sexta-feira, 30 de julho de 2010

Anna, As Pessoas Boas Escutam Beethoven



A gente ia fugir pra Cancun pra ficar tomando mojitos ao pôr-do-sol. Aquela coisa de silhuetas contra o laranja, sabe? E gaivotas. Queríamos uma centena delas. Corações na areia, iniciais, quartos de hotel bagunçados e cafés da manhã às duas da tarde. Toda a cafonice vital e merecida que nos incutiram no espírito como necessidade de sobrevivência. Duas contra o mundo, Thelma e Louise, Batman e Robin, Quixote e Sancho. Fiéis escudeiras da sanidade –e da loucura- uma da outra. Citações bêbadas de Camus a Friends, piadas internas e risadas eternas diante das caras pasmas dos outros. Os outros, tão distantes, Lia. Sempre ineficazes, sempre a pedra atirada contra o vidro da estufa. A gente obrigava a vida a ser feliz, a gente obrigou a vida até onde pôde, e agora é isso. O agora é uma sucessão de horas que transcorrem lentas como aqueles dois filetes de sangue que te enfeitaram os pulsos sobre uma pedra branca de banheiro, darling. Depois disso eu comecei a fazer coisas que duvidava. Até rezar eu rezei, e foi com uma raiva fervorosa que ainda não abandonou o meu quarto. Deixo a luminária sempre acesa, Lia. Pra ver de vez em quando a gente dando o dedo pra câmera com Cancun atrás. E também porque passei a ter medo do escuro. Escalpei um coelho, outro dia. Lentamente, vermelho sujando o branco do pelo, o corpo pequeno se debatendo. Pavor naqueles olhos, Lia, eu vi tudo com paciência e enquanto ele me chutava os braços eu ia colocando mais força nas unhas e me arrepiava toda porque sentia que ali eu era Deus. Pânico de ser Ele. Acordei com as mãos cheirando a carne, e até hoje não saiu. Só vai sair quando eu parar de pensar no antes. Mas hoje eu sonhei que me lembrava. Eram cenas nossas que ousavam pingar belezas muito sólidas num cenário hediondo chamado mundo.

Era você com meus sapatos de vinil azul dançando qualquer coisa num bar onde ninguém dançava. Eu com meus martinis e cigarros interpretando Garbo para o garçom. E depois os caminhos vazios das madrugadas sob os nossos calcanhares trôpegos e muito próximos um do outro. Quero de volta, Lia, os teus calcanhares. Quero protegê-los de eventuais flechas, quero lançar-me sobre eles quando pressentir as rasteiras dos homens. Quero ouvir mais uma vez você me ensinando a sentir a música. Anna, as pessoas boas escutam Beethoven, você dizia, com aquele olhar perdido de quando verbalizava idiotices que se pretendiam grandes verdades reveladas em brilhantes sentenças. E eu pensava: os nazistas amavam a Nona, mas não falava em voz alta, só acenava com a cabeça e depois repousava no teu ombro, aprendendo a amar a música e assim, a ser boa também. Deixo a luz do banheiro acesa e começo a fingir que você está lá dentro. Assim, nós conversamos horas e horas e você me conta sobre coisas iluminadas que eu jamais suspeitei que existissem na Moldávia. Você me conta de idéias para possíveis telas e eu deliro dentro das tuas viagens. Improváveis metas, você sempre pensava que iria fazer algo e eu já sabia que nunca faria. Que nunca faríamos, Lia. Me conta os finais dos filmes que eu ainda não vi e quero tanto. Eu deixo. Espera eu dormir, Lia, e quando sair, vá com cuidado: dói demais escutar o barulho dos meus sapatos azuis indo embora com os teus pés dentro.

Imagem: Two Girls in Bed- Toulouse-Lautrec

Prumo

Sempre transitei por não saber direito como ficar parado. Agora, muito por causa das grandes indecisões e de uma porção de solidões bem garimpadas, encontrei todas as vias.
Vou-me. Viro o vulto ao teu vazio e vou-me. Silencioso, sem alardes, longe das vistas oblíquas, dos adeuses errados. Falsos abraços. Para algum lugar distante das palavras liquefeitas, dos vapores e das dissipações. Onde a verdade seja faca na pele: primeiro carne, depois osso. Uma assinatura indelével, que lembre por dor ou evocação a identidade entranhada de quando não éramos.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Cordão

Minha mãe parece que gosta de dizer a todo mundo, distante e vaga: é que tenho ouvido seletivo...

