sábado, 24 de julho de 2010

Terceira Lei de Newton, Garrel, Uns Pára-Brisas



Ela puxou o zíper da mala num movimento rápido, de uma ponta a outra, fechando-a. Há treze meses atrás, ela puxou o zíper da mesma mala num movimento rápido, de uma ponta a outra, abrindo-a. Agora ele surge no apartamento vazio, segura o braço dela e diz com um tom de voz que há muito não usava: você não vai para lugar nenhum. Há trezentos e noventa e cinco dias atrás ele segurava o braço dela e usava o mesmo tom de voz para dizer: fica aqui pra sempre. Agora ela simplesmente se desvencilha e diz num tom de voz que ele nunca ouvira: eu vou sim. Há um ano, um mês e alguns dias atrás ela simplesmente desabava dentro do abraço dele e não conseguia dizer nada, mas o silêncio dela significava: fico. Agora ele está de braços cruzados dentro de um feixe de sol que atravessa o apartamento pela janela e a observa desaparecendo pela porta. Há anos-luz atrás, eles estavam abraçados dentro de um feixe de sol que atravessava o apartamento pela janela e observavam uma vida toda entrando pela mesma porta. Ainda sozinho, ele sussurra alguma coisa como: agora acabou. Ainda sozinha, ela respira alguma coisa como: agora começa.

Trilha: Virginia - Mutantes
Imagem: A Fronteira da Alvorada (La Frontière de L'Aube), Philippe Garrel

Um comentário:

beto,,, disse...

gostei muito disso :)