domingo, 12 de setembro de 2010

Iniciação

A gente gostava de passar as tardes na casa do meu avô. Quando era inverno eu ia pro quintal ficar procurando os espaços no chão onde o sol batia mais largo, peneirado pelas folhas da parreira. Achava bonito ficar olhando aqueles recortes de sombra. Algumas folhas secavam e caíam e então eu escolhia as maiores para levar pra dentro e jogar na lareira. Lá para as cinco horas o meu avô trazia a lenha e eu me arrumava atrás dele, todo encurvado, as mãos juntas entre os joelhos, pronto pra sentir o calor do fogo no rosto, com olhos e ouvidos aguçados, porque gostava de escutar o crepitar da folha se desmanchando pra virar cinza, e porque cada vez que eu lançava um punhado delas, a cor do fogo se avivava.

Foi numa dessas tardes, ocupando o meu posto diante da lareira, com meu punhado de folhas secas e o rosto muito vermelho pela proximidade do fogo, que eu levantei os olhos num momento raro de distração e fiquei paralisado diante de um Jesus cujo olhar zeloso pela humanidade parecia fixar-se em minha direção. Mas eu não soube distinguir uma expressão de complacência nos olhos azuis daquele Cristo pintado. O que queria dizer estou olhando por vocês para mim significava: estou à espreita. Senti-me incomodado porque era como se um estranho tivesse adentrado a sala para me pôr medo. Ele poderia me atacar a qualquer momento. Afastei-me do fogo, fui até a porta. Saí de dentro da casa e fiz a volta pela varanda. Pela janela ele também me olhava. Tinha um manto azul claro sobre os ombros, e os cabelos eram dourados. Mais tarde o reconheci no Drácula de Coppola. Aquele Jesus era Gary Oldman aparecendo em Londres para reencontrar Winona Ryder. Ambos haviam sido sentenciados e condenados às agonias físicas mais terríveis, até a hora de sua morte: um por empalamento, outro por crucificação. Um pelas mãos dos fiéis, outro pelos infiéis. Mas Jesus eu temia mais porque me disseram a vida toda que existia. E se ele tivesse mesmo aquele olhar do quadro na casa do meu avô, eu certamente não gostaria de encontrá-lo.

Minha infância teve tardes de sábado pavorosas em que a minha irmã me chamava para assistir filmes de terror. Eu não podia recusar. Reconhecia a vergonha do medo pelas coisas que não existem e não queria demonstrar covardia. Olhava para minha irmã de canto de olho –para ver se ela me observava enquanto eu escondia o rosto com as mãos nas cenas mais terríveis. Eu nunca via as piores partes, mas sabia que nessas noites o sono seria perigoso, na iminência dos pesadelos. Foi de tanto ter pesadelos que acabei me acostumando com as imagens mais sinistras e aos poucos, escondia o rosto cada vez menos.

Aos oito anos, já encarava de frente o Jesus na casa do meu avô, e por longos minutos. Vi que o que tinha de crueldade nele era exatamente o nosso sentimento de culpa. Diziam-nos que ele morrera pela gente. Como olhá-lo nos olhos, então? Eu queria dizimar numa inquisição de brinquedo um punhado de folhas secas, e naquela tarde reconheci no olhar dele um crime que eu nem suspeitava ter cometido. A primeira vez que aprofundei minha relação com as imagens foi através do medo e da culpa. Também foi a primeira vez que me revoltei, sem sequer saber o que era isso. Logicamente, àquela idade eu também não poderia suspeitar o que significa ser uma pessoa teofóbica. Mas foi através de Jesus que tive medo de Deus. Dele e de seu séquito de santos retratados em martírio ou sublimação epifânica.

Certa vez fui com minha mãe visitar alguém que tinha em casa uma verdadeira galeria de personagens católicos: anjos e santos pendiam de paredes descascadas pintadas de bege, que era a cor do hospital, da igreja, das capelas mortuárias e de todas as coisas amedrontadoras ou tristes construídas na minha cidade. Mas lembro de ter voltado toda a minha atenção para aquela mulher que trazia uma roda com serras de ferro. Perguntei quem era e me disseram que era Santa Catarina de Alexandria. Mais tarde me contaram que a roda fora um instrumento de tortura imposto por um imperador romano; que ela aos dezoito anos vencera com argumentos os cinqüenta maiores sábios do mundo, e que quando morrera, no lugar de sangue, saíra leite. Nunca me interessei por questionar a veracidade desses fatos. A história me deixara embevecido no sentido mais místico que pode existir. Foi uma primeira sensação de enlevo erguendo meu corpo e levando a minha imaginação para longe da terra e de todas as pessoas. Mas não para um lugar de fé, eu sabia. Era um mundo de coisas indizíveis, inexplicáveis, muito mais rico do que qualquer mundo que eu já visitara no sono ou quando lançava ao fogo pequenas coisas mortas. Literatura, ficção, conto. Quando me contaram a história de Catarina de Alexandria pela primeira vez, eu tive sim, um verdadeiro arrebatamento. Não conseguia explicá-lo, a quem perguntasse. Eu disse à minha mãe: virei fã de Santa Catarina!. Em tempos mais antigos, me diriam ser este um êxtase católico, e talvez me levassem a seguir uma vida religiosa porque reconheceriam nisto uma espécie de chamamento. E foi. Não é à toa que hoje escrevo.

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