E foi assim que, pela vida, perdida em paisagens imaginárias, esquivou-se sempre de qualquer grito.

Mas nunca se fez surda a nenhum sussurro meu.

sábado, 24 de julho de 2010

Terceira Lei de Newton, Garrel, Uns Pára-Brisas



Ela puxou o zíper da mala num movimento rápido, de uma ponta a outra, fechando-a. Há treze meses atrás, ela puxou o zíper da mesma mala num movimento rápido, de uma ponta a outra, abrindo-a. Agora ele surge no apartamento vazio, segura o braço dela e diz com um tom de voz que há muito não usava: você não vai para lugar nenhum. Há trezentos e noventa e cinco dias atrás ele segurava o braço dela e usava o mesmo tom de voz para dizer: fica aqui pra sempre. Agora ela simplesmente se desvencilha e diz num tom de voz que ele nunca ouvira: eu vou sim. Há um ano, um mês e alguns dias atrás ela simplesmente desabava dentro do abraço dele e não conseguia dizer nada, mas o silêncio dela significava: fico. Agora ele está de braços cruzados dentro de um feixe de sol que atravessa o apartamento pela janela e a observa desaparecendo pela porta. Há anos-luz atrás, eles estavam abraçados dentro de um feixe de sol que atravessava o apartamento pela janela e observavam uma vida toda entrando pela mesma porta. Ainda sozinho, ele sussurra alguma coisa como: agora acabou. Ainda sozinha, ela respira alguma coisa como: agora começa.

Trilha: Virginia - Mutantes
Imagem: A Fronteira da Alvorada (La Frontière de L'Aube), Philippe Garrel

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Das Amizades Epistolares

Sinto, querida Emily, que em vista do cansaço as minhas cartas se tornarão escassas. Gostaria de te escrever tanto ainda, só que mais uma vez percebo a imensa fragilidade, a ineficiência das minhas palavras. Ainda fico triste em perceber que nada disto gerou frutos. Ainda aspirava compreensão profunda, queria pretensiosamente produzir algumas leituras daquilo que não está escrito. Quis uma reflexão aguda e não possuo meios de descobrir se ela foi feita. Assim sendo, recuso por hora os artifícios de uma comunicação embotada. Mesmo diante dos surdos, preciso me abster dos meus gritos. Eu vou engolir uma voz assombrosa que se precipita em espirais velozes pelas minhas cordas vocais. Sufocá-la ao máximo, selar os lábios, forçar passagem pelo estômago, até que ela seja devidamente digerida. Eu cansei, Emily, de assustar os pássaros. Só queria alimentá-los, nunca prendê-los comigo. Já fomos tão leves e somos agora tão pesados sobre a terra.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

There Was a Bird On That Clothesline Eagerly Wishing to Dry

Para M.



Uma ventania inesperada espalhou pelo quintal as minhas roupas. Saí do banho e me deparei com as cores formando composições junto ao sépia da grama morta. Primeiro achei bonito. Mas por um momento exasperei-me diante do trabalho recém-perdido. Recolher tudo, lavar de novo. A repetição me desgasta. Hesitei antes de iniciar o processo. O tempo me aprisionou numa redoma do olhar. Quem eu era não estava também repartido em mil cores diferentes sobre o sépia de morte dos esquecimentos alheios? Ah, eu vou me juntar. Vou me compor de novo.

Uma ventania assim espalhara as cinzas das cartas que M. acabara de lançar ao fogo em um apartamento perdido na Asa Norte. Essas cartas não podem ser recompostas. Há pedaços da gente que merecem um destino pírico. Outros merecem ser limpos numa aspersão de águas conjuradas. Imagino M. diante de uma centelha de palavras espocando sobre uma bacia de bronze. Os cabelos molhados, os olhos secando diante do fogo. Reflexos embaçados de cobre na última curva das saudades. Depois a leveza do silêncio lhe caiu sobre os ombros.

