quinta-feira, 15 de julho de 2010

There Was a Bird On That Clothesline Eagerly Wishing to Dry

Para M.



Uma ventania inesperada espalhou pelo quintal as minhas roupas. Saí do banho e me deparei com as cores formando composições junto ao sépia da grama morta. Primeiro achei bonito. Mas por um momento exasperei-me diante do trabalho recém-perdido. Recolher tudo, lavar de novo. A repetição me desgasta. Hesitei antes de iniciar o processo. O tempo me aprisionou numa redoma do olhar. Quem eu era não estava também repartido em mil cores diferentes sobre o sépia de morte dos esquecimentos alheios? Ah, eu vou me juntar. Vou me compor de novo.

Uma ventania assim espalhara as cinzas das cartas que M. acabara de lançar ao fogo em um apartamento perdido na Asa Norte. Essas cartas não podem ser recompostas. Há pedaços da gente que merecem um destino pírico. Outros merecem ser limpos numa aspersão de águas conjuradas. Imagino M. diante de uma centelha de palavras espocando sobre uma bacia de bronze. Os cabelos molhados, os olhos secando diante do fogo. Reflexos embaçados de cobre na última curva das saudades. Depois a leveza do silêncio lhe caiu sobre os ombros.

Eu, quando saí da redoma, o mesmo vento que espalhara as roupas me secara os cabelos. E o mundo tem mesmo alguma coisa de mágico quando a gente fica forte. Entrei para a casa trazendo nos braços um coração e um bom par de olhos, para usar quando me aprouver. Tratei de ir viver a vida, mas antes disso dei uma espiada pela janela: a grama toda já estava verde de novo.

Imagem: House Wren, With Clothes Line- Charley Harper, do livro Giant Golden Book of Biology
Trilha: Everything- Casey Dienel

Um comentário:

Liz Marinho disse...

Que lindo. Adoro as coisas que você escreve.