terça-feira, 31 de agosto de 2010

Um Café Para Julie



Uma vez Julie Vignon, debruçada sobre a mesinha de um café de esquina em algum lugar de Paris, mergulhou durante quatro segundos um torrão de açúcar numa xícara de café -a sutileza do sarcasmo mais triste da história: um pouco de doçura para amenizar o gosto da perda. Minutos depois, ao reconhecer as notas do Concerto Pela Unificação da Europa tocadas pela flauta de um mendigo, Julie Vignon lhe pergunta: você está bem?
A resposta:
-Precisamos nos agarrar a alguma coisa.
Isto tem me perseguido pela vida. Revisitei o azul um sem-fim de vezes. Mas ainda tenho medo do fade para o negro que se segue a ele. A liberdade presenteada pelo Acaso se lança onipresente uma vez que a ausência se revela irreversível. E é incrível como uma ausência se institui soberana numa casa vazia. É incrível como a gente se horroriza diante das coisas libertas. Da gente mesmo sem impedimentos de ser. Algum bicho solto sentindo falta do cativeiro. O pássaro que levava o prado nos olhos vai embora voando e mesmo a centenas de quilômetros, vislumbra agora a silhueta de uma gaiola.
Eu não sei de muitas coisas. Mas o cubo de açúcar que levou quatro segundos para tomar para si a cor do café não tornou o gosto que Julie Vignon sentia mais doce.

Imagem: A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu), de de Krzysztof Kieslowski
Trilha: Blue Moon Revisited- Cowboy Junkies

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Previsão


Andava hoje praguejando pela rua e umas cigarras tiveram premonições a meu respeito. Ou fui eu que quis ler algo de mágico no que está simplesmente fadado?
De qualquer forma, vou chover dentro de dois ou três dias e estou no aguardo.

Imagem: Musician in The Rain, Robert Doisneau- Paris, 1957

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Na Cidade de Dite

O casal absoluto se obrigou a ficar junto. Só por causa do pequeno. Quando o pequeno ficou grande e cometeu duas, três atrocidades, eles começaram a cogitar a liberdade. Não levou muito tempo. Um dia o filho morreu, e assim que a luneta social desviou o foco de suas figuras enlutadas, trataram de ir um pra cada lado, que nessa vida a gente tem que tentar ser feliz. Aquela morte foi o maior alívio do mundo. Disseram pra todos que se separariam de qualquer maneira. E cada um também reafirmou esta certeza para si mesmo, noite após noite, mas não pelo resto da vida. Três meses depois já estavam certos disso. Havia um alívio descomunal: cabeças de uma hidra se proliferando para cada cabeça decepada. A seu modo, foram felizes como puderam. Ele um dia se pegou fazendo esforço pra lembrar do nome do filho. Ela um dia esqueceu como eram os olhos. Uma vez lhe perguntaram: filhos? E ela de pronto disse: não. Assim que a negativa escorreu-lhe dos lábios foi como se um punhado de cianureto lambesse a borda do copinho de plástico. Desistiu da água com uma sensação que era maior e mais terrível que qualquer sede. A não-existência do outro de repente lhe conferia a manifestação de uma utopia recém-germinada: a liberdade era tão horrenda quanto o inferno mais dantesco e a plenitude era Deus habitando um útero vazio.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Je Sais...

Usava camisa xadrez, não gostava da cidade e pensava em fazer cinema. Mas não tinha certeza. Perguntou se eu sabia o que queria fazer da minha vida e eu disse que não. Mas eu sabia. Quis apertar a mão dele só pra ver como é que era e antecipei uma despedida. Em vez de me estender a mão ele me puxou para um abraço. Quando nos afastamos era como se eu tivesse saído de um abrigo seguro depois de muito tempo, pra constatar que o mundo lá fora não havia acabado. Falei o nome dele em voz alta porque queria guardar bem guardado. Jessé. Achei antiquado e charmoso. Era um dia de julho e em Brasília o frio da manhã resolvera atravessar uma tarde. Senti que nunca mais o veria e não vi.

sábado, 21 de agosto de 2010

Inquisição



Ela riscou um fósforo sobre uma pilha sépia de melancolias. Em poucos segundos um vermelho vivo conferiu àquele conteúdo recém-liberto de gavetas muito bem fechadas algo de pele. Grande parte disso encontrou o frio da noite ao fugir pela janela. O resto se retorceu como carne e depois de um tempo gritando, resignou-se na perenidade do silêncio. Quem olhava de fora as cinzas flanando através da luz dos postes pensava em mariposas dançando tontas até morrer. Ela olhou para a reprodução de Hopper e não teve coragem de atirá-la àquela pira de esquecimentos. Seu cabelo secara com a mesma velocidade que pequenas gotas de suor lembravam aos lábios um gosto de sal em cada coisa nesta vida.
Anos depois ela me deu este Hopper. Eu coloquei este Hopper na parede do meu quarto, acima da cama. Eu resignifiquei este Hopper e a história dele está impregnada de coisas que desconheço.
Quando olhei para cima, da rua vazia, do frio e da solidão, veio a estranheza de morte que sempre me perpassa o pescoço quando me chamam pelo nome e não há ninguém. Ali, mil mariposas desabaram de um quinto andar. Uma luz de luminária me dizia que ela ainda estava viva. Dobrei a esquina e voltei para casa com uma vontade de choro.

