terça-feira, 28 de setembro de 2010

Indução

puxar o amor a fórceps
escutar o grito
jogar no lixo,
sem culpa e sem batismo.
monstros nascem todos os dias.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Borboletas, Ipês e Umidificadores de Ar




Hoje é um dia lindo. Primeiro dia de primavera. A cidade está seca como nunca esteve. Sim, pode tirar dois sentidos disso. Seca de falta de umidade. E seca de tantas outras sedes metafóricas. Não vale a pena citá-las. Use sua imaginação aqui. Mas tome cuidado para o cérebro não trabalhar demais. Seu nariz pode sangrar e você pode ficar pessimista. Aí, toda aquela parafernália fegshuística que você colocou no quarto não vai servir pra nada. Vai ser energia liberta que nem centro espírita resolve.

Mas lembre que eu comecei bem. "O dia está lindo." Continuemos ensolarados. O dia está lindo e daqui da minha janela eu vi uma borboleta sobrevoando o telhado. Tinha um certo lilás na asa dela que eu queria muito para os meus desenhos. Um lilás que a acrilex não fabrica e que eu ainda não aprendi a fazer do azul e do branco. Nem do azul e do vermelho. Fiquei olhando a borboleta tilitando pelas telhas, brilhando sob o sol de um jeito que me pareceu tão ciente da própria beleza, que eu pensei: é onipotente! E eu ali, querendo o lilás dela. Me perdi numa fração de segundo com a imagem da cor no pensamento. Quando retomei o olhar, ela tinha sumido. Fixei o olho, pra ter certeza. Um calango desenvolto passeava pelo telhado. Não sobrara nada do lilás. Da borboleta, só uma antena que o calango rapidamente sorveu como se fosse um fio de macarrão.

... Perdão. Se serve de consolo, a borboleta não poderia ter outro destino, já que borboletas vivem muito pouco. Você poderia argumentar que em vez de virar almoço de calango, a pobre borboletinha poderia ter morrido de velhice aos seis meses de idade repousando sobre um girassol depois de ter sorvido seu pólen à exaustão. Mas pense, por outro lado, na felicidade do calango.

Pense também que é primavera, primeiro dia de primavera. A cidade está cheia de ipês floridos e não seria uma má idéia você ir às duas da tarde até o Eixo Monumental apreciar as árvores. Agora, se o passeio for inviável por causa do trabalho, joga no google images "ipês brasília eixão" e coloca no seu computador como protetor de tela.

Ah, sim, a cidade está seca como nunca esteve, não esqueçamos. Nesse caso, se você não tiver comprado um umidificador de ar, vale à pena molhar umas toalhas e pendurar nas janelas. E caso o síndico do seu condomínio venha a lhe lembrar que você não mora em cortiço e queira lhe multar por poluição visual, a solução mais prática necessita de apenas dois ítens: 1 copo d'água e um cotonete. O primeiro passo é mergulhar o cotonete no copo d'água. O segundo passo é enfiar o cotonete no seu nariz. Siga esse procedimento de dez em dez minutos, ou nos intervalos da Márcia. Importante: quando ela disser que a promoção da TekPix só é válida para quem ligar nesse exato momento, não acredite. Eles aumentam o preço de mercado primeiro pra você acreditar que está adquirindo o produto mais barato, quando na verdade está comprando pelo preço de mercado.

Nesse momento você recebeu um conselho valioso e conselho valioso é motivo para sorriso e otimismo, disse o Osho... Não disse, mas poderia ter dito.

Pois bem. A quase inexistência de umidade e o episódio da borboleta assassinada ficaram para trás. Dá para respirar com alívio agora. Sim, pode tirar dois sentidos disso: respirar com alívio porque a vida é bela de novo, ou respirar com alívio porque as suas cavidades nasais estão devidamente umedecidas.

