sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Dobraduras

Era todo mundo meio torto ali naquela história. De tão tortos, dobráveis, eu diria. Um deles era tão dobrável que eu guardava ele numa gaveta. Um dia vi um filme do Greenaway e resolvi que ia escrever um livro nele. Em japonês. Como não sabia a língua, fiquei copiando os ideogramas e rezando pra que ele não tivesse vontade de traduzi-los. No fim, ele nunca teve, porque o dobrei em tantas páginas que ele ficou do tamanho de um pocket book. Daí guardei numa gaveta com entradas de cinema, uma porção de cartas e papéis de bala e nunca mais lembrei que tinha guardado. O segundo era tão dobrável que eu fiz até origami dele. Coisas artísticas, às vezes dolorosas. Algumas partes necessitavam do auxílio de tesouras e estiletes. Esse nunca mais voltou a ser o que era antes, tal o outro. Num dia em que uma chuva desabou sobre a cidade eu repousei ele muito delicadamente, em forma de barco, sobre um pequeno riacho que corria do meio-fio até a sarjeta. Sempre senti que ele precisava de aventuras. Enviei-o para uma antes que ele decidisse ir por conta própria. Pensei romanticamente, sem nenhuma ironia, que foi para o bem dele. Que ele seria tipo um Odisseu se ele não fosse o próprio barco. E que eu seria uma espécie de Ítaca para onde ele queria retornar. O terceiro era torto, mas tinha firmeza. Precisei de instrumentos mais fortes e durante o processo fortaleci meus músculos e também eu sofri ferimentos. Era tão pesado e possuía extremidades tão afiadas que numa tentativa de erguê-lo, ele me decepou as duas mãos, e foi nesse momento que eu decidi abandoná-lo, inacabado como estava, enquanto escultura, mas ainda orgulhoso, mesmo que para sempre tombado. O que veio depois não consegui dobrar. Tinha para ele uma finalidade de caixa, onde eu iria me guardar dentro e descansar os meus últimos dias. Ele até fez menção de me envolver sob a sua proteção, certa vez. Era macio como uma tecitura de seda e ao espiar dentro dele senti que também era escuro e morno. Bom pra dormir. Bom pra se perder dias e noites e esquecer até da passagem do tempo. Ele era tão delicado que sua pele era uma pele que exigia afagos. Diante da minha falta de mãos, não achou justa a troca. Tentei dobrá-lo à força, primeiro com os joelhos, como imaginei que um ancestral dobraria uma caça. Depois com os dentes, para que ele se curvasse e desistisse da luta, e assim sangrando, me deixasse entrar. Forcei passagem, chutei com força, vociferei até ficar sem voz. Meu choro se fez sal sobre as omoplatas rasgadas e macio como era, ele não conseguiu me ferir. Quando me olhou exausto deslizou suave para fora do meu abraço e serpenteou para longe. Lá adiante, começou a dobrar a si mesmo em várias camadas, como um manto muito nobre que só poderia ser vestido por um santo, ou um papiro muito antigo a ser descoberto depois de milênios. Mãos muito parecidas com as mãos que eu tivera um dia o recolheram e ele foi de bom grado, como uma relíquia. Só que essas mãos tinham braços e um corpo e esse corpo tinha um rosto com um nome e uma história. Eu permaneci ali, recuperando o fôlego. O mais torto de todos, e só precisava que me dobrassem um pouco para que eu pudesse me endireitar. Quando alguém me viu dobrável, era tarde demais. Eu já era incapaz de adaptações e consertos. Esse último ainda me ofereceu os braços para brincar com eles. Dobrei-os sobre os meus ombros, dobrei-os sobre as minhas pernas, e a cada vez que eu nos dobrava a nossa rigidez fazia um ruído de coisas enferrujadas e pedaços de nós se desprendiam e caíam ao chão. Separamo-nos, então, porque juntos não tínhamos serventia. Alguém achou que ele era bom pra servir de apoio e o levou consigo. Eu achei que o tempo já me havia amolado o suficiente pra ser gume afiado e foi adotando a forma de um canivete de bolso que eu finalmente me dobrei sozinho.

2 comentários:

beto,,, disse...

putz, léo... esse foi do mais fodidos.

Milla Helmine disse...

Minhanossasenhora. Capotei.