Imagem: Summer Evening- Edward Hopper, óleo sobre tela, 30 x 42 inches, 1947

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

After The Three Beggars



Dobrei a via estreita dos desenganos.
A perder de vista minha sombra crescia sob a sombra dos anos que perdi.
Diante de mim o mato se erguia altivo, a impedir passagem.
E embora o orvalho chorasse complacente,
Dei às costas em respeito ao que não me cabe.
A cidade lá embaixo clamava por alguma coisa boa
E para dizer isso enchia d'água seus milhões de olhos vazados.
Era tanto brilho que parecia a madrugada refletida num rio.
Sofrimento, Dor, Desespero: não existem estrelas com esses nomes.
Mas quando olhei para cima, havia centenas de constelações salpicadas de saudades.
Tantas que a gente até perdia o fôlego.
Baixei a cabeça e inventei meu rumo.

Trilha: Roses & Hips- Keren Ann, do álbum Nolita
Imagem: So Absurd, So Fantastic- Delphine Courtillot, guache sobre papel, 140 x 100 cm, 2006.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Décadence Renaissant

Do alto de seus sapatinhos delicados, revestidos de seda e madrepérola, Marie reverbera um ressonar de tule e rendas sob as saias a cada vez que seu peito arfa dentro do espartilho, como se mil borboletas tivessem um infarto sincronizado. Sobre este colo agonizante, rubis e diamantes, turmalinas, safiras e topázios encontram repousante morada, ao passo que tremeluzem nos cristais e se projetam como arco-íris sobre os assoalhos luzentes do Zuu. Aliado à eles, um pesado crucifixo de ouro transparece seus muitos predicados católicos. A peruca aloja-se à pequena cabeça encalacrada de tanto borrifar essências de lavanda e bergamota, a fim de intimidar a audácia de piolhos e baratas. À mão direita, um bastonete folheado a bronze traz alados torsos de querubins emoldurando a graciosidade sacra de um pequenino globo de esmeralda. À mão esquerda, um cosmopolitan. A idade de madame é um enigma indecifrável perdido na maquiagem, mas não há em toda a corte, das QI's e QL's da Park Avenue brasiliense às embaixadas, viva alma que não saiba pronunciar de cor os seus dezoito nomes.
Mil mariposas mais roçam asas para morrer sob o decote, enquanto a cabeça dá à luz mil novas proles de muquiranas. Marie está impassível recortada pela luz dos vitrais, mas suas tragédias sufocadas já não podem se abster de irromper pelo salão. A boca pintada de vermelho começa a se mover em meio à massa corrida de óleo de amêndoas, talco e clara de ovo, e a voz é o engasgo de uma gralha empalada:

Je n'ai rien!!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Recanto Idílico Para Depois de Amanhã



Não tínhamos nada para colocar naquela parede. Ele disse: alguma coisa colorida pra iluminar a sala. Pensei em pintar uma tela, ou pedir a Débora que pintasse uma.

Daí, recém-saídos de um insight, quebramos juntos um retângulo de tijolos e ficamos parados recebendo o vento. Adiante assomavam morros, telhados de casa escorrendo sol, o sol, ele próprio recortando nuvens. Quando tem azul demais, a gente espera a noite. Pra quando não tem estrelas, tratei de pendurar um móbile.

Em finais de tarde, a luz vaporosa nos fala de coisas voláteis que só vão embora se pretendem voltar, e é dessas que mais gostamos. Às 17:45 o sol bate tímido na altura dos olhos e os meus, castanhos, ficam verdes. O ombro dele, pele, vira luminosidade láctea e é o perfeito encaixe para a minha cabeça.

Azul cerúleo, rosa, bronze, cobre, depois silhuetas que se misturam a um escuro morno. O que nos gritava sufoco antes, agora sussurra: contempla. E já não falta mais nada.

Imagem: Orange Sunshine - Peter Doig. óleo sobr tela, 1995 (276 x 201cm)
Trilha: Drake, Beth Gibbons

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Voragem



Ele, quando se reclina sobre superfícies turvas
Reflete oquidões aprisionadas na densidade das coisas mais puras.
Águas que se sujam de humanidades
Já não servem para matar a sede.
Para lavar calçadas, quem sabe,
Reflexos enodoados e rasuras.
Sem sequer ousar limpar o passo que parte
Sem sequer ser poça sob um sol que arde e arde,
A lágrima que tilinta a imagem dele é simplesmente alarde.
Porque o choro inócuo não verte mais de olhos de mulher,
De homem, ou criança.
Mas alguns bichos ainda sabem chorar com sinceridade,
Enquanto o homem esqueceu que o choro amansa.
O crocodilo, ou o camelo. A coruja que durante as noites vislumbra as tardes.
Ou ainda uma raposa cativada a projetar sua sombra
Sobre a cor de trigo do definitivo nas ausências.
Já a minha sombra picha casas, depreda construções de qualquer porte
Sem se preocupar com a sorte das existências que ali residem,
Ou simplesmente por ali passam,
Ao passo que o meu toque deita morte sobre vigorosas vegetações
Oposto efeito sobre os corpos mortos dos meus semelhantes:
Brotam vidas nefastas e por toda a parte ressurreições de amantes
Trazem de volta os antigos prazeres das dores de sempre
Reavivando a comiseração de antes:
Estamos infestados de egoísmo, amor-próprio exacerbado
E uma fé bem trabalhada nas descrenças mais variadas.
Minha palavra, por fim, envenena o ouvido mais fechado,
E distorce quaisquer verdades bem cultivadas.
Quando silencia é como um gás que deixa lastro.
Rastro do horror cósmico que se iniciou um triste dia na solidão do quarto:
A minha cara aberta –verdadeira face a gargalhar no espelho do escuro vasto.

Imagem: Reflection (What Does Your Soul Look Like) - Peter Doig, óleo sobre tela (274.4 x 200.4), 1996