segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Catherine Deneuve

Acercar-se dele era como conseguir ingresso para o filme mais badalado do festival mais badalado da cidade. A gente se perguntava como seria, uma vez platéia, uma vez acomodado entre tantos outros estranhos, um apagar de luzes que diminuiria a espera para revelar o encanto, a comunhão silenciosa, aquele compartilhamento feito projeção. Assistir ao desenrolar daquele moço em gesto e voz, em luz e cor, o seu corpo estático ou em movimento, ser eleito entre aplausos um especialista naquele moço. Escrevi ensaios, dediquei teses a ele. Jamais suspeitei que encontrá-lo fosse como ver um filme ruim com a Catherine Deneuve. Lá pelos trinta minutos, você percebe a direção canhestra, a pobreza do roteiro. Mas é um filme com Catherine Deneuve, então você quer assisti-lo até o final. Depois da sessão, aquele gosto de ter perdido alguma coisa muito boa que na verdade nunca existiu. Ali, naquele moço, foi o verbo quem matou a poesia. Só os olhos tinham alguma coisa de mágico. Só olhos eram cinema puro, mas deveria ter sido mudo pra sempre para que se percebesse uma alma em eterno estado de graça. Só em silêncio é que ele era cinema. Carlitos indo embora numa estrada de terra. Expressionismo alemão, Nosferatu assomando sua sombra sobre a nossa cama. Se só o cinema salva, só os olhos é que eram cinema. O resto não interessa.
Aqueles olhos eram a Catherine Deneuve dele.

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