No fim das contas, é um bom dia. Ipê florido no computador já é um adianto para o feng shui. Um calango feliz passeia saciado por telhados e muros, e uma borboleta lilás-que-a-acrilex-não-fabrica foi encontrar Jesus. Seu nariz não sangrou até o presente momento e você pode adquirir sua TekPix em qualquer hora que telefonar e pagar as treze parcelas sem sofrer pressão da Márcia. Você aprendeu métodos umidificantes - eu diria, edificantes- e como mencionei lá atrás, continuemos ensolarados. Desesperados por chuva, uns três dias dela. Uma boa tempestade, na verdade.

Enfim, é o primeiro dia de primavera. A cidade está seca como nunca esteve. Sim, de secas metafóricas também. Mas é melhor não tocarmos nisso.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Gula

só saciando minha fome de verso,
é que me provas que és reverso
do mau-moço.
baudelaire para o jantar
maiakovski para o almoço.


(se sobrar espaço na mesa,
adélia de sobremesa)

Setembrizado

Sobrou tanto
Ninguém comprou nada.
Resto de sonho
no estoque,
Quitanda fechada.
Só tô esperando a chuva
pra limpar a calçada
pro primeiro freguês
de amanhã.
Eu vou lavar o mês de mim.
E que essa água, meu pai
não seja vã.
Setembro tem fim,
Graças a Deus.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

"The End" (Aplausos)



Imagens: Cenas da apresentação de marionetes do filme A Dupla Vida de Véronique (La Double Vie de Véronique, 1991), de Krzysztof Kieslowski

Through

Aquele sol foi tão enganador que me tornou cego exatamente quando eu julgara tê-lo visto com um olhar cuidadoso que não tinha antes. Cuidadoso precipitou-me uma sentença: cuidado, rapaz; as eternidades são muito mais breves do que desejamos. Foi de eternidade em eternidade que me deparei com o não-estar das coisas. Agora, no lugar de estar amando, escolhi um ser amoroso. Para o que não é pele, apenas. Toda vez que os meus olhos se debruçaram em adoração sobre qualquer corpo, mais o meu próprio conhecia o vazio inconsolável. Eu olhava a pobreza do encontro físico e depois só me restavam trapos a me segurar no abismo. Mas uma vez olhei um pensamento e fiquei repleto. Não me faltava nada ali: ver por dentro o que ninguém mais vira era amor, então passei a amar as fugacidades: lembrança de uma voz, a vontade do olhar, um riso que era pra mim. As coisas incorpóreas não possuem vazio.

domingo, 19 de setembro de 2010

Like Cabiria Leaving



depois do choro, volta o riso
com a música do fim.
se a gente dança,
é porque a esperança,
vem tocando bandolim.

Imagem: Giulietta Masina em Noites de Cabíria (Le Notti di Cabiria, 1957), de Federico Fellini

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Elemental

Para T.


O menino tem dias que sonha com a chuva,
mas ele gosta mesmo é da seca.
Compreensível: o que ele ama é um vislumbrar eterno,
é a iminência das coisas.
A morte, a carta, a água, o filho.
O há de chegar ainda: é esse o seu desejo.
Esse menino abre a janela de noite,
Vestido apenas de poesia e estrela.
Namora a lua mas também tem caso com o sol.
"o meu cabelo já é de prata?"
-a velhice é promessa de luz invadindo o corpo, que é a casa.
O menino está em fase de transição, dizem os astros.
Mas é desde que nasceu, arrisco.
Estar em eterna transição é transar um tântrico com o tempo.
Isso ele tem feito.
Esse menino fica de pau duro até por causa do vento.

