domingo, 31 de outubro de 2010

Dos Adormecimentos De Que Falam As Fábulas

Ganhei um esquife suficientemente fortalecido para que me sirva de armadura e abrigo, mas ao mesmo tempo tão delicado a ponto de não poder ser visto assim de relance -há que se olhar atento e agudo para o meu estado de latência, hibernação, travessia. E enquanto descanso da realidade em necessário sono, é em sonho que trabalho um sem fim de lidas.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Dobraduras

Era todo mundo meio torto ali naquela história. De tão tortos, dobráveis, eu diria. Um deles era tão dobrável que eu guardava ele numa gaveta. Um dia vi um filme do Greenaway e resolvi que ia escrever um livro nele. Em japonês. Como não sabia a língua, fiquei copiando os ideogramas e rezando pra que ele não tivesse vontade de traduzi-los. No fim, ele nunca teve, porque o dobrei em tantas páginas que ele ficou do tamanho de um pocket book. Daí guardei numa gaveta com entradas de cinema, uma porção de cartas e papéis de bala e nunca mais lembrei que tinha guardado. O segundo era tão dobrável que eu fiz até origami dele. Coisas artísticas, às vezes dolorosas. Algumas partes necessitavam do auxílio de tesouras e estiletes. Esse nunca mais voltou a ser o que era antes, tal o outro. Num dia em que uma chuva desabou sobre a cidade eu repousei ele muito delicadamente, em forma de barco, sobre um pequeno riacho que corria do meio-fio até a sarjeta. Sempre senti que ele precisava de aventuras. Enviei-o para uma antes que ele decidisse ir por conta própria. Pensei romanticamente, sem nenhuma ironia, que foi para o bem dele. Que ele seria tipo um Odisseu se ele não fosse o próprio barco. E que eu seria uma espécie de Ítaca para onde ele queria retornar. O terceiro era torto, mas tinha firmeza. Precisei de instrumentos mais fortes e durante o processo fortaleci meus músculos e também eu sofri ferimentos. Era tão pesado e possuía extremidades tão afiadas que numa tentativa de erguê-lo, ele me decepou as duas mãos, e foi nesse momento que eu decidi abandoná-lo, inacabado como estava, enquanto escultura, mas ainda orgulhoso, mesmo que para sempre tombado. O que veio depois não consegui dobrar. Tinha para ele uma finalidade de caixa, onde eu iria me guardar dentro e descansar os meus últimos dias. Ele até fez menção de me envolver sob a sua proteção, certa vez. Era macio como uma tecitura de seda e ao espiar dentro dele senti que também era escuro e morno. Bom pra dormir. Bom pra se perder dias e noites e esquecer até da passagem do tempo. Ele era tão delicado que sua pele era uma pele que exigia afagos. Diante da minha falta de mãos, não achou justa a troca. Tentei dobrá-lo à força, primeiro com os joelhos, como imaginei que um ancestral dobraria uma caça. Depois com os dentes, para que ele se curvasse e desistisse da luta, e assim sangrando, me deixasse entrar. Forcei passagem, chutei com força, vociferei até ficar sem voz. Meu choro se fez sal sobre as omoplatas rasgadas e macio como era, ele não conseguiu me ferir. Quando me olhou exausto deslizou suave para fora do meu abraço e serpenteou para longe. Lá adiante, começou a dobrar a si mesmo em várias camadas, como um manto muito nobre que só poderia ser vestido por um santo, ou um papiro muito antigo a ser descoberto depois de milênios. Mãos muito parecidas com as mãos que eu tivera um dia o recolheram e ele foi de bom grado, como uma relíquia. Só que essas mãos tinham braços e um corpo e esse corpo tinha um rosto com um nome e uma história. Eu permaneci ali, recuperando o fôlego. O mais torto de todos, e só precisava que me dobrassem um pouco para que eu pudesse me endireitar. Quando alguém me viu dobrável, era tarde demais. Eu já era incapaz de adaptações e consertos. Esse último ainda me ofereceu os braços para brincar com eles. Dobrei-os sobre os meus ombros, dobrei-os sobre as minhas pernas, e a cada vez que eu nos dobrava a nossa rigidez fazia um ruído de coisas enferrujadas e pedaços de nós se desprendiam e caíam ao chão. Separamo-nos, então, porque juntos não tínhamos serventia. Alguém achou que ele era bom pra servir de apoio e o levou consigo. Eu achei que o tempo já me havia amolado o suficiente pra ser gume afiado e foi adotando a forma de um canivete de bolso que eu finalmente me dobrei sozinho.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Das Armas Brancas

