domingo, 5 de setembro de 2010

Ainda Que Exista Num Canto Uma Vitrola Tocando Blue Moon Para Todo o Sempre, Coração

Cruzo as mãos sobre o meu próprio peito. Pressão e calor. É como se eu quisesse entrar, forçar passagem.Tanta coisa aqui dentro relegada ao desuso e às réstias de luz que eu deixo entrar quando abro os olhos. Um depósito esquecido com seus baús e caixas e brinquedos velhos e roupas antiquadas de avós e tias.
Houve um tempo em que eu permitia que vasculhassem tudo à procura de algo que lhes aprouvesse. Nunca encontraram nada. Então um dia atirei as chaves fora. Quem agora quiser porventura desenterrar tesouros, descobrir relíquias entre poeiras e trapos –ainda que seja para voltar sem nada, ainda que exista num canto uma vitrola tocando Blue Moon para todo o sempre- que seja a força. Há muito cansei da delicadeza das declinações, da cordialidade nas desistências. Eu quero mesmo a chegada impetuosa que me soe como um susto. A beleza das devastações irreversíveis hipnotizando o olhar. Um pássaro preso num armário de guardar cristais.

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