domingo, 10 de outubro de 2010

Hóspedes

Recebo bem esses meus hóspedes, mas eles me são secretamente indesejados. Só a polidez não me permite que lhes chame a atenção para um fato: estão se prolongando demais numa casa cujas instalações não comportam visitas. Não sei quando irão embora. Disseram-me: outubro. Mas dez mil outubros se passaram desde então e ainda estamos juntos. Quando olho pela janela um céu de sépia que permanece o mesmo há séculos e séculos (como se houvessem colado do lado de fora uma fotografia de céu) eles se acomodam ao meu redor e ensaiam toques de conforto que jamais se concretizam. Nunca acendemos as luminárias porque nunca anoitece. Se eu durmo, é somente para sonhar com a madrugada. No começo, pregavam-me peças o tempo todo. Fizeram desaparecer meu Maiakovski. Uma vez esperaram meu sono para descosturar todos os cortes que eu mesmo costurara ao longo de uma vida e desde então estou sangrando cada um deles de novo. E quando o sangue todo acabar, não vai doer mais, eles dizem. Só que isso foi há uns oitenta anos atrás, meu Deus, eu nem sei. Tinha alguém igual a mim, igualzinho a mim sentado naquela poltrona de canto. Tinha os olhos abertos para o nada, e foi mudando de cor e de cheiro. De uns tempos pra cá, só sobraram uns fiapos de cabelo. Uma roupa velha é o invólucro para os ossos. Até eles amareleceram. É tudo muito sépia aqui. Quando eles todos se forem, vou arrumar tudo e colocar umas cores. Quem sabe até anoiteça.

3 comentários:

Anna K. Lacerda disse...

Quando deu por si estavam imanados na poeira que sobrevoava o feixe das frestas. A primavera pulava carniça verão para abraçar o outono. E a noite não havia! Só o espectro dele mesmo no canto daquele canto. Só o adeus de quem queria ter acabado de chegar.

(beijos menino charmoso)

Thiago Pinheiro disse...

Mágicooo!!

beto,,, disse...

gostei muito tb. imagens fodidas. tempos fodidos. é que dizes quantos são os meses ou anos é tão besteira, né? eu acho.