terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Menino de Anita




Ele era dono de algumas coisas estranhas, diriam. Pra começar, um jeito de ser. Isso é feito de gestos, de voz, de um olhar pra baixo todas as vezes que percebia nos olhos de alguém um certo brilho. O sorriso dele também era algo muito particular por causa de uma covinha que se formava apenas quando o sorriso era um meio-sorriso e era assim que, quase sempre, ele sorria. A meia-lua nos lábios, diziam os mais próximos, e os mais próximos... eram poucos, mas eram dele. Todas estranhas, essas pessoas que ele tinha. Até a cadela era estranha, mas tão dele que só não falava porque ele mesmo falava muito pouco. Chamava-se Anita porque ele lera esse nome em algum livro onde uma cadelinha desenhada se chamava Anita. Eles tinham em comum um redemoinho que se formava no alto da cabeça e também quase todos os gostos. Ele assistia filmes antigos quando a tarde caía, e era sempre quando a tarde caía, e ela assistia com ele, porque gostavam daquele horário e porque a luz da televisão iluminava a sala sem perturbar a visão do céu quando ficava meio lilás lá pro horizonte. Ela ria muito com Buster Keaton, ou pelo menos ele achava que ela ria muito, ou então era porque ele mesmo ria muito e gostava de pensar que compartilhavam do mesmo humor. Bem, se Anita não ria, ficava atenta, durante mais de hora até, e se algo pode ser afirmado a respeito de Anita, é que aquela cachorrinha gostava mesmo de Buster Keaton. Ela também gostava de pequenas lagartixas mortas, mas desse gosto ele não compartilhava. Nunca ficou muito claro se a cachorra era uma assassina de lagartixas, e ele preferia não se demorar pensando nisso. O que conta é que, se Anita as matava, ao menos mantinha uma discrição sobre o seu hábito.

Quando ele ia para a escola e fechava atrás de si o portão do jardim, Anita assumia propositalmente uma expressão de abandono e era sempre como se ele estivesse se distanciando pela primeira vez. Juntava a cabeça entre as patas e baixava as orelhas o máximo que conseguia. Então ele sempre voltava e lhe dava um afago. Ela só saía de sua prostração quando dava tempo dele já ter virado a esquina. Acho que era nessas horas que ela descontava suas mágoas sobre as lagartixas que andavam a passear pelo muro, se é que ela o fazia. Quando ele voltava pra casa, ela já havia esquecido as horas de abandono. Nisso também eram iguais. Sabiam perdoar e uma vez tendo perdoado, não lembravam mais da agressão.

Foi assim que um dia o pai do menino saiu para o trabalho e voltou três anos depois. O menino abraçou o pai como se tivessem se passado oito horas em vez de mais de mil dias de ausência e assistindo ao reencontro Anita faiscou seus olhos marrons para ver a meia-lua se formando nos lábios do menino. Era fácil fazê-los feliz. Se um se alegrava por qualquer razão, o outro se alegrava junto. O menino percebeu que a cadela gostava do Natal quando a mãe dele arrumou uma árvore diante da janela, ao lado da televisão, e o olhar de Anita ficava perdido entre Buster Keaton, o lilás do crepúsculo lá no horizonte e as luzinhas da árvore piscando entre bolas douradas e pingos brancos que imitavam neve. O menino nunca tinha visto neve, tampouco Anita tinha visto, mas uma vez eles ganharam um globo onde nevava eternamente sobre uma casinha de madeira e várias vezes Anita sonhava que estava lá dentro. Anita tinha três sonhos, dois bons e um pesadelo, que se revezavam: Buster Keaton em cenas rápidas em preto e branco, a neve caindo sobre a casinha do globo, e um exército de lagartixas marchando em sua direção depois que o menino saía para a escola.

Um dia foi a vez da mãe do menino abrir o portãozinho do jardim e sair de casa. Como demorava a voltar, Anita pensou que ela deveria ter ido para a escola. Quis consolá-lo, mas não pôde ajudar. Ela o viu esconder a cabeça entre as mãos e ficar triste de propósito, com as orelhas baixas para que as pessoas percebessem. Como ninguém parecia ligar muito, Anita tentava animá-lo mostrando a ele o muro onde as lagartixas passeavam de tarde. Ele não tinha interesse, mas em agradecimento, esboçava-lhe uma meia-lua azulada. A televisão ficou vários dias desligada. Anita sentava-se ao lado do menino e tentava imitar seus suspiros diante das luzinhas da árvore. Fazia seus olhos marrons faiscarem pra ver se ganhava um sorriso, mas quando muito, ele lhe devolvia um afago ou um abraço desajeitado. No começo, para falar a verdade, ela não gostava muito de abraço, porque os abraços dos meninos tendem a não ajustar-se muito bem aos abraços dos cães. Não era tão confortável quanto ele pretendia que fosse para ambos, mas naqueles momentos, Anita fazia que gostava e até permitia que ele decidisse o tempo do abraço. Quanto mais longo, mais amoroso, aprendera, e desde então começou a acercar-se dele porque via que ele gostava muito e não entendia porque não lhe ofereciam com frequência algo que ele gostava muito.

O pai permanecia longas horas diante da janela, um bom tempo além do que era aprazível olhar o céu. Às vezes ficava negro sem estrela nenhuma, e como a televisão andasse desligada naqueles tempos, Anita olhava do pai para o menino esperando que alguma reação se esboçasse na sala. Tinha noites em que demorava muito até que o menino levantasse e caminhasse até o outro lado para acender a luz. Mas os dias foram passando e aos poucos ele ia acendendo a luz mais cedo que no dia anterior. Até que o pai começou a acender a luz também, e num destes percursos entre o sofá e o interruptor, decidiu pegar o casaco e o chapéu no cabideiro e foi para a rua. Anita e o menino ficaram apreensivos, mas algumas horas depois, o pai voltou. Atirou-se com casaco e tudo no sofá e dormiu na mesma posição em que caíra, com o chapéu no rosto.

Os dias na casa foram voltando ao normal. O menino ia para a escola, Anita se aproximava do muro onde as lagartixas passeavam e o pai de vez em quando saía sem avisar e quando voltava, dormia de chapéu, estirado no sofá. Um dia o menino colocou um dvd de Buster Keaton e Anita desejou ter braços humanos para lhe dar um abraço de gente, como aqueles que ele gostava. A luz da televisão iluminava o rosto dele misturada com a luz que vinha da janela. Tinha tanta estrela que nem precisava de Natal, pensou Anita, e desviou os olhos do céu lilás para olhar a meia-lua que se formava nos lábios do menino dela.

O Menino de Anita, conto.

Imagem: Starring Buster Keaton, Léo Tavares

5 comentários:

Maíra disse...

Deram dois nomes: Delicadeza e Encanto. Ai, darling, que lindos - texto e imagem. Orgulho de você, mesmo.

bossa_velha disse...

fiquei curiosa, querendo ler o conto inteiro.

Léo Tavares disse...

nem sei se existe um conto inteiro. na verdade, tenho mais três páginas dele. mas penso que talvez o que está aí seja suficiente. tenho medo de revelar demais certas coisas e perder a atmosfera que ele precisa ter. mas isso será estudado. veremos.
:o)

Fabi disse...

Mas que coisa linda!
Maravilhoso, maravilhoso, maravilhoso!
Um dos contos mais tocantes que eu já li.
Desde já, minha próxima cachorrinha se chamará Anita.

Raíssa Abreu disse...

Me fez chorar. Também queria mais, mas te entendo.