segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Through

Aquele sol foi tão enganador que me tornou cego exatamente quando eu julgara tê-lo visto com um olhar cuidadoso que não tinha antes. Cuidadoso precipitou-me uma sentença: cuidado, rapaz; as eternidades são muito mais breves do que desejamos. Foi de eternidade em eternidade que me deparei com o não-estar das coisas. Agora, no lugar de estar amando, escolhi um ser amoroso. Para o que não é pele, apenas. Toda vez que os meus olhos se debruçaram em adoração sobre qualquer corpo, mais o meu próprio conhecia o vazio inconsolável. Eu olhava a pobreza do encontro físico e depois só me restavam trapos a me segurar no abismo. Mas uma vez olhei um pensamento e fiquei repleto. Não me faltava nada ali: ver por dentro o que ninguém mais vira era amor, então passei a amar as fugacidades: lembrança de uma voz, a vontade do olhar, um riso que era pra mim. As coisas incorpóreas não possuem vazio.

3 comentários:

beto,,, disse...

final pra anotar e relembrar. se pá, escrever em paredes.

Maíra disse...

perfeito, darling. *-*

edu disse...

"Amar fugacidades..." Já quis me parecer que não tínhamos escolha senão amar o transitório; e que grande parte da pungência e da beleza da poesia vinha desta condenação do amor a sempre se ligar a objetos que não são eternos. Mas e se uma solução possível for amar o amor? Bowie: "All I have is my love of love... (And love is not loving...)".

(Textinho instigante, Léo!)