Como se projetar o meu corpo no teu tempo
Tivesse o mesmo efeito de adentrar teu espaço,
Apressei o meu passo para te atravessar a sombra.
Corri na tua direção com uma lança,
Pela décima vez disposto a destroçar o teu semblante sob o sol da tarde,
Para depois puxar esse mesmo sol com uma corda e atear fogo ao teu redor
E te impedir passagem –olha só- mesmo depois de morto.
Tentei sempre inutilmente atrelar meus monstros ao teu calcanhar
Mas a tua forma esguia serpenteia para longe de qualquer coisa que te recorde o meu rosto.
Então eu recorto o meu rosto em cem pedaços e te entrego numa caixa,
Pra você montar da forma mais apropriada
Misturado aos traços de Alain Delon ou qualquer outro.
Fica feio, vai. Fica pequeno, e continua torpe.
Fica mudo como uma porta, e passa a chave.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Interstício (Em Prol de Um Cessar Momentâneo nas Abstrações Líricas)


"The Lord of the Flies was diagnosed as sound." (Tori Amos, Pandora's Aquarium)

“Queria ser feliz”, escrevi isso num caderno um dia. Não sei dizer quando foi, porque nunca pensei que fosse capaz de escrever algo assim. Que a minha surpresa não seja lida como um flerte com o pessimismo e a solidão. Não é bem assim. Se me assombro é porque enquanto busco me afastar do lugar-comum mais escuro, sempre quis ficar longe dos clichês mais ensolarados também. Poucas coisas desprovidas de caráter conotativo me agradam em matéria de literatura. Tudo aquilo que se colhe dentro de um verso sempre foi meu interesse maior. Aquela beleza invisível e latente escondida dentro da beleza manifesta; o trabalho de lapidar as palavras em busca do segredo delas.

Infelizmente, na vida prática encontrei o reverso desse encanto. Ando inclinado a rejeitar metáforas toda vez que alguém deseja me dizer alguma coisa do tipo: “gosto de você.” Geralmente recuso, polido, mas enfático, as declarações do tipo simbolistas porque elas tendem a me incutir ilusões e frustrações futuras. Erros de leitura, entende? Que não me venham dizer: “você é minha primeira alegria” quando eu vou entender que eu sou a alegria primeira. Além disso, corremos o grave risco de eu querer ser também a última. Prefiro que digam simplesmente que a minha presença em determinada manhã se determina como um primeiro bom acontecimento em um dia difícil. Que deixem para mim as tantas coisas que gosto de incrustar numa entrelinha quando sou eu quem cria a tal entrelinha. As conotações dos outros para comigo sempre foram muito mais motivo de angústia do que de deleite em adivinhar seus possíveis sentidos. Enfim, entendam por estas linhas que o meu diagnóstico é este: bipolaridade lírica. Mas isso, como qualquer doença de espírito, foi adquirido com o tempo e provém de uma causa: depois de tanto ler errado tentativas poéticas do outro para comigo, tomei uma certa aversão ao diletantismo genuíno de alguns amantes; esses que se inflam de inspiração pelo simples reflexo deles mesmos nos nossos olhos.

Se passei a dispensar os teores vagos e a confusão provenientes do romantismo alheio, é apenas quando o são direcionados a mim. Do contrário, me aborreceria facilmente com todos os poemas que já foram escritos e estaria renegando grande parte das coisas que formam a minha identidade e que sustentam esse mundo. Quero a clareza quando eu sou o objeto. Mas para o outro, faço questão de me por esfinge. Aqui descobri, como quem perfura e perfura até encontrar uma nascente, o meu poço de egoísmos. Exigir algo que não se tem é querer roubar preciosidades alheias. Talvez eu me ressinta por não saber demonstrar amor de outra forma que não a poesia. Talvez eu mesmo tenha precisado rebuscar tanto um “eu te amo” que aos ouvidos do outro ele virou uma parábola em sânscrito. Talvez eu precise da clareza alheia como remédio para a poesia sufocada no peito, que me fecha a garganta e que me trouxe uma verdadeira bulimia de versos.

Hoje reescrevi a frase. “Queria ser feliz.” Simples assim, sem transformá-la em surrealismo, porque eu preciso de uma vez por todas que me entendam. Olhei para a frase como um dândi teria olhado pela primeira vez para o urinol de Marcel Duchamp. Mas aos poucos tomei gosto e a frase virou verso. Não digo que vou assumir em definitivo uma mudança de estilo. É que por hora isso me cabe como uma verdade que não necessita proliferar anjos ou demônios em imaginação alguma. Dadas as considerações iniciais, segue-se um poema:


"Queria ser feliz."

