segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Das Melodias Insuspeitas

Um piano estala e tilinta e produz brilhos e gritos enquanto a sala toda se enche das pessoas que já fomos. Sou eu engolido pelo escuro até o pescoço, mas o rosto -o rosto é o resto imerso em poeira e sol. À espreita, à espera. Sempre no aguardo. Em guarda naquela sala, vanguardista dos amores mais estranhos, en gallop para longe das liras e dos contornos de um corpo alheio em movimento de fuga. Ele foge para o norte, eu fujo para o sul, mas é só em sonho. Quando acordo, cada vez mais longe e cada vez mais forte, uma luz se acende ao meu passo-sorte, e outras luzes se apagam em nosso passo-morte, mas é sempre dança. Um piano estronda e geme e gane como um cão ferido a pedradas. Nunca disse que o som precisava ser bonito. Cada máquina de destruição que me seduziu o ouvido, nesses dias de preferir a outro, um sentido.

3 comentários:

Anna K. Lacerda disse...

Se um piano toca o espaço balança suave pelas notas cardíacas. Sempre seremos o que fomos, mesmo que seja na lembrança, como a uma música que soa no distante dos labirintos. Profunda.
Se há fuga, mesmo em sonho, há encontro!

Cá estamos, cá estaremos!

Raíssa Abreu disse...

Muito forte essa imagem do piano vivo. Dá até arrepios.
Lindo, sempre.

beto,,, disse...

ganindo como um cão ferido. gostei.