sábado, 21 de agosto de 2010

Inquisição



Ela riscou um fósforo sobre uma pilha sépia de melancolias. Em poucos segundos um vermelho vivo conferiu àquele conteúdo recém-liberto de gavetas muito bem fechadas algo de pele. Grande parte disso encontrou o frio da noite ao fugir pela janela. O resto se retorceu como carne e depois de um tempo gritando, resignou-se na perenidade do silêncio. Quem olhava de fora as cinzas flanando através da luz dos postes pensava em mariposas dançando tontas até morrer. Ela olhou para a reprodução de Hopper e não teve coragem de atirá-la àquela pira de esquecimentos. Seu cabelo secara com a mesma velocidade que pequenas gotas de suor lembravam aos lábios um gosto de sal em cada coisa nesta vida.
Anos depois ela me deu este Hopper. Eu coloquei este Hopper na parede do meu quarto, acima da cama. Eu resignifiquei este Hopper e a história dele está impregnada de coisas que desconheço.
Quando olhei para cima, da rua vazia, do frio e da solidão, veio a estranheza de morte que sempre me perpassa o pescoço quando me chamam pelo nome e não há ninguém. Ali, mil mariposas desabaram de um quinto andar. Uma luz de luminária me dizia que ela ainda estava viva. Dobrei a esquina e voltei para casa com uma vontade de choro.

Imagem: Summer Evening- Edward Hopper, óleo sobre tela, 30 x 42 inches, 1947

Um comentário:

beto,,, disse...

porra léo, que bonito. me liguei especialmente na imagem das mariposas.

sem tirar o hopper fodidão da reta, claro. e mil outras coisas, que curvas.