quinta-feira, 24 de junho de 2010

Sem Título



A inveja iridescente diante de sorrisos e choros dos que ainda sentem,
Brilha um verde biliático: mistura homogênea, raivas e azedumes.
O corpo apodrecido do tempo vai decompondo as horas.
A mão da noite feito garra revira estômago atrás da fome.
Que fome, que vontades, que enjôos se produzem a cada gesto de virar-se e ir?
Nem mais sossego serenando euforias,
Nem mais catarses constantes ou esporádicas
O escuro lança seivas para a terra em esporradas pouco românticas,
Como precisam ser as germinações desprovidas de amor.
Anomalias espreitam para aleijar-te até a sombra
E se aproximam de nosso ventre as vidas anguiliformes, subterrâneas.
A sorte se atira sobre as vidas dos outros, risos sádicos
Diante da fome do filho, cansaço
E alguns trapos para amenizar o inverno.
Eu acho que quando a gente sofre,
Alguém Maior se compraz e goza.
Mas não é no inferno.

Imagem: Identidade 3, série em scanner- Léo Tavares

terça-feira, 8 de junho de 2010

A Paixão Segundo Syd Field

Para Dani


Dois se conheceram. Dois ficaram juntos. Por um tempo apenas. Fim.

“Pra sempre.”

“Amor.”

“Da minha vida.”

“Fica.”

“Adeus.”

*Considerando-se variáveis, mas mantendo-se a essência das mesmas, estas se apresentam como sentenças básicas para a estrutura dos relacionamentos amorosos, somando-se a elas algumas outras poucas, de significado semelhante, e um sem fim de gestos e olhares subjetivos demais para serem catalogados.

O texto apresentado é meramente descritivo para a formulação da estrutura básica de um relacionamento do tipo amoroso, praticamente a mesma utilizada para descrever as narrativas literárias (e cinematográficas depois de Griffith e apesar de todo o cinema não-americano):


exposição > conflito > resolução:


Ainda que no texto inicial não exista uma narração descrevendo o conflito, que é a parte onde as situações se apresentam enganadoras porque tendem a tolher a capacidade, digamos, racional dos personagens envolvidos, imersos durante todo este trecho central na ilusão de desconhecer o desfecho, ignorando todas as premissas apresentadas já na exposição.



Ou seja, o amor é tão previsível quanto um livro de banca de revistas chamado Sabrina, Bianca, Julia ou Samantha. Ou um filme hollywoodiano. A gente já sabe como é que termina, mas continua hipnotizado pela narrativa e finge que o final é sempre uma surpresa. É claro que ainda que constituídos por um esquema vulgar de manipulação do público pelo autor, existem os bons livros, os bons filmes, e... os bons amores. Há apenas uma falta de entendimento em relação aos agentes manipuladores/manipulados. E também ao emprego do termo “ficção”, muito bem consolidado em obras audiovisuais e literárias para o entendimento comum, mas pouco utilizado para descrever o rocambolesco ou o trágico de uma vida a dois.

Agora comecei a pensar que existem leitores, cinéfilos e amantes. Alguns leitores só se interessam por livros policiais, alguns cinéfilos só assistem aos filmes de ação, por exemplo. E alguns amantes só se satisfazem com intermináveis clichês que se desenrolam cronologicamente dentro de uma estrutura ordinária de três preceitos e muita, muita utopia.

Lembra quando as pessoas saíam terrivelmente perturbadas das primeiras sessões de cinema¿ Pois é. O amor é ainda aquela locomotiva avançando destruidora e ilusória sobre os nossos semblantes incrédulos.

Trilha: Black Comedy- Bright Eyes
Imagens: Marcellin Auzolle, poster publicitário para os irmãos Lumière, ilustrando a comédia L'Arroseur Arrosé, 1895./ capa do livro Sabrina- Amante por Engano, de Penny Jordan.

terça-feira, 1 de junho de 2010

O Próximo, Por Favor

Para Iza, nossa querida Charlotte


A moça atrás do balcão da tabacaria está prestes a proferir a questão mais intrigante que permeia todo o meu tempo de pós-infância, pré-resto, época em que a vida deveria acontecer grande e caótica e maravilhosa e terrivelmente linda e assustadora e nunca-óbvia, e incrivelmente misteriosa, com todo o amor que se pode ter e todas as cidades que se pode conhecer e todas as pessoas interessantes que passam, que ficam, que passam, que ficam um pouco mais, que estão sempre longe ou sempre perto, e doem nada ou doem muito dentro da gente.

Eu estou vindo daqui e dali, estou indo para lá e para além, eu perambulo pela cidade atrás de alguma coisa que antes eu sabia o que era e já não sei. Finjo que não me importo, finjo que não estou à procura de nada e de repente o tempo sempre para numa cena insignificante. Se esta noite pudesse ser transformada, queria ter ainda um arsenal de imagens desejáveis, acontecimentos agradavelmente surpreendentes que pudessem se concretizar no momento em que eu saio para a rua e enfio as mãos dentro do casaco e começo a andar sentindo o vento na cara e as coisas me brilham as suas luzes nos olhos.

Entrego o dinheiro, guardo na mochila, meio desnorteado, um maço de marlboro e um isqueirinho amarelo.

- É só isso¿

...É só isso.

A moça não tem uma expressão humana nos olhos. É só isso, eu respondo, e imediatamente assumo a expressão dela e me afasto para dentro do burburinho horrendo do shopping center, passo rápido e pensamento lento. Coloco uma interrogação depois da minha resposta, e essa pergunta muda não nasce porque sempre esteve ali, engendrada nas minhas questões primordiais. Vou perguntá-la pela vida, levemente melancólico pelo silêncio imenso que se segue, levemente esperançoso como tenho que ser para sobreviver a ela. Até que você que ainda não me veio apareça, e me descruze os braços, e me guie para longe do caos, e me gire para dentro de um abraço e então diante de algum lugar sossegado me mostre corajosamente –com o risco da minha descrença se desenhando a cada sentença dita- todas as coisas que existem e que eu não havia percebido:

Isto. E isto. E isto.

Então eu acendo um cigarro com aquele isqueirinho amarelo, e disfarço com espirais de fumaça o suspiro do alívio mais extraordinário do mundo. E te olho breve, contendo um sorriso insistente, umas mãos que se assomam sobre as suas, e te digo assim, desinteressado e distante, mas tremendo por dentro: eu já sabia.

Trilha: Forasteiro- Thiago Pethit
Imagem: cena de Lost in Translation, de Sofia Coppola