terça-feira, 23 de novembro de 2010

De Perdas e Pedras

Pedra
fruto
pele
sangue
sumo
terra- mistura homogênea para magoar olhares sedentos dos gostos agridoces e para excitar os que gostam de sujeira. Meu olho é incrédulo porque o desperdício sempre me choca. Potencial ele tinha, para golpear com força, inclusive. Mas queria incentivá-lo a descontar raivas e azedumes em cima de portas -ou até de gentes, porque tem umas que merecem. Não, o fruto esmagado no meio da rua não era eu. Nunca tive talento para a doçura comparativa à das frutas, tampouco amadureci de uma estação pra outra. Ele, se me desse uma pedrada, capaz da pedra se partir em duas. O outro esmigalhado era ele mesmo. Quem ele poderia ter sido, ou viria a ser, não fosse a pedra. Não fosse a pedra que ele insistia em trazer consigo desde sei lá quando. Talvez a mãe tenha parido ele e a pedra tenha vindo junto, dentro de uma pequena mão cerrada que sempre teve tendência a ser garra. Persuadi-lo a soltar a pedra seria como dizer para ele esquecer do próprio nome. Questão de identidade, sabe. Não tenho medo daquela pedra na mão dele. Muitas vezes até esqueci que ela existia, porque em certas tardes de calma e sol, era bom ficar olhando um despertar de fruto quando aquela mão ousava ficar vazia. E então pensava em como seria lindo se ele me oferecesse uma coisa cuja semente era minha -porque umas duas ou três vezes havia sido- e eu me perdia em contemplação e espera como se o milagre de um filho nascido de dois homens se desenrolasse à minha frente. Isso nunca durava muito tempo. Achei que era porque nunca tinha tido amor ali, naquelas tardes. E tinha razão. Amor mesmo, nunca teve. Só uma calma estúpida que nos enchia de promessas de pertencimento enquanto os frutos amadureciam e depois se abriam em sumo e sangue sobre a terra, e olha só- até as pedras cresciam.

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