quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Na Cidade de Dite

O casal absoluto se obrigou a ficar junto. Só por causa do pequeno. Quando o pequeno ficou grande e cometeu duas, três atrocidades, eles começaram a cogitar a liberdade. Não levou muito tempo. Um dia o filho morreu, e assim que a luneta social desviou o foco de suas figuras enlutadas, trataram de ir um pra cada lado, que nessa vida a gente tem que tentar ser feliz. Aquela morte foi o maior alívio do mundo. Disseram pra todos que se separariam de qualquer maneira. E cada um também reafirmou esta certeza para si mesmo, noite após noite, mas não pelo resto da vida. Três meses depois já estavam certos disso. Havia um alívio descomunal: cabeças de uma hidra se proliferando para cada cabeça decepada. A seu modo, foram felizes como puderam. Ele um dia se pegou fazendo esforço pra lembrar do nome do filho. Ela um dia esqueceu como eram os olhos. Uma vez lhe perguntaram: filhos? E ela de pronto disse: não. Assim que a negativa escorreu-lhe dos lábios foi como se um punhado de cianureto lambesse a borda do copinho de plástico. Desistiu da água com uma sensação que era maior e mais terrível que qualquer sede. A não-existência do outro de repente lhe conferia a manifestação de uma utopia recém-germinada: a liberdade era tão horrenda quanto o inferno mais dantesco e a plenitude era Deus habitando um útero vazio.

2 comentários:

beto,,, disse...

nossa, léo... NOSSA!

Kauana Maria disse...

Desculpe a palavra, mas... QUE TEXTO FODA!