Imagem: The Boy- Jan Saudek, 1999

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Insônia (Dos Justos)

eu quero um sono à beira.
(lago, rio, ombro, estrela. despenhadeiro, abismo, escuridão, teu corpo, clareira)
eu quero um sono que me queira.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Catherine Deneuve

Acercar-se dele era como conseguir ingresso para o filme mais badalado do festival mais badalado da cidade. A gente se perguntava como seria, uma vez platéia, uma vez acomodado entre tantos outros estranhos, um apagar de luzes que diminuiria a espera para revelar o encanto, a comunhão silenciosa, aquele compartilhamento feito projeção. Assistir ao desenrolar daquele moço em gesto e voz, em luz e cor, o seu corpo estático ou em movimento, ser eleito entre aplausos um especialista naquele moço. Escrevi ensaios, dediquei teses a ele. Jamais suspeitei que encontrá-lo fosse como ver um filme ruim com a Catherine Deneuve. Lá pelos trinta minutos, você percebe a direção canhestra, a pobreza do roteiro. Mas é um filme com Catherine Deneuve, então você quer assisti-lo até o final. Depois da sessão, aquele gosto de ter perdido alguma coisa muito boa que na verdade nunca existiu. Ali, naquele moço, foi o verbo quem matou a poesia. Só os olhos tinham alguma coisa de mágico. Só olhos eram cinema puro, mas deveria ter sido mudo pra sempre para que se percebesse uma alma em eterno estado de graça. Só em silêncio é que ele era cinema. Carlitos indo embora numa estrada de terra. Expressionismo alemão, Nosferatu assomando sua sombra sobre a nossa cama. Se só o cinema salva, só os olhos é que eram cinema. O resto não interessa.
Aqueles olhos eram a Catherine Deneuve dele.

domingo, 12 de setembro de 2010

Iniciação

A gente gostava de passar as tardes na casa do meu avô. Quando era inverno eu ia pro quintal ficar procurando os espaços no chão onde o sol batia mais largo, peneirado pelas folhas da parreira. Achava bonito ficar olhando aqueles recortes de sombra. Algumas folhas secavam e caíam e então eu escolhia as maiores para levar pra dentro e jogar na lareira. Lá para as cinco horas o meu avô trazia a lenha e eu me arrumava atrás dele, todo encurvado, as mãos juntas entre os joelhos, pronto pra sentir o calor do fogo no rosto, com olhos e ouvidos aguçados, porque gostava de escutar o crepitar da folha se desmanchando pra virar cinza, e porque cada vez que eu lançava um punhado delas, a cor do fogo se avivava.

Foi numa dessas tardes, ocupando o meu posto diante da lareira, com meu punhado de folhas secas e o rosto muito vermelho pela proximidade do fogo, que eu levantei os olhos num momento raro de distração e fiquei paralisado diante de um Jesus cujo olhar zeloso pela humanidade parecia fixar-se em minha direção. Mas eu não soube distinguir uma expressão de complacência nos olhos azuis daquele Cristo pintado. O que queria dizer estou olhando por vocês para mim significava: estou à espreita. Senti-me incomodado porque era como se um estranho tivesse adentrado a sala para me pôr medo. Ele poderia me atacar a qualquer momento. Afastei-me do fogo, fui até a porta. Saí de dentro da casa e fiz a volta pela varanda. Pela janela ele também me olhava. Tinha um manto azul claro sobre os ombros, e os cabelos eram dourados. Mais tarde o reconheci no Drácula de Coppola. Aquele Jesus era Gary Oldman aparecendo em Londres para reencontrar Winona Ryder. Ambos haviam sido sentenciados e condenados às agonias físicas mais terríveis, até a hora de sua morte: um por empalamento, outro por crucificação. Um pelas mãos dos fiéis, outro pelos infiéis. Mas Jesus eu temia mais porque me disseram a vida toda que existia. E se ele tivesse mesmo aquele olhar do quadro na casa do meu avô, eu certamente não gostaria de encontrá-lo.

Minha infância teve tardes de sábado pavorosas em que a minha irmã me chamava para assistir filmes de terror. Eu não podia recusar. Reconhecia a vergonha do medo pelas coisas que não existem e não queria demonstrar covardia. Olhava para minha irmã de canto de olho –para ver se ela me observava enquanto eu escondia o rosto com as mãos nas cenas mais terríveis. Eu nunca via as piores partes, mas sabia que nessas noites o sono seria perigoso, na iminência dos pesadelos. Foi de tanto ter pesadelos que acabei me acostumando com as imagens mais sinistras e aos poucos, escondia o rosto cada vez menos.

