terça-feira, 31 de agosto de 2010

Um Café Para Julie



Uma vez Julie Vignon, debruçada sobre a mesinha de um café de esquina em algum lugar de Paris, mergulhou durante quatro segundos um torrão de açúcar numa xícara de café -a sutileza do sarcasmo mais triste da história: um pouco de doçura para amenizar o gosto da perda. Minutos depois, ao reconhecer as notas do Concerto Pela Unificação da Europa tocadas pela flauta de um mendigo, Julie Vignon lhe pergunta: você está bem?
A resposta:
-Precisamos nos agarrar a alguma coisa.
Isto tem me perseguido pela vida. Revisitei o azul um sem-fim de vezes. Mas ainda tenho medo do fade para o negro que se segue a ele. A liberdade presenteada pelo Acaso se lança onipresente uma vez que a ausência se revela irreversível. E é incrível como uma ausência se institui soberana numa casa vazia. É incrível como a gente se horroriza diante das coisas libertas. Da gente mesmo sem impedimentos de ser. Algum bicho solto sentindo falta do cativeiro. O pássaro que levava o prado nos olhos vai embora voando e mesmo a centenas de quilômetros, vislumbra agora a silhueta de uma gaiola.
Eu não sei de muitas coisas. Mas o cubo de açúcar que levou quatro segundos para tomar para si a cor do café não tornou o gosto que Julie Vignon sentia mais doce.

Imagem: A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu), de de Krzysztof Kieslowski
Trilha: Blue Moon Revisited- Cowboy Junkies

4 comentários:

Anna K. disse...

Hoje ouvi de uma amiga: eu posso me acostumar com a ausência dele.
Logo pensei: que triste!

Vou providenciar um torrão de açúcar a ela.

Khalimak disse...

o maiúsculo do Acaso empresta (paradoxalmente!) a inevitabilidade de um Destino condicionável; assim também a leveza e insustentabilidade inerentes (e fatídicas) da Liberdade. mutualmente includentes(!)
evoca Shrödinger.

Léo Tavares disse...

interessante, Khalimak. eu tentei incorporar essa questão do gato de Schödinger, ainda que de forma indireta e pouco desenvolvida, claro, no texto "Na Cidade de Dite." Mas acredito que esta evocação esteja presente em grande parte dos meus textos porque ela me é de interesse vital. Nesse sentido, o "registro de ausências" a que me proponho nada mais é do que um registro de presenças, e por aí vai. A questão do peso e da leveza é essencial, e o caso com letra maiúscula se transformou num hábito desde o dia em que eu percebi que se para as minhas questões maiores era impossível negar Deus, então ao menos eu poderia conferir a ele uma outra forma, e essa forma é o Acaso que se configura como presença quântica.
Enfim, that's it.

Léo Tavares disse...

*schrödinger