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domingo, 10 de outubro de 2010

Hóspedes

Recebo bem esses meus hóspedes, mas eles me são secretamente indesejados. Só a polidez não me permite que lhes chame a atenção para um fato: estão se prolongando demais numa casa cujas instalações não comportam visitas. Não sei quando irão embora. Disseram-me: outubro. Mas dez mil outubros se passaram desde então e ainda estamos juntos. Quando olho pela janela um céu de sépia que permanece o mesmo há séculos e séculos (como se houvessem colado do lado de fora uma fotografia de céu) eles se acomodam ao meu redor e ensaiam toques de conforto que jamais se concretizam. Nunca acendemos as luminárias porque nunca anoitece. Se eu durmo, é somente para sonhar com a madrugada. No começo, pregavam-me peças o tempo todo. Fizeram desaparecer meu Maiakovski. Uma vez esperaram meu sono para descosturar todos os cortes que eu mesmo costurara ao longo de uma vida e desde então estou sangrando cada um deles de novo. E quando o sangue todo acabar, não vai doer mais, eles dizem. Só que isso foi há uns oitenta anos atrás, meu Deus, eu nem sei. Tinha alguém igual a mim, igualzinho a mim sentado naquela poltrona de canto. Tinha os olhos abertos para o nada, e foi mudando de cor e de cheiro. De uns tempos pra cá, só sobraram uns fiapos de cabelo. Uma roupa velha é o invólucro para os ossos. Até eles amareleceram. É tudo muito sépia aqui. Quando eles todos se forem, vou arrumar tudo e colocar umas cores. Quem sabe até anoiteça.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Religare

Religare I

Foi quando a Terra religou as trompas
depois que Deus escutou Velvet Underground.
It's the beginning of the New Age.
Robert Mitchum estava beijando uma loura gorda.
e fé nasceu.

Religare II

O cachorro de Deus só late em latim.

Religare III (recordis)

re-cordis é melhor do que re-ligare.
mas dói mais.
unir de volta é voltar a ter.
passar de novo pelo coração é nostalgia.
re-ligare é uma sutura de linhas firmes.
re-cordis é uma agulha sem fio alinhavando o vazio na pele da memória.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Sobre Vôos e Vômitos

A distância, em alguns casos, tem o efeito benéfico de um remédio cujo gosto ruim provoca repúdio. Mas calma. Primeiro o dissabor, depois a cura. Nem que seja momentânea. Quando Fernanda me disse "estou amando de novo", dei um passo para trás, como se fosse contagioso. Depois, busquei em vão alguma palavra de consolo. Ela me disse: "o vejo todos os dias" e eu logo pensei: "é grave." Se tivesse poderes sobrenaturais, lhe administraria o remédio e o tal moço iria de pronto a Marte. Infelizmente meu pensamento não afasta meus próprios monstros. De tanto espantar moscas invisíveis, me habituei a cacoetes. Quem me pegar estapeando o ar, não se surpreenda. Nessas horas algum fantasma de amor me ataca. Acho que alguns gestos são a manifestação inconsciente das utopias. Se eu quero sorver a madrugada, fumo com vontade um cigarro, até a ponta. Se eu quero esconder-me até de mim mesmo, ando encurvado como se o rosto pedisse ao peito passagem. Quando aliso o cabelo é para mostrar que preciso do acalanto da mão alheia. Dar de ombros significa "na verdade eu me importo". Fernanda tem uns olhos que viram paisagem se você se debruçar sobre eles. Mas esses moços não querem saber de arte. Tem uma voz que dissipa agruras e rompe o desamor em estrondos. Mas não querem saber de amor. Eles ignoram que um toque dela é um tecido úmido para a febre. Eles querem a febre. A distância me fez bem. Meu mais querido me esqueceu. O que veio depois me tornou alimento diário para a sua necessidade de troça. Rir do amor humano tornou esse moço o mais faminto entre os animais. E os animais são lindos, quando não somos a presa. Tolice minha, querer domesticar uma hiena que já se fartou de coelhos e cães. Tolice nossa, Fernanda. Melhor nos apresentarmos a esquálidas aves de rapina. Que nos biquem os olhos, que se deleitem com o gosto do nosso sal. Que façam da nossa decomposição um banquete. E num vôo alto, contra as cores indecentes de um céu de outubro, bem alimentadas, que vomitem às nuvens, as nossas vísceras.

domingo, 3 de outubro de 2010

Yes, Anastasia

Não me olha com engano.
Ilusões, rejeito.
Não tenho talento para Anna Anderson.