segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Voragem



Ele, quando se reclina sobre superfícies turvas
Reflete oquidões aprisionadas na densidade das coisas mais puras.
Águas que se sujam de humanidades
Já não servem para matar a sede.
Para lavar calçadas, quem sabe,
Reflexos enodoados e rasuras.
Sem sequer ousar limpar o passo que parte
Sem sequer ser poça sob um sol que arde e arde,
A lágrima que tilinta a imagem dele é simplesmente alarde.
Porque o choro inócuo não verte mais de olhos de mulher,
De homem, ou criança.
Mas alguns bichos ainda sabem chorar com sinceridade,
Enquanto o homem esqueceu que o choro amansa.
O crocodilo, ou o camelo. A coruja que durante as noites vislumbra as tardes.
Ou ainda uma raposa cativada a projetar sua sombra
Sobre a cor de trigo do definitivo nas ausências.
Já a minha sombra picha casas, depreda construções de qualquer porte
Sem se preocupar com a sorte das existências que ali residem,
Ou simplesmente por ali passam,
Ao passo que o meu toque deita morte sobre vigorosas vegetações
Oposto efeito sobre os corpos mortos dos meus semelhantes:
Brotam vidas nefastas e por toda a parte ressurreições de amantes
Trazem de volta os antigos prazeres das dores de sempre
Reavivando a comiseração de antes:
Estamos infestados de egoísmo, amor-próprio exacerbado
E uma fé bem trabalhada nas descrenças mais variadas.
Minha palavra, por fim, envenena o ouvido mais fechado,
E distorce quaisquer verdades bem cultivadas.
Quando silencia é como um gás que deixa lastro.
Rastro do horror cósmico que se iniciou um triste dia na solidão do quarto:
A minha cara aberta –verdadeira face a gargalhar no espelho do escuro vasto.

Imagem: Reflection (What Does Your Soul Look Like) - Peter Doig, óleo sobre tela (274.4 x 200.4), 1996

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