Eu, quando saí da redoma, o mesmo vento que espalhara as roupas me secara os cabelos. E o mundo tem mesmo alguma coisa de mágico quando a gente fica forte. Entrei para a casa trazendo nos braços um coração e um bom par de olhos, para usar quando me aprouver. Tratei de ir viver a vida, mas antes disso dei uma espiada pela janela: a grama toda já estava verde de novo.

Imagem: House Wren, With Clothes Line- Charley Harper, do livro Giant Golden Book of Biology
Trilha: Everything- Casey Dienel

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Morte à Allegra Geller!

Tempo para autocomiseração –não tenho mais. Tanta coisa ficou perdida, mas tanta coisa melhor assoma adiante. Não melhor. Mais esclarecida, mais exata na manifestação de sua existência. Efemeridades que fiquem para os livros e as telas. Passo uma tarde inteira procurando a luz adequada para a copa de uma árvore. O mesmo tempo para iluminar um pouco uma nuvem de tempestade. Depois liberto do verde denso uns balões coloridos que se perdem em gradações do cinza ao negro. Vão para não sei onde. Esse não sei onde é que não me interessa mais. O mesmo aconteceu com a fachada horrenda que me propus uma vez a depredar com o desenho mais feio do mundo. Pintaram tudo de branco. Um branco propício para os adormecimentos sobre a neve: isso é morte. E por ser morte é libertação. Nem as construções mais rígidas resistem. Quanto maior a solidez de uma alegria, maior a dor de viver depois uma perda; e as perdas, bem sabemos, se transformam em males tão efêmeros que causam escaras incuráveis, exatamente por serem invisíveis. A memória involuntária se encarrega de pingar gotas de meimendro nos ouvidos; o tempo passa e sua mão decrépita força passagem pela garganta de quem se lembra: o gosto de cianureto que algumas lembranças deixam.

Matar a memória é como decepar a cabeça de uma hidra: mil cabeças no lugar da decepada. Mas há um esforço incansável calcado na insistência do amor-próprio a forjar uma nova espada para cada hidra que berra e reverbera numa lembrança. Esse amor-próprio é o necessário para que eu escolha as realidades entre as quais desejo transitar. Podem me desligar das ilusões alçadas a felicidades utópicas e corruptoras de humanidades básicas. A idealização me levou a cometer dois ou três crimes, e só um deles não foi contra mim mesmo. Agora eu quero o palpável e o sentimento passível de identificação, ainda que seja uma cara esfolada no asfalto ou o nojo e o torpor diante de uma fotografia de Witkin. Na pretensa grandiosidade metafísica de certos sentimentos idealizados não cabem seres humanos. Não viajo mais para esses espaços. Uma cama vazia ou a prisão de um abraço já não mais me conduzem nem para o simulacro do amor, nem para o simulacro da solidão. Uma cama vazia é o azar de uma noite e uma cama dividida não significa exatamente a sorte de outra. Contato entre peles? É atrito. Todo o resto proveniente disto é ilusão ou objeto de arte. Ainda bem.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Improviso

Minhas mãos se erguem para abrir uma janela. Debruço-me só para fechar os olhos e alcançar ar puro. A claridade da rua vem em cinza, recortada pela noite. Meus cabelos recebem luz e dedos, sem forças para qualquer protesto. Depois de um tempo, eles gostam. São atores. Fingem que esses dedos não são meus.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Trajeto Inverso

Eu fui um velho precoce. Quando nasci minhas primeiras palavras foram: “minhas costas doem, tragam-me xerez e almofadas”. Depois fui rejuvenescendo. Um dia parei de reclamar do mundo e do governo, desisti das viagens em excursões, comecei a dormir mais tempo, deixei de repetir frases como “na minha época...” até que uma hora me apaixonei e escrevi cartas, tive arroubos de choro, proclamei eternidades. Hoje tenho medo de pesadelos e as pequenas coisas me interessam. Um pedaço de grama sob o sol é meu objeto de estudo. Ainda estou aprendendo os nomes das cores. Faço perguntas como “quantos anos tem Deus?” ou “falta muito tempo para chegarmos?”. Preocupo-me mais com minha fome ou minha sede e cultivo a amizade do meu cachorro. Um dia as mágoas serão breves, as dores lancinantes serão só físicas. Por ora, tenho vontade de dormir enrolando no dedo o cabelo de minha mãe.