segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Sobre Vôos e Vômitos

A distância, em alguns casos, tem o efeito benéfico de um remédio cujo gosto ruim provoca repúdio. Mas calma. Primeiro o dissabor, depois a cura. Nem que seja momentânea. Quando Fernanda me disse "estou amando de novo", dei um passo para trás, como se fosse contagioso. Depois, busquei em vão alguma palavra de consolo. Ela me disse: "o vejo todos os dias" e eu logo pensei: "é grave." Se tivesse poderes sobrenaturais, lhe administraria o remédio e o tal moço iria de pronto a Marte. Infelizmente meu pensamento não afasta meus próprios monstros. De tanto espantar moscas invisíveis, me habituei a cacoetes. Quem me pegar estapeando o ar, não se surpreenda. Nessas horas algum fantasma de amor me ataca. Acho que alguns gestos são a manifestação inconsciente das utopias. Se eu quero sorver a madrugada, fumo com vontade um cigarro, até a ponta. Se eu quero esconder-me até de mim mesmo, ando encurvado como se o rosto pedisse ao peito passagem. Quando aliso o cabelo é para mostrar que preciso do acalanto da mão alheia. Dar de ombros significa "na verdade eu me importo". Fernanda tem uns olhos que viram paisagem se você se debruçar sobre eles. Mas esses moços não querem saber de arte. Tem uma voz que dissipa agruras e rompe o desamor em estrondos. Mas não querem saber de amor. Eles ignoram que um toque dela é um tecido úmido para a febre. Eles querem a febre. A distância me fez bem. Meu mais querido me esqueceu. O que veio depois me tornou alimento diário para a sua necessidade de troça. Rir do amor humano tornou esse moço o mais faminto entre os animais. E os animais são lindos, quando não somos a presa. Tolice minha, querer domesticar uma hiena que já se fartou de coelhos e cães. Tolice nossa, Fernanda. Melhor nos apresentarmos a esquálidas aves de rapina. Que nos biquem os olhos, que se deleitem com o gosto do nosso sal. Que façam da nossa decomposição um banquete. E num vôo alto, contra as cores indecentes de um céu de outubro, bem alimentadas, que vomitem às nuvens, as nossas vísceras.

2 comentários:

beto,,, disse...

putaquepariu... foda... inteirinho.

"Rir do amor humano tornou esse moço o mais faminto entre os animais." até o final "as nossas vísceras". muito foda.

Ly disse...

Ouch. Que soco mais bonito.