dobras invisíveis? E se nenhuma realidade, nem esta que nos parece mais concreta, for plausível? No hay banda! No hay banda.Il n'est pas de orquestra. It’s an illusion.

Creio que não posso, de forma alguma, afirmar que Courtney Love e eu compartilhamos da mesma verdade. Mas agora acabei de pensar que, se para Sartre, em sua peça As Moscas, todos os homens estão sujeitos ao castigo das Erínias, então Courtney Love e eu, ainda que não participemos da mesma verdade, compartilhamos o mesmo destino –aquele que para Kieslowski coloca os seis personagens de sua trilogia como sobreviventes de um naufrágio no Canal da Mancha.

Uma Erínia de Sartre é tão Erínia quanto uma Erínia de Ésquilo ou de Eurípedes? O fato é que existem universos onde habitam as Erínias, sartrianas ou gregas, e existe um universo onde Courtney Love habita. Existe um universo onde eu habito.

Longo Parêntesis em Caso de Necessidade de Desenvolvimento

(Courtney Love, num plano físico, não pode fazer parte do mesmo universo de uma Erínia. Mas segundo a minha verdade, no plano moral homens e erínias são indissociáveis para o equilíbrio do mundo. Como infelizmente a minha descrença e certo repúdio pelos discursos monológicos não me permite tomar a minha verdade como melhor ou mais apropriada, penso que para Courtney Love eu esteja muito mais próximo de sua realidade e que Sartre pertença ao mesmo universo mitológico da Erínia. Ou que todos nós, depois da terceira carreira de pó e do quadragésimo drink estejamos categoricamente no mesmo plano.

E Sartre? Nisso tudo este senhor pensaria que a Erínia é mais plausível que a srtª Love e que eu simplesmente sou um bosta.

Enfim, para Sartre, as Erínias, Courtney Love e eu representamos uma humanidade com presas afiadas e estômagos sedentos por tudo aquilo que ainda se preserva inocente e bom. A verdade dele, é claro, é mais perspicaz que a minha. Mas então me recordo que, para Kieslowski, enquanto seis náufragos entre milhares sobrevivem, ainda há esperanças para esta mesma humanidade. É que não quero acreditar em Erínias. Prefiro preservar a minha verdade e ir dormir com a música de Preisner. Ainda que tenha visto uma Erínia bem de perto e lhe oferecido de bom grado as vísceras.)

Parágrafo Único: Van den Budenmayer existe.

!

PS1: A srtªa Love encontra-se em rehab. Hoje pela manhã digitou no google a palavra “erínia” e começou a ler O Ser e o Nada. Mandou dizer que me acha um bosta.

PS2: A Erínia mencionada ao final do Longo Parêntesis em Caso de Necessidade de Desenvolvimento também acha.

Conclusão Formal: O universo moral tem sua existência co-dependente do físico e vice-versa. Mas cada ser humano escolhe a sua verdade.

Conclusão Opcional para quem não leu o Longo Parêntesis em Caso de Necessidade de Desenvolvimento: a verdade é que nem cu.

Trilha: Soundtrack de A Fraternidade é Vermelha- Zbigniew Preisner

4 comentários:

Valerie disse...

How does it feel to be such a marvelous, mature, well-read person? This city is not enough, the boys aren't worthy of u and the wannabe parties...oh, lord!Courtney should commit suicide, really, that would be her one good contribuition in over 40 years. Frances Bean doesn't count, that was Kurt's masterpiece.

beto,,, disse...

só posso dizer que achei isso genial. de verdade.

Valerie should be ashamed disse...

Entón, como interpretar o seu silêncio e ausência nos posts? Gay isso né, dramático EMO, eu tava zoando hauauahuahuauah.Entra no msn que sua amiga debilóide teen tá daquele jeito!

Léo Tavares disse...

obrigado valerie, obrigado beto. beijos
:)