segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Décadence Renaissant

Do alto de seus sapatinhos delicados, revestidos de seda e madrepérola, Marie reverbera um ressonar de tule e rendas sob as saias a cada vez que seu peito arfa dentro do espartilho, como se mil borboletas tivessem um infarto sincronizado. Sobre este colo agonizante, rubis e diamantes, turmalinas, safiras e topázios encontram repousante morada, ao passo que tremeluzem nos cristais e se projetam como arco-íris sobre os assoalhos luzentes do Zuu. Aliado à eles, um pesado crucifixo de ouro transparece seus muitos predicados católicos. A peruca aloja-se à pequena cabeça encalacrada de tanto borrifar essências de lavanda e bergamota, a fim de intimidar a audácia de piolhos e baratas. À mão direita, um bastonete folheado a bronze traz alados torsos de querubins emoldurando a graciosidade sacra de um pequenino globo de esmeralda. À mão esquerda, um cosmopolitan. A idade de madame é um enigma indecifrável perdido na maquiagem, mas não há em toda a corte, das QI's e QL's da Park Avenue brasiliense às embaixadas, viva alma que não saiba pronunciar de cor os seus dezoito nomes.
Mil mariposas mais roçam asas para morrer sob o decote, enquanto a cabeça dá à luz mil novas proles de muquiranas. Marie está impassível recortada pela luz dos vitrais, mas suas tragédias sufocadas já não podem se abster de irromper pelo salão. A boca pintada de vermelho começa a se mover em meio à massa corrida de óleo de amêndoas, talco e clara de ovo, e a voz é o engasgo de uma gralha empalada:

Je n'ai rien!!

2 comentários:

Anna K. Lacerda disse...

se eu me encontrasse com madama não haveria catedral nem ermida. haveria um rato a se arrastar em sua arrastão.

beijo menino léo, ak.

* saudade de escrever prosa

Carmem Maria disse...

1/3 ácido,1/3 extravagente, 1/3 humorado.
'Le collier de la reine' encarnado por uma matrona cônjuge de deputado federal!