sábado, 13 de novembro de 2010

Apocalypse Now, Please




Sei que não foram sacerdotes mesopotâmicos que adivinharam esse meu destino até agora pouco surpreendente. É claro que quando se debruçavam sobre o fogo eles estavam mais ocupados em ver dilúvios, pragas, tremores de terra e colunas de templos a desabar sobre o mar. Civilizações inteiras desaparecendo no cosmos, e as próprias estrelas se modificando lentamente em espetáculos mais sublimes e terríveis que o meu despertar comer dormir numa cidade que ainda não viu catástrofes bíblicas. A única coisa que me remete a essas estrelas é uma certa lentidão evolutiva. Mas não me interessa a evolução física dos homens. Se todos nós ainda temos resquícios de rabo, é das coisas muito particulares que falo; coisas cujas estruturas, se é que existem, me parecem mais complexas e imutáveis do que a matéria que forma os organismos vivos.

Hoje vemos o átomo. Queria poder ver os sonhos, os pensamentos, as fantasias. Seria bom poder entender por que me sinto mais eu pela minha vontade de sorriso do que pela visão do meu rosto sorrindo, por que quando eu choro eu sou mais o meu desconsolo do que uma cara patética a contorcer onze músculos e uma voz entrecortada tentando verbalizar o indizível da dor. É fácil demais ser patético através do choro, e o ridículo camufla a beleza que existe nas lágrimas, que é uma beleza que não se pode enxergar. Queria ver como são belas, às vezes, as vontades de choro. Queria saber o nome de um sentimento que me nasceu um dia e ficou até hoje. Descobrir se ele se parece remotamente com alguma coisa chamada amor ou vontade de amor, ou amargura de amor, ou nostalgia de amor, ou ódio. Uma mão tem cinco dedos, e nenhum deles é igual ao outro. Queria saber se o amor também tem cinco dedos e se assim for, é alguma coisa que unge, que rasga, que afaga, que delira e que apaga, tudo ao mesmo.

Se esta minha lentidão em envelhecer minha alma me torna um irmão espiritual de estrela, quando eu choro me nasce um vinco a mais e meu corpo está mais próximo de ser poeira. Hoje desisti de me olhar no espelho e me soube mais eu em soluços quando enfiei a cara no travesseiro e fui entrando no escuro: cada vez mais eu, cada vez distinguindo melhor no cosmos o envelhecimento magistralmente belo das estrelas -é preciso que se dê adjetivos como esse às estrelas e às coisas de estrelas, e nesse caso até o lugar-comum e as redundâncias merecem perdão. À nós, nada de monumental. Exceto afirmar que estamos monumentalmente entediados nessa cidade. Incomensuravelmente sozinhos nesse mundo todo, e antes que possamos olhar com nosso olho bem dentro do olho de um sonho, nos desintegraremos sem alardes e sem legado.
 
Se a nossa História comporta as adivinhações mesopotâmicas, não comporta as advinhações da minha história, minúscula e repleta de casualidades em livrarias de esquina e outros leves sobressaltos. Mas eu não quero fazer parte dessa História maior, nem quero a pretensão de profecias às minhas pequenas vertigens diante de certos olhares alheios. Aos sacertodes, prefiro os cineastas, e aos sumérios, prefiro os poloneses. Krzysztof, por exemplo. Esses que me incutiram no espírito um desejo não-físico de olhar as coisas. Nesse sentido, ainda que incapazes de transmutar o eterno vazio em paisagem, alguns terremotos e um sem-fim de dilúvios me atravessam todos os dias, insuspeitos e ínfimos para o mundo como a morte de uma formiga. Aparentemente, a cidade continua tranquila e todos nós vamos chorar ridiculamente por alguns milhões de anos ainda, ignorantes de tantos e tantos sentimentos sem-nome, com nossos microscópios e átomos e tédios e vincos e resquícios de rabo.
 
Imagem: Departing Angel (da série Five Angels for The Millenium)- Bill Viola, vídeo instalação, 2001.

Trilha: Little Earthquakes (do álbum Little Earthquakes)- Tori Amos, 1992.

Um comentário:

beto,,, disse...

porra. achei lindo especialmente o final. e a imagem do amor com cinco dedos se mexendo.