terça-feira, 1 de junho de 2010

O Próximo, Por Favor

Para Iza, nossa querida Charlotte


A moça atrás do balcão da tabacaria está prestes a proferir a questão mais intrigante que permeia todo o meu tempo de pós-infância, pré-resto, época em que a vida deveria acontecer grande e caótica e maravilhosa e terrivelmente linda e assustadora e nunca-óbvia, e incrivelmente misteriosa, com todo o amor que se pode ter e todas as cidades que se pode conhecer e todas as pessoas interessantes que passam, que ficam, que passam, que ficam um pouco mais, que estão sempre longe ou sempre perto, e doem nada ou doem muito dentro da gente.

Eu estou vindo daqui e dali, estou indo para lá e para além, eu perambulo pela cidade atrás de alguma coisa que antes eu sabia o que era e já não sei. Finjo que não me importo, finjo que não estou à procura de nada e de repente o tempo sempre para numa cena insignificante. Se esta noite pudesse ser transformada, queria ter ainda um arsenal de imagens desejáveis, acontecimentos agradavelmente surpreendentes que pudessem se concretizar no momento em que eu saio para a rua e enfio as mãos dentro do casaco e começo a andar sentindo o vento na cara e as coisas me brilham as suas luzes nos olhos.

Entrego o dinheiro, guardo na mochila, meio desnorteado, um maço de marlboro e um isqueirinho amarelo.

- É só isso¿

...É só isso.

A moça não tem uma expressão humana nos olhos. É só isso, eu respondo, e imediatamente assumo a expressão dela e me afasto para dentro do burburinho horrendo do shopping center, passo rápido e pensamento lento. Coloco uma interrogação depois da minha resposta, e essa pergunta muda não nasce porque sempre esteve ali, engendrada nas minhas questões primordiais. Vou perguntá-la pela vida, levemente melancólico pelo silêncio imenso que se segue, levemente esperançoso como tenho que ser para sobreviver a ela. Até que você que ainda não me veio apareça, e me descruze os braços, e me guie para longe do caos, e me gire para dentro de um abraço e então diante de algum lugar sossegado me mostre corajosamente –com o risco da minha descrença se desenhando a cada sentença dita- todas as coisas que existem e que eu não havia percebido:

Isto. E isto. E isto.

Então eu acendo um cigarro com aquele isqueirinho amarelo, e disfarço com espirais de fumaça o suspiro do alívio mais extraordinário do mundo. E te olho breve, contendo um sorriso insistente, umas mãos que se assomam sobre as suas, e te digo assim, desinteressado e distante, mas tremendo por dentro: eu já sabia.

Trilha: Forasteiro- Thiago Pethit
Imagem: cena de Lost in Translation, de Sofia Coppola

4 comentários:

Laurem disse...

LEO EU TE AMO CASA COMIGO VAMOS SER FELIZES PARA SEMPRE

Léo Tavares disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
whoneedsadrink disse...

LEO EU TE AMO CASA COMIGO VAMOS SER FELIZES PARA SEMPRE [1000]

que emocionante!

Death of a Prodigy dancer disse...

Faaaaaaaaala Hillary! E hoje? Qual "vai ser"? Tenho que saber pra chamar ou não a bbsitter. Ahhhhhhh Lost in translation...