Aos oito anos, já encarava de frente o Jesus na casa do meu avô, e por longos minutos. Vi que o que tinha de crueldade nele era exatamente o nosso sentimento de culpa. Diziam-nos que ele morrera pela gente. Como olhá-lo nos olhos, então? Eu queria dizimar numa inquisição de brinquedo um punhado de folhas secas, e naquela tarde reconheci no olhar dele um crime que eu nem suspeitava ter cometido. A primeira vez que aprofundei minha relação com as imagens foi através do medo e da culpa. Também foi a primeira vez que me revoltei, sem sequer saber o que era isso. Logicamente, àquela idade eu também não poderia suspeitar o que significa ser uma pessoa teofóbica. Mas foi através de Jesus que tive medo de Deus. Dele e de seu séquito de santos retratados em martírio ou sublimação epifânica.

Certa vez fui com minha mãe visitar alguém que tinha em casa uma verdadeira galeria de personagens católicos: anjos e santos pendiam de paredes descascadas pintadas de bege, que era a cor do hospital, da igreja, das capelas mortuárias e de todas as coisas amedrontadoras ou tristes construídas na minha cidade. Mas lembro de ter voltado toda a minha atenção para aquela mulher que trazia uma roda com serras de ferro. Perguntei quem era e me disseram que era Santa Catarina de Alexandria. Mais tarde me contaram que a roda fora um instrumento de tortura imposto por um imperador romano; que ela aos dezoito anos vencera com argumentos os cinqüenta maiores sábios do mundo, e que quando morrera, no lugar de sangue, saíra leite. Nunca me interessei por questionar a veracidade desses fatos. A história me deixara embevecido no sentido mais místico que pode existir. Foi uma primeira sensação de enlevo erguendo meu corpo e levando a minha imaginação para longe da terra e de todas as pessoas. Mas não para um lugar de fé, eu sabia. Era um mundo de coisas indizíveis, inexplicáveis, muito mais rico do que qualquer mundo que eu já visitara no sono ou quando lançava ao fogo pequenas coisas mortas. Literatura, ficção, conto. Quando me contaram a história de Catarina de Alexandria pela primeira vez, eu tive sim, um verdadeiro arrebatamento. Não conseguia explicá-lo, a quem perguntasse. Eu disse à minha mãe: virei fã de Santa Catarina!. Em tempos mais antigos, me diriam ser este um êxtase católico, e talvez me levassem a seguir uma vida religiosa porque reconheceriam nisto uma espécie de chamamento. E foi. Não é à toa que hoje escrevo.

domingo, 5 de setembro de 2010

Ainda Que Exista Num Canto Uma Vitrola Tocando Blue Moon Para Todo o Sempre, Coração

Cruzo as mãos sobre o meu próprio peito. Pressão e calor. É como se eu quisesse entrar, forçar passagem.Tanta coisa aqui dentro relegada ao desuso e às réstias de luz que eu deixo entrar quando abro os olhos. Um depósito esquecido com seus baús e caixas e brinquedos velhos e roupas antiquadas de avós e tias.
Houve um tempo em que eu permitia que vasculhassem tudo à procura de algo que lhes aprouvesse. Nunca encontraram nada. Então um dia atirei as chaves fora. Quem agora quiser porventura desenterrar tesouros, descobrir relíquias entre poeiras e trapos –ainda que seja para voltar sem nada, ainda que exista num canto uma vitrola tocando Blue Moon para todo o sempre- que seja a força. Há muito cansei da delicadeza das declinações, da cordialidade nas desistências. Eu quero mesmo a chegada impetuosa que me soe como um susto. A beleza das devastações irreversíveis hipnotizando o olhar. Um pássaro preso num armário